Ilustração: A.J. Heinen


Crônica por Ana Julião

A deliciosa batalha do fondue

    Católicos e protestantes que, dizem, inventaram o fondue nos intervalos de uma batalha no século XVI na Suíça devem se arrepender da descoberta quando nós, cariocas acostumados aos 40 graus, resolvemos brincar de casinha de neve na serra. Fondue é um daqueles pratos que mexem com o imaginário. Remete a viagens, primeiro mundo, romance, cachecol, papo-cabeça.
    O prato aparentemente é simples, por mais glamour que o evento acabe ganhando. Sim, evento. Porque fazer fondue envolve agilidade, uma certa organização, atenção ao tempo de todas as etapas. Por isso, atire o primeiro pão com queijo quem nunca enfrentou probleminhas quando prepara essa iguaria. Fale a verdade, o seu réchaud acende na primeira tentativa e não apaga toda hora? Nem quando você tenta reduzir a chama? O queijo nunca gruda no fundo da panela? É meia-noite e você descobre que o único vinho branco disponível em casa, e que será usado como ingrediente, é caríssimo? Bom, se algo dá errado, console-se: suíços também devem achar que comer feijoada é um evento e que é preciso talento natural para distinguir o pé do rabo. O último fondue lá em casa teve família, item não relacionado às referências do prato (lembra? Viagens, primeiro mundo, romance...). Mas como a lenda também conta que o fondue foi inventado nas horas vagas da batalha – um lado levava o pão; o outro, o queijo – pode-se dizer que serve para integrar e para reacender os princípios mais básicos de solidariedade aos quais o conceito de família remete.
    Bom, essa história do conflito religioso na Suíça eu descobri numa rápida consulta à internet. Descobri também que existem quase 10 mil sites que fazem, pelo menos, alguma referência ao fondue, palavra de origem francesa, que significa derreter. E esse número só contempla os escritos em português! Não é à toa que quando o inverno vai embora a gente começa a ficar com saudade da estação sempre vinculada ao fondue. Bobagem. Uma amiga, moradora da Tijuca, não se faz de rogada. Plena primavera no Rio, quando a temperatura passa – longe – dos 20 graus, liga o ar condicionado e manda ver. Ou melhor, derreter.


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