Camarim


Vista do teatro


Palco

Fotos: Henrique Magro


Especial: Os 70 anos do antigo Theatro D. Pedro

Memória restaurada

    Em 1933, a vida cultural petropolitana fervilhava. A inauguração do Theatro D. Pedro, em 2 de janeiro, ocupava lugar de destaque na imprensa. Naquela data, a programação da nova casa de espetáculos e cinema incluía o filme-opereta Manzelle Nitouche, com artistas da Comédie Française, e, no palco, entre números musicais e humorísticos, o entreato "Arsenio Lupin", com os atores Paulo Gracindo e Laura Soares.
    O D. Pedro, outro empreendimento de destaque dos italianos irmãos D'Angelo, já donos de uma elegante confeitaria na cidade, na verdade era um prédio que contava com teatro para 1.000 espectadores, hotel com 17 apartamentos e seis lojas. Nomeado Edifício D'Angelo, a construção reunia estilos arquitetônicos e decorativos híbridos em um projeto que revelava a posição destacada de Petrópolis no cenário sociocultural da então capital do País, o Rio de Janeiro.
    Por ali passaram nomes de peso do teatro e da música nacional: Cacilda Becker, Noel Rosa, Procópio Ferreira, Bibi Ferreira, Vicente Celestino e Henriqueta Brieba. Na platéia, personalidades da vida política e da aristocracia petropolitana e carioca ocupavam os 17 camarotes, o balcão e a galeria. Com o passar dos anos e a evolução do cinema, espectadores formavam fila à porta do Theatro para assistir filmes hollywoodianos. Em 1966, Manuel Bandeira escrevia: "Na tarde úmida, o quartinho do hotel tornou-se de repente inabitável(...). Desci à rua, onde uma fila enorme esperava em frente à bilheteria(...). Cinema abarrotado. Grandes expectativas(...)". Hospedado no hotel do Edifício D'Angelo, o poeta decide distrair-se indo ao cinema no Theatro D. Pedro assistir "O demônio do Congo", com Heddy Lamarr e Walter Pidgeon.
    Construído por Francisco De Carolis, segundo projeto de Armando de Oliveira, o prédio recebeu pó de pedra no revestimento externo e a conjugação de motivos geométricos e florais, mesclados a desenhos em estilo árabe, no acabamento interno. O resultado foi uma estética que reuniu traços do art-nouveau e art-decó, realçada pelo talento do mestre-pintor Carlos Schaefer, responsável pelos desenhos coloridos por tintas feitas por ele mesmo ao moer pigmentos e misturar cores.
    Hoje, aos 70 anos, o Theatro D. Pedro ganhou nome novo e quase R$ 1 milhão em reformas que obedeceram a regras dos órgãos responsáveis pelo patrimônio histórico e cultural de Petrópolis. Foram dois anos de obras de recuperação, através de técnicas semelhantes às da arqueologia moderna, que culminaram na restauração artística e estrutural do prédio (revelou-se, com detalhes, a pintura de Schaefer); na recuperação de equipamentos e na instalação de moderna iluminação cênica e de som. Agora, assim como no passado, nomes de destaque do teatro nacional têm feito o público lotar todas as apresentações que ali acontecem. Enfim, senhoras e senhores, eis o Teatro Municipal Paulo Gracindo, uma homenagem ao ator que nele se apresentou há 70 anos. É a Cidade Imperial de braços abertos à revitalização da cultura.


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