Fotos: Henrique Magro


Capa

Beleza rara

    Remonta ao século XIX a fama dos artesãos de Petrópolis. Já na segunda metade daquele período, os irmãos Guilherme e Henrique Sieber faziam gravações sofisticadas de imagens do Palácio Imperial em vidro e em cristal. As famosas bengalas em madeira esculpidas pelo artesão Carlos Spangemberg eram compradas por Pedro II, que presenteava os amigos com as belíssimas peças.
    No século XXI, ainda que a idéia de tradição pareça dissipar-se como poeira ao vento, o mesmo não se pode dizer das obras daqueles que têm projetado Petrópolis no cenário artístico. A Cidade Imperial guarda verdadeiros tesouros, alguns pouco divulgados, outros conhecidos nacional e até internacionalmente. São obras de artistas e artesãos cuja produção ganhou prestígio, admiração e clientela cativa. Com técnica e sensibilidade, eles manifestaram o talento do artífice que, generosamente, agracia e emociona o público com a beleza de sua arte.


Etienne Demonte
    Ele é um dos maiores representantes da pintura naturalista mundial. Seus trabalhos, assim como os dos filhos André e Rodrigo, e das irmãs Rosália e Yvonne, também pintores naturalistas reconhecidos internacionalmente, integram coleções particulares não só no Brasil, mas também nos Estados Unidos, Europa, Canadá, China e Japão. Com inúmeras exposições nacionais e internacionais, prêmios e medalhas no currículo, sua obra segue a trilha, nos dias atuais, de naturalistas como Albert Eckhout, Frei Cristovão de Lisboa e Rugendas, entre outros que, no passado, retrataram com maestria e poesia a fauna e a flora brasileiras. Em razão do rigor de sua técnica e da exatidão com que registra espécimes de nossos ecossistemas, em especial as aves, cientistas como Augusto Ruschi e Manuel Godoy utilizaram sua pintura como base para pesquisas.
    A arte naturalista de Etienne, assim como a dos representantes da família Demonte, é importantíssima para o Brasil. Autodidata, pesquisa minuciosamente a anatomia e a morfologia dos animais, alguns extintos ou em processo de extinção. Com talento e conhecimento apurado, obtido através de viagens a diversos ecossistemas brasileiros, transcende a mera documentação científica, transmitindo expressividade, beleza e harmonia às obras. “Fiz diversos trabalhos em paleontologia e ictiologia marinha com a orientação de cientistas”, conta Etienne, que reside em Petrópolis há 30 anos. Em seu ateliê, no bairro de Carangola, ensina a técnica da pintura naturalista em aquarela, guache e acrílico a diversos alunos. Renato Serra, proprietário do Hotel Pedra Bonita, é um deles. “Sinto-me muito orgulhoso de pertencer ao grupo de alunos que seguem sua orientação profissional”, comenta.
    Para se ter uma idéia da repercussão da obra de Etienne no exterior, seus quadros decoram os vagões do glamouroso trem Orient-Express e compõem acervo de galerias como a Tryon Gallery, em Londres. Expôs, só para citar alguns exemplos, no Real Jardim Botânico de Madri e no Museu Nacional de História Natural, em Washington. Em uma frase, Etienne resume o conceito de sua arte: “Conhecer é preservar”. Nada mais apropriado para os dias de hoje.

Henrique Lage e Olga Salles Guerra
    Em uma estrada de chão, em Itaipava, um pequeno muro de tijolos estampa o nome Bric. O portão de ferro, entreaberto, revela pilhas de caixas de papelão semelhantes a embalagens de pizzas. Indiferente ao que acontece a 20 metros dali, a União e Indústria mantém seu fluxo habitual de veículos. O que pouca gente sabe é que por trás da simplicidade do lugar são pintados à mão os exclusivos pratos da Associação dos Restaurantes da Boa Lembrança.
    Diariamente, daquele galpão saem peças com os mais variados desenhos, sempre alegres e muito criativos, inspirados nas receitas elaboradas por chefs de 69 renomados restaurantes brasileiros, que pertencem à seleta associação. Criada em 1994 por Danio Braga, a Boa Lembrança é inspirada na Unione Ristoranti del Buon Ricordo, nascida na Itália nos anos 70. A idéia de presentear os clientes que saboreiam uma iguaria dos restaurantes associados com pratos pintados à mão, veio daí. Já a parceria com Henrique Lage e Olga Salles Guerra, donos da cerâmica Bric, surgiu por acaso.
    “Um dia, o Danio perguntou se conhecíamos alguém que pudesse fazer os pratos da associação que estava organizando. A Olga respondeu que eu produziria e ela mesma se encarregaria dos desenhos”, conta Henrique. Foi o tempo de adaptar a cerâmica, especializada na manufatura de peças decorativas em esmalte, à pintura em faiança, cerâmica em barro esmaltado. Com o tempo, os pratos da Boa Lembrança monopolizaram a produção da Bric, que ganhou exclusividade para elaborar as peças.
    No início, eram apenas 13 restaurantes associados. Nove anos depois, os números impressionam: mensalmente, a Bric produz cerca de 8 mil pratos, que dali são transportados para 16 Estados brasileiros e o Distrito Federal. A rusticidade e o humor refinado dos desenhos elaborados por Olga – que cria temáticas diferentes para cada receita – aliados à sofisticação e à originalidade da pintura manual, tornaram os pratos da Boa Lembrança inconfundíveis e disputados. Tanto que a Associação rendeu frutos.
    Hoje, o Clube do Colecionador dos Pratos da Boa Lembrança congrega centenas de associados, de todo o Brasil, que trocam as peças entre si. A microempresária Leyde Jaramillo, moradora do Rio e freqüentadora habitual dos restaurantes da Associação na serra – o Locanda e o Parador Valencia –, é uma entre essas centenas. “Como coleciono desde 94, tenho hoje 260 pratos. O intuito do colecionador é trocar um prato por outro, nunca negociá-lo em dinheiro”, explica. Os interessados em adquiri-lo devem ir a um dos restaurantes associados (veja a lista no site www.boalembranca.com.br, ou ligue para (24) 2237-3307) e consumir a receita da Boa Lembrança. Depois é só pendurá-lo na parede de casa.

