Ilustração: A.J. Heinen

Crônica

Abre-te férias

    Quando começaram a pensar nos direitos que deveriam ser concedidos aos trabalhadores, Deus deu-lhes uma atenção especial. Voz firme, mas piedosa, deve ter falado ao pé do ouvido dos responsáveis alguma coisa do tipo: “Se Eu, que sou Eu, precisei descansar e tirei folga no sétimo dia, eles, que são fraquinhos, vão precisar de mais... libere 30 dias, vai”.
    Valeu, valeu mesmo. Agradecemos, mas fraquinhos que somos, cometemos uns pecados. Na verdade, todos os sete, sem exceção. A começar pela inveja. Alguém consegue contar, numa roda de amigos, que vai tirar férias, sem ouvir um “ai, que inveja!”? Pois é, férias despertam esse pecado na gente e nos outros. Pode fazer uma enquete: se anunciar suas férias para dez pessoas e ninguém confessar inveja, eu esqueço essa teoria. Mas você, em compensação, vai comprovar que tem cara de quem tira férias para arrumar armário e, por isso, não desperta nem um pingo de inveja. Lembrei da avareza...
    O fato é que o assunto concentra as atenções de todo mundo. Mesmo quem não tira nunca, porque não pode ou não quer, não deixa de dar um jeitinho de alguém saber disso. Ou conta com orgulho, cheio de soberba, ou para despertar uma certa piedade.
    Confesso que fico com pena mesmo: o sujeito não sabe o que é assistir à sessão-da-tarde, nunca veio para a Serra com o carro lotado nunca terça-feira à tarde, não pode viajar para um daqueles lugares com que sempre sonhou, e que, só para chegar, são dois dias. Ou não sabe o que é simplesmente não fazer nada, quando dá aquela preguiça. Você descobre que entrou no clima das férias quando muda o canal da TV no controle remoto, descobre um campeonato de sinuca e fica durante um tempinho “assistindo”... bolinha para lá, bolinha para cá. Até que o pouco de senso crítico que resta desperta, e você começa a, sensatamente, pensar em como pode alguém assistir a um campeonato de sinuca pela TV.
    Enfim, as férias chegaram. Dezembro, janeiro, fevereiro, Natal, Ano Novo, carnaval, crianças sem escola, calor... Valeu, Deus, valeu mesmo. Vamos saber aproveitar.


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