Os pastéis de nata foram uma das delícias que fizeram a fama do Parrô do Valentim

Fotos: Henrique Magro


Especial: Um pedacinho de Lisboa no coração de Itaipava

25 anos do Parrô do Valentim

    Ventos lusitanos sopraram em Itaipava, nos anos 70. Por conta da Revolução dos Cravos e do conseqüente enfraquecimento da economia em Portugal, um casal da “terrinha” aportou na serra petropolitana decidido a se estabelecer. A culinária era seu trunfo. A princípio, montaram, próxima à cerâmica do amigo Luiz Salvador, uma pequena loja onde vendiam bolinhos de bacalhau, pastéis de nata e croquetes de carne. Com o tempo, o paladar verde e vermelho abriu as portas do primeiro restaurante genuinamente português de Petrópolis, o Parrô do Valentim.
    Este ano, o casal Valentim e Guilhermina comemora o 25º aniversário do Parrô. Para quem, aos 40 anos de idade, arrumou as malas e deixou Portugal disposto a investir todo o seu talento e experiência de vida no Brasil, eles não têm do que se queixar. Com clientela cativa, a maioria fiéis freqüentadores da casa desde a inauguração, o Parrô do Valentim tornou-se um bastião da mesa lusitana dos velhos tempos, farta e saborosa. Quem o viu nascer notará que fisicamente pouco mudou – a decoração e o cardápio são praticamente os mesmos -, como também manteve fidelidade às raízes que o trouxeram ao mundo.
    Para os proprietários, no entanto, o Parrô não é apenas um restaurante especializado na tradicional gastronomia portuguesa, de cujo cardápio constam deliciosas receitas de bacalhau e de outros pratos robustos e apetitosos. “Em nossa casa oferecemos comida, vinhos, música, ou seja, um pouco da cultura portuguesa. Das entradas às sobremesas, tudo é tipicamente português”, enfatiza Valentim.
De fato, um pedacinho de Lisboa, berço do casal, está no Parrô. Percebe-se isso no fado como fundo musical, na cordialidade dos donos e dos funcionários, no sabor dos crocantes bolinhos de bacalhau e na delicadeza do toucinho do céu, “diferente de todos que são feitos por aí, receita da minha avó”, ressalta Guilhermina, com o respaldo de quem maneja as caçarolas com habilidade e sabedoria. Valentim, ao descrever as especialidades do restaurante, aguça o apetite de qualquer ouvinte. Quando o assunto, então, é o carro-chefe da casa, o prato que leva o seu nome, a descrição do preparo se concentra nas sutilezas gustativas que o diferenciam da receita que o originou, o Bacalhau à Gomes de Sá. “O Bacalhau do Valentim é mais codimentado e leva mais azeite”. Já o nome próprio que acompanha o saboroso peixe tem outra explicação.
    “Um cliente nosso, humorista famoso, perguntou-me se conhecia o Gomes de Sá. Expliquei-lhe que não, mas o prato levava esse nome por ser criação do renomado cozinheiro português. Ele retrucou: ‘para que divulgar o bacalhau do Gomes, o teu é melhor’. Daí mudamos para Bacalhau do Valentim”, explicou divertido. O comensal espirituoso era o ator Chico Anysio. Antes de contar a estória, entretanto, Valentim abre um parêntese para corrigir o que o cotidiano distorceu: “o prato leva o meu nome, mas a receita é de Guilhermina”. Justo.
    Correções à parte, o certo é que qualquer história de imigrante bem-sucedido leva um componente fundamental: o trabalho. Ao recordar o passado, Valentim frisa que da loja para o restaurante foram anos de muita labuta. “Quando construímos o Parrô não tínhamos dinheiro para as janelas. Mas começamos assim mesmo. Nosso principal ingrediente sempre foi a honestidade no trato com nossos clientes”, orgulha-se Valentim.
    O resultado de 25 anos de esforço e dedicação pode ser visto hoje. Além de reconhecidos pela Câmara Municipal de Petrópolis e pela Academia Petropolitana de Letras como “Embaixadores Culturais da Cidade Imperial”, o fruto de seu trabalho, o Parrô do Valentim, é citado, desde 1995, no Guia Quatro Rodas. Valentim e Guilhermina têm muito o que comemorar. Felizmente, decidiram celebrar a data brindando os leitores com a receita do famoso Bacalhau do Infante, concedida por dona Guilhermina para a Estações de Itaipava. Bom apetite!

Bacalhau do Infante
Ingredientes (4 porções):
• 2 postas de lombo de bacalhau com cerca de 400g cada
• 200g de camarão
• 3 colheres de sopa de manteiga
• 2 colheres de sopa de farinha de trigo
• 1 xícara de chá de leite
• 1 xícara de chá de água do cozimento do camarão
• 2 ramos de folhas de salsinha picadas
• 2 gemas
• Farinha de trigo e ovos levemente batidos para empanar o bacalhau.
• Algumas gotas de suco de limão.
• Noz moscada a gosto.
• Óleo para fritar o bacalhau.
• Sal e pimenta do reino moída a gosto.


Preparo:
Bacalhau
• Lave o bacalhau e deixe de molho 48 horas na geladeira, trocando a água várias vezes.
• Escorra e retire as peles e as espinhas maiores.
• Corte em filetes e passe na farinha e no ovo.
• Frite em óleo bem quente, retire e reserve em papel absorvente.
Camarões
• Cozinhe os camarões em pouca água. Reserve-os e reserve a água do cozimento, separadamente.

    Numa panela, aqueça a manteiga, junte a farinha e mexa bem. Adicione o leite e a água dos camarões. Tempere com gotas de limão e coloque salsinha, noz moscada, sal e pimenta. Deixe tomar consistência, retire do fogo e junte as gemas. Misture muito bem e volte ao fogo, cuidando para não ferver. Incorpore os camarões.
    Monte o prato colocando os filetes de bacalhau e o molho com os camarões. Sirva imediatamente.


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