Lins de Barros: Santos Dumont fez o primeiro vôo homologado da história, não os Wright





A “Encantada” é hoje atração turística no Centro Histórico

Fotos: Henrique Magro
Ilustrações: Thaïs Susini



Especial: Entrevista com Henrique Lins de Barros

Redescobrir Santos Dumont é questão de nacionalidade

    Em seu terceiro livro sobre Santos Dumont, intitulado Santos Dumont e a invenção do vôo, lançado no primeiro semestre deste ano pela editora Zahar, o físico e pesquisador do Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas, Henrique Lins de Barros, reforça que o primeiro vôo completo e homologado da história da humanidade foi realizado, em 1906, pelo brasileiro. Ele defende Santos Dumont como a figura-chave na transformação de uma aventura de inventores no meio de transporte que caracterizou o século XX, o avião. Lins de Barros ressalta a importância do inventor no momento em que os Estados Unidos comemoram, este ano, o centenário do vôo dos irmãos Orville e Wilbur Wright, realizado em 17 de dezembro de 1903. Entrevistado em seu escritório, na Urca, o pesquisador fala sobre a polêmica da paternidade da aviação, a importância da recuperação da imagem de Santos Dumont para o Brasil e o papel de Petrópolis nesse contexto.

Estações de Itaipava - Seus três livros sobre Santos Dumont abordam a polêmica da primazia do vôo?

Lins de Barros - Sim, e os três apontam para a defesa de Santos Dumont, pois não há a menor dúvida quanto à conquista do brasileiro. De fato, os irmãos Wright realizaram um vôo, em 1903, com um aeroplano que dependia do vento para sair do chão. Em 1904 e 1905 fizeram outros vôos com a utilização de uma catapulta. Em contrapartida, em 12 de novembro de 1906 Santos Dumont realizou o primeiro vôo completo da história com o 14-bis: decolou, voou e pousou. A Federação Aeronáutica Internacional (FAI), órgão que homologa os recordes da aviação até hoje, homologou esse vôo pela conquista dos primeiros recordes mundiais de distância (220m) e de velocidade (14km/h). Estava inaugurada a era da aviação.

Estações de Itaipava - Em que ponto nasce a polêmica?

Lins de Barros - A polêmica nasce porque, no início do século passado, variava a importância do que era descoberto na aviação. Inicialmente, perguntava-se: “É possível fazer algo sair do chão?”, Santos Dumont mostrou que sim. Depois, a dúvida passou a ser “Esse objeto que sai do chão pode fazer curvas?”, então o francês Henri Farman e o próprio Santos Dumont confirmaram que era possível. Depois, veio outra indagação, “Esse objeto que sai do chão e faz curvas pode atingir longas distâncias?”, os Wright provaram, em 1908, que podia. Foram etapas. O que está acontecendo é que os Estados Unidos querem impor a primazia do vôo ao nome americano, 100 anos depois, com esse vôo dos Wright, em 1903.

Estações de Itaipava - De que maneira o governo norte-americano está tentando fazer dos Wright os inventores da aviação?

Lins de Barros - Não só fizeram uma campanha muito intensa nos últimos 50 anos como agora estão investindo US$ 200 milhões nisso. Com esse dinheiro você reorienta a produção televisiva, por exemplo, de forma a inserir o tema aeronáutico em qualquer programa, mesmo que seja através de uma chamada subliminar, citando os irmãos Wright. Isso invade todas as esferas, inclusive a indústria cinematográfica. Eles não pretendem simplesmente colocar os Wright na história, pois já estão, mas tencionam fazer com que haja um reconhecimento pela FAI de que os dois voaram antes de Santos Dumont, o que implica a retirada de cena do brasileiro, que fica em segundo plano.

Estações de Itaipava - Esse é um bom momento para os Estados Unidos capitalizarem a invenção do vôo?

Lins de Barros - Sim, porque precisam manter sua posição imperialista e os Wright dispõem de elementos propícios para reforçar essa imagem. Eram filhos de pastores presbiterianos e pessoas que, com as próprias mãos, desenvolveram um invento. Detinham, ainda, outras características que os americanos apreciam: a colaboração – um irmão colabora com o outro – e a competição, competem com os demais inventores. Além disso, eram donos de uma fábrica de bicicletas e investiram na aviação do próprio bolso. Depois venderam seu invento para o Exército americano, tornando-se industriais. Como Santos Dumont tinha recursos, pois era filho do maior plantador de café do Brasil no século XIX, pôde dedicar-se exclusivamente à pesquisa. Ele não industrializou suas descobertas. Seu objetivo era chamar a atenção das pessoas para o avião. Quando, em 1910, retirou-se do campo de invenção, passou a trabalhar na difusão e na popularização do vôo e a explorar todas as possibilidades daquele invento, tanto no uso comercial como no militar. Mostrou que a máquina seria importante para transportar pessoas, mercadorias e bombas. Ele anunciou benefícios futuros, principalmente o encurtamento do espaço entre a Europa e a América. Defendeu entusiasticamente o uso militar do avião, principalmente como arma de defesa, pois acreditava que a aviação seria tão eficaz que poderia interromper um processo de guerra.

