Fotos: Henrique Magro


Especial

Beleza renovada

    Com investimentos da ordem de R$ 1,2 milhão, Catedral de Petrópolis é restaurada. Cerimônia religiosa, em setembro, comemora a recuperação com o badalar dos sinos.
    Em 1843, a Catedral São Pedro de Alcântara era uma construção imaginária no plano urbanístico do engenheiro alemão Frederico Koeler. Designado por Pedro II para colocar no papel o traçado da primeira cidade planejada do Brasil, refúgio de verão do imperador, Koeler assim o fez. Reservou o terreno para o palácio, a ser construído em estilo barroco-rococó e ajardinado segundo projeto paisagístico do francês João Batista Binot. Separou faixas de terra, próximas ao edifício imperial, para a edificação de mansões de viscondes, barões e marqueses. À direita do prédio, idealizou a elevação da futura catedral - iniciada apenas em 1884 - cujo projeto, em estilo gótico francês, coube ao engenheiro Francisco Caminhoá.
    Mas nem tudo correu como esperado. Por falta de verbas, principalmente em razão de mudanças nos rumos políticos do País, inúmeras vezes as obras foram interrompidas e reiniciadas. Em 1925, por exemplo, a catedral, mesmo incompleta, foi oficialmente inaugurada. Mas somente 14 anos depois, em 1939, concluíram-se a fachada, as capelas do Batistério e Imperial, os quatro pavimentos da torre e inaugurou-se o mausoléu dos imperadores. Em 1963, foram instalados os sinos, importados da Alemanha e, em 1969, encerrou-se a construção da torre, de 70 metros de altura. Deu-se, enfim, a finalização por completo das obras.
    A catedral petropolitana, inspirada nos templos da Normandia, retrata uma época em que as catedrais eram símbolo da onipotência divina. Por isso suas dimensões impressionam e conferem altivez ao conjunto arquitetônico, que obedeceu aos preceitos da arquitetura gótica, nascida na França, no século 12. Na catedral de Petrópolis, o entrecruzamento dos arcos ogivais, elementos inovadores dessa estética, permite que o telhado alcance uma altura de 19 metros, da abóbada ao piso da nave central. Com a elevação, as paredes ressaltam as mensagens religiosas dos vitrais, dentre eles o que simboliza a abolição da escravidão, em que o Cristo crucificado, com Seu sangue redentor, quebra as correntes do escravo. Mensagens de fé e de referência ao Império.
    A catedral também guarda riquezas incontestáveis, por sua importância histórica. Na entrada do templo, por exemplo, na capela Imperial, à direita, há o mausoléu com os restos mortais de Pedro II, da imperatriz Teresa Cristina, da princesa Isabel e do conde D´Eu, retratados em esculturas de mármore de Carrara. Na capela do Batistério, à esquerda, encontra-se uma pia batismal de 1848, pertencente à antiga igreja Matriz de Petrópolis, já demolida.
    No segundo pavimento, o órgão, com 227 tubos, construído por G. Berner, em 1937, é um dos únicos exemplares do Brasil. Já o altar gótico, em mármore, com cruz central em granito preto da Tijuca, contém, trazidas de Roma pelo cardeal D. Sebastião Leme, relíquias de São Magno, Santa Aurélia e Santa Thecla.
    Construída sob a invocação do santo padroeiro do Império brasileiro, São Pedro de Alcântara (franciscano, nascido em 1499 na Espanha, contemporâneo de Santa Teresa de Ávila), a catedral não era apenas uma obra resultante da religiosidade do imperador: simbolizava também um dever de cristianização do Império. Tal "obrigatoriedade", determinada pelo Padroado Real da monarquia portuguesa, remontava à bula "Inter Coetera", pela qual o Papa Alexandre VI, ao dividir as terras a serem descobertas por Portugal e Espanha (o Novo Mundo), condicionou o reconhecimento legal da posse à cristianização dos povos nelas encontrados.
    O fato é que dessa religiosidade e do dever de catequização sobreveio uma majestosa obra gótica que agora, 161 anos após o plano urbanístico que a idealizou, recebe verbas suficientes para recuperá-la dos estragos promovidos pela ação do tempo e pela atitude predatória de pichadores.
    Petrobras, Eletrobras e IRB (Instituto de Resseguros do Brasil) - contatadas pelo deputado federal Roberto Jefferson - investiram na reforma R$ 1,2 milhão. Graças a esses recursos, a empresa Fazendo Arte Empreendimentos Culturais, especializada em projetos de preservação e de restauração do patrimônio histórico, finaliza em setembro os trabalhos, iniciados em dezembro de 2003.
    Nesta primeira etapa das obras, a verba permitiu recuperar, segundo normas do IPHAN (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional), a estrutura do telhado; remover pichações das fachadas; refazer a instalação elétrica; corrigir fissuras nas paredes e abóbadas; consertar falhas na estrutura da torre, o que permitirá que os sinos voltem a tocar; restaurar agulhas, pináculos externos, a porta de entrada e a pintura interna. Com essa obra de indubitável importância, Petrópolis, mais uma vez, contribui para o enriquecimento do patrimônio histórico do País.



















































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