Sérgio Henrique tenta angariar patrocínio público e privado para levar adiante a empreitada
iniciada pelo pai








Fotos: Henrique Magro


Capa

Viagem no tempo

    Aguçam a curiosidade do viajante os canhões debruçados sobre a muralha. Vistos da rodovia Rio-Petrópolis, parecem resguardar as riquezas da Cidade Imperial. De fato, sua história remonta à época em que protegiam a costa brasileira de invasores. Sua presença na serra, contudo, em nada se relaciona à história colonial, tampouco ao poderio militar do Império. Deve-se, sim, à perseverança e à obstinação do museólogo e colecionador de armas, Sérgio Ferreira da Cunha (descendente do Conde da Cunha, primeiro Vice-Rei do Brasil no Rio de Janeiro, de 1763 a 1767, e criador do Arsenal da Marinha e do Trem de Artilharia, posteriormente Arsenal de Guerra). Em 1952, o colecionador iniciou a construção de uma réplica dos castelos medievais na serra com um único objetivo: abrigar sua coleção de armas antigas, um dos maiores acervos do Brasil e da América do Sul, em um espaço à altura do valor histórico das peças.
    Assim, após décadas de obras, Petrópolis ficou mais rica em memória e cultura. Fosso, masmorra, galerias subterrâneas, muralhas em pedra de cantaria, praça, torres ameiadas e ponte levadiça promovem uma viagem à época medieval, em pleno século XXI. O Brasil, com 504 anos, não vivenciou o auge da arquitetura que elegeu os castelos como edificações defensivas e residências de reis e de senhores feudais. Porém, essas fortalezas, fragmentos de um período de guerras e de conquistas na Europa, têm aqui seu representante, ainda que jovem e deslocado no tempo e no espaço.
    Mesmo sem finalizar por completo seu intento, uma vez que a construçã do castelo em si não foi concluída até a data de seu falecimento, em 1990, observa-se que o ideal de Sérgio Ferreira da Cunha transformou-se em uma obra de imensa importância.
    Além da coleção – iniciada por seus antepassados em 1870 e enriquecida por valiosas aquisições garimpadas ao longo de sua vida – seu olhar aguçado de colecionador fez da réplica cenário fidedigno de uma época e de um estilo arquitetônico. Os trezentos metros de galerias subterrâneas, o algibe (escavação para recolher a água das chuvas e servir de bebedouro para animais), a praça das armas (pátio para treinamento de tropas) e a trapa (armadilha para impedir o assédio de invasores) são exemplos do perfeccionismo dedicado ao empreendimento. É incrível o que um homem é capaz de fazer, como diria o inesquecível personagem de Machado de Assis, Braz Cubas, se movido por uma idéia fixa.
    Pode-se confirmar isso observando-se o conjunto da obra, mesmo 14 anos após a morte de seu mentor. Ferreira da Cunha, certamente, foi tomado por uma daquelas idéias que não abandonam o pensamento, até que sejam realizadas. “Meu pai dedicou tudo o que tinha a essa construção e à aquisição de armas antigas”, explica Sérgio Henrique, atual presidente da Fundação Museu das Armas Ferreira da Cunha, fundada em 1957. Ele herdou não só todo o acervo do pai, como também a tarefa de angariar verbas para manter a Fundação, catalogar e classificar as mais de três mil peças da coleção de armas e terminar a construção do castelo. Herança de indubitável importância para a história do Brasil e para o aprendizado da atual e das futuras gerações, e também um desafio, visto que a manutenção do acervo em condições ideais para a exposição ao grande público não conta com o apoio dos órgãos voltados à preservação do patrimônio histórico nacional. “Apresentamos inúmeros projetos ao Ministério da Cultura mas nunca obtivemos resposta”, lamenta ele.

Relíquias
    Tombado pelo Patrimônio Histórico Nacional, o acervo é um capítulo à parte e elemento-chave do projeto de Ferreira da Cunha. As doações do Arsenal da Guerra, do Museu da Marinha, do Ministério da Aeronáutica e do Departamento de Material Bélico do Exército, além das peças adquiridas com recursos próprios, incluem relíquias bélicas dos séculos XVII, XVIII, XIX e XX, entre elas armas do Império brasileiro e da Primeira e Segunda Guerras Mundiais. “Fiz questão de manter a coleção com peças até esse período pela questão da violência e pela dificuldade de guardar e expor as armas”, explica Sérgio Henrique.
    A coleção de fato impressiona. São mosquetões; armas de carregar; canhões; torpedo de 10 metros de comprimento que pertenceu ao submarino Humaitá; pederneiras; baionetas; capacete e espada da Guarda Imperial de Pedro I; pistolas femininas do século XIX; condecorações da Segunda Guerra; armaduras medievais e japonesas; armas em forma de caneta e de bengala; pistolas de quatro canos, enfim, peças de extremo valor histórico que agora estão sendo catalogadas.
    “Esperamos montar um catálogo ilustrado dos itens mais importantes”, conta Sérgio, que depende de doações à Fundação e do trabalho voluntário de especialistas em armas antigas para finalizar a classificação das peças. O acervo reúne cerca de 750 armas de fogo, mil armas brancas, medalhas e condecorações. Até o momento, cerca de mil peças já foram catalogadas.
    No edifício em estilo medieval, é possível perceber a obstinação do colecionador. Percorrendo-se as alas da construção, a História ganha vida diante dos olhos: canhão francês Canet, encomendado pelo Exército brasileiro para a Guerra de Canudos; carro-cozinha utilizado na Primeira Guerra Mundial; baterias antiaéreas da Primeira e Segunda Guerras; canhão usado na Guerra do Paraguai; esculturas, quadros e coleções de soldadinhos de chumbo. Em uma sala reservada, a biblioteca com cerca de quatro mil volumes, entre eles algumas obras dos séculos XVIII e XIX, sobre história geral, história do Brasil e história militar, aguarda verba para catalogação apropriada.
    “São projetos distintos: a finalização das obras do castelo; a classificação e a edição de um catálogo com todas as peças e a organização da biblioteca”, enumera Sérgio Henrique, que desde a morte de Ferreira da Cunha tenta angariar patrocínio público e privado para levar adiante a empreitada iniciada pelo pai. Enquanto isso, organiza visitas agendadas para grupos de estudantes e turistas, uma vez que abrir a visitação ao grande público requer investimento em segurança e infra-estrutura, como sanitários, restaurante e estacionamento. À parte a riqueza histórica do acervo, a vista do lugar por si compensa a viagem. De lá avista-se o Rio, a represa de Xerém e toda a beleza e exuberância da mata atlântica. Um passeio imperdível, em todos os sentidos.

Estrada Rio-Petrópolis, km 40 Bairro de Duques Quem sai de Petrópolis deve retornar no Belvedere e subir a serra Visitação de grupos (mínimo de 10 pessoas) JobOrder - (21) 9691-6280 - falar com o sr. José Oitavo Preço por pessoa: R$ 12,00





Estações de Itaipava © Todos os direitos reservados