Estações de Itaipava - O que falta para a imagem de Santos Dumont ganhar força no Brasil?

Lins de Barros - Precisamos descobrir quem era esse homem que se inseriu no contexto da criação de uma nova tecnologia e que, em razão de seus recursos financeiros, realizou o primeiro vôo em dirigível (em 1901, contornou a Torre Eiffel), o primeiro vôo em avião e também o primeiro avião produzido em grande escala (o Demoiselle). Olhamos Santos Dumont de maneira muito tendenciosa, como o “Pai da Aviação”, ou alguém que um dia construiu um avião. A imagem que temos é de um homem distante, um “santo”, categoria a que foi elevado na ditadura de Getúlio Vargas. Mas quem era esse homem que viveu, sofreu, suicidou-se? Sabemos que, a partir de meados da década de 20, ele começou a se mostrar bastante deprimido pelas mortes provocadas por aviões, seja por acidentes ou pelo uso militar. Em 1932, com a saúde bastante debilitada – suspeita-se que sofria de esclerose múltipla – suicida-se, em São Paulo. Daí nasce a idéia de que “o Pai da Aviação martirizava-se pelo uso de seu invento na guerra, a ponto de suicidar-se”. Seria contraditório dizer que Santos Dumont incentivou o uso militar do avião. Enquanto nos últimos 50 anos, os americanos trabalharam para colocar o nome dos Wright na história, no Brasil o nome de Santos Dumont se relaciona à culpa, à vergonha.

Estações de Itaipava - Por que esse sentimento de culpa não atinge os americanos?

Lins de Barros - Porque para os americanos a guerra faz parte do cotidiano, é um fator expansionista. Por isso o Brasil precisa humanizar Santos Dumont e entender sua contribuição. Esse aprendizado tem duas vertentes: uma é a questão da nacionalidade, é compreendermos o que é ser brasileiro; a segunda é entendermos as dificuldades dos avanços técnicos. Se olharmos a obra de Santos Dumont veremos claramente como se sai da ignorância tecnológica para o sucesso, e que, para se chegar a um objetivo, é preciso investimento a longo prazo. Entender os descaminhos e os acertos é um aprendizado que falta ao Brasil. É também preciso coerência em qualquer coisa que se queira fazer em termos nacionais.

Estações de Itaipava - Seria um momento propício para se resgatar e se valorizar a imagem de Santos Dumont no Brasil?

Lins de Barros - Eu acho que, para o governo Lula, a imagem de Santos Dumont cai como uma pluma, pois o centenário do primeiro vôo será em 2006, um ano antes da eleição para presidente, em 2007. É muito simples aproveitar isso politicamente, pois se mobiliza a atenção mundial. Santos Dumont era criativo e inventivo, tinha uma agilidade mental fantástica, era capaz de adaptar-se a situações adversas rapidamente, virtude tipicamente brasileira. Mesmo que este ano os Estados Unidos consigam fazer uma campanha forte, o que vale são os dados históricos. O primeiro vôo reconhecido pela FAI ocorreu em 1906, não em 1903, como querem os americanos.

Estações de Itaipava - Como foi a passagem de Santos Dumont por Petrópolis?

Lins de Barros - Não há muitos registros, além da fantástica casa que construiu na Rua do Encanto. Sabe-se que, em Petrópolis, ele escreveu, em 1918, seu livro O que eu vi e o que nós veremos. Nesse período, também participou de reuniões internacionais sobre aviação, discutiu a utilização do avião na guerra, apoiou o uso de aviões nas batalhas em substituição à cavalaria e opinou sobre a aviação na Marinha e no Exército brasileiros. Agora, onde está a documentação relativa a esse período em Petrópolis, ou as fotografias dessa pessoa tão conhecida? Seria importante resgatar esse material, saber quem freqüentava a casa dele, por que escolheu Petrópolis, com quem se correspondia...Deve-se ver a “Encantada” como um lugar muito especial. Um lugar onde Santos Dumont refletia sobre a maior invenção do século XX.


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