Marcelo Alves
    A luthiaria, arte de confeccionar e restaurar instrumentos de corda, tem seu berço em um passado longínquo. Do acervo do Museu Imperial, por exemplo, consta um violino todo em jacarandá, cravado de madrepérolas, datado de 1878, oferecido a Pedro II pelo luthier francês Emile Menesson. Atualmente, com a difusão de indústrias especializadas na produção de violões, violinos, cavaquinhos, bandolins, guitarras e baixos, a luthiaria se restringe basicamente à restauração desse instrumentos. Mas o trabalho do luthier ainda é valorizado por músicos que não abrem mão de utilizar peças únicas e personalizadas, elaboradas seguindo as medidas exatas da estrutura corporal.
    “O instrumento tem que se adaptar ao músico, não o contrário”, defende o luthier Marcelo Alves, um dos únicos em atuação em Petrópolis. A iniciação profissional de Marcelo ocorreu há 10 anos, quando foi acometido por uma das paixões mais comuns na adolescência: a vontade de tocar guitarra. Sem recursos financeiros para comprar uma, decidiu fazê-la com as próprias mãos. Levou tanto jeito para o negócio que acabou por descobrir sua vocação.
    Propagador incondicional da confecção das peças como no passado, Marcelo garimpa demolições em busca de madeiras nobres como mogno, jacarandá e peroba-do-campo para esculpir guitarras e violões. “Os instrumentos fabricados industrialmente são feitos de um tipo de compensado, material infinitamente inferior”, explica. Reconhecido pela qualidade de seu trabalho, hoje Marcelo presta serviços para músicos de Petrópolis, Teresópolis, Rio, Paraíba do Sul e Três Rios.

Carlos França e Mônica Serpa
    Atualmente, reutilizar peças que, em outras épocas, seriam jogadas fora ganha cada vez mais importância. Agora, no lugar da estética do protesto, que via no lixo motivo de expressão artística, sobrepõe-se a urgente preservação da natureza. Ao pregar o reaproveitamento de entulhos com bom gosto e imaginação, a arte da reciclagem tornou-se, além de atitude, uma prática indispensável. Foi percebendo essa transformação que Carlos França e Mônica Serpa decidiram construir móveis com materiais de demolição: madeira, pedra, cacos de ladrilho e ferro. Até aí isso não seria novidade se o casal não assumisse uma nova postura diante da renovação. “Na madeira, por exemplo, mexemos o mínimo possível, somente tratamos as peças contra cupins”, revela Carlos. Dessa forma, olhando-se de perto os móveis construídos pelo casal, podem-se ver pequenos buracos deixados por brocas, ou resquícios de tinta depositados ali há anos. Sua arte caminha, digamos assim, na vanguarda em termos de aproveitamento de material.
    “Não pintamos os móveis, não fazemos pátina nem imitamos o antigo, pois a madeira, assim como nós, adquire marcas ao longo da vida que fazem parte de sua história, de sua beleza”, explica Mônica. Com essa concepção, fazem sob encomenda sofás, camas, estantes, móveis para jardins, mesas, cadeiras, armários e objetos de decoração. A paisagista Josiane Dyckerhoff, dona da loja Trifoglio, em Itaipava, expõe os móveis da dupla. “Eles fazem um trabalho original, de muito bom gosto, que tem o mérito da conscientização”, afirma. De fato, Carlos aproveita a madeira até a última instância, das toras à serragem. Eles querem transmitir esse comportamento a outros artesãos.





























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