Chaminés do antigo forno para fabricação de rapadura: relíquias de 1845 a céu aberto, na Fazenda Nossa Senhora de Fátima, em Secretário.




Maria Helena Meyer, dona da Fazenda da Cachoeira, em Secretário: "pretendo angariar recursos para reformar a fazenda e transformá-la em ponto turístico"


A beleza da cachoeira que atravessa a propriedade contrasta com a rudeza de objetos utilizados para o aprisionamento de escravos;




A nota fiscal de compra de cereais, do século 19, faz parte do acervo de documentos da fazenda.


Máquina para a seleção de grãos de café.




Zélia Meira, na Fazenda Santa Rita, no Vale das Videiras: inclusão no circuito Rota 22 impulsionou a visitação turística.


O oratório e o salão onde era rezada a missa dominical.


A piscina natural compõe, com a natureza, um belo conjunto.


Sala da jantar com mobiliário do século 19.


Fazenda Nossa Senhora de Fátima, em Secretário: pátio para a secagem dos grãos de café;




Fachada e interior da casa senhorial, de 1840, utilizada para veraneio da família Cybrão


Fotos: Henrique Magro


Capa

O passado é ali

    Como sementes jogadas ao vento, as antigas fazendas de café situadas no vale do rio Fagundes, que abrange as localidades de Secretário e Vale das Videiras, aguardam iniciativas que promovam sua revitalização e, assim, as resgatem do ostracismo. Geograficamente instaladas em um território que até o final do século 19 esteve sob a influência de Paty do Alferes e de Vassouras, foram incorporadas a Petrópolis somente após a demarcação das terras da Cidade Imperial, em 1892. Até essa data, eram parte integrante da maior região cafeeira do Brasil. Menos opulentas que as propriedades rurais de Vassouras e de Valença, sua importância histórica é a mesma, considerando-se que representam marcos da arquitetura colonial e da cultura do café no País.

    De fato, as 13 fazendas de café de Petrópolis guardam tesouros históricos, em mãos de famílias que procuram poupá-los da degradação. Ainda que grande parte desse patrimônio esteja descaracterizado por intervenções arquitetônicas ou em estado de conservação precário, sem dúvida sua presença estimula uma viagem no tempo. Casas senhoriais em pau-a-pique com mobiliário de época, pátio para a secagem dos grãos de café, senzalas, engenho para a fabricação de açúcar, roda d´água, moinhos, moendas e paiol compõem um mosaico, a céu aberto, da História do Brasil.
    História que tem no Rio de Janeiro a região que transformou o café na principal cultura de exportação do Brasil, no século 19. Para se ter uma idéia da representatividade da produção de café em solo fluminense, em 1859, as fazendas do Rio produziam 78% do café brasileiro, enquanto as propriedades rurais de São Paulo, apenas 12%. Para entender o alcance desses números no cenário mundial, em torno de 1860, cabia ao Brasil a colheita de 51% dos grãos cultivados no mundo, percentual que salta para 57% nas últimas décadas daquele século. Volume impressionante que as propriedades rurais de Petrópolis ajudaram a incrementar.
    Maria Helena Leal Meyer, dona da Fazenda da Cachoeira, distante cerca de 11 quilômetros do centro de Secretário, é uma das personagens que abriga, no presente, parte dessa história. Nascida na fazenda, ela preserva como pode o "museu", herdado do pai. "Com três funcionários, tocamos a produção de gado leiteiro para custear a manutenção da propriedade, que possui pátio de secagem dos grãos de café, armazéns, senzala, engenho de café e cana-de-açúcar, além de máquina de seleção dos grãos, movida à roda d´água", conta. A casa em pau-a-pique, com piso em pinho-de-riga, tem poucos móveis originais, porém guarda relíquias curiosas, como uma nota fiscal de compra de cereais, datada de 1897.
    Típica propriedade rural de meados do século 19, a Fazenda da Cachoeira passou por algumas reformas, ao longo das últimas décadas, que minimizaram a ação do tempo. O telhado da casa senhorial, por exemplo, recebeu madeiramento novo, assim como o piso, trocado em alguns cômodos. Maria Helena, contudo, não dispõe de recursos suficientes para reformar a senzala e o galpão onde fica a máquina de moer os grãos de café. Mesmo assim, não desanima. "Pretendo transformar esse espaço em um museu com objetos que relatem parte da história da fazenda e estimulem a visitação turística à propriedade", planeja.
    Sonho que pode e deve ser acalentado. Iniciativas como a de Zélia Sant´Anna Meira, proprietária da Fazenda Santa Rita, no Vale das Videiras, podem servir de incentivo. Ali, a casa senhorial, resguardada por uma bela área verde onde jardins, lago e piscina natural compõem uma paisagem pictórica, abriga mobiliário e objetos do século 19. Originalmente com 12 quartos, ampla sala de jantar e duas cozinhas, sofreu algumas modificações para atender às necessidades da família, que utiliza a casa para moradia.
    Uma visita à residência remete a cenários de novelas românticas do século 19. O subsolo, onde hoje está a área de lazer da família, com salão de jogos, bar e sauna, foi, no passado, utilizado como dormitório por escravos que executavam o serviço doméstico. O oratório, instalado em um salão interno, preserva imagens barrocas e muitas histórias. "Os primeiros proprietários assistiam à missa, defronte ao altar, pela janela de uma sala anexa ao salão do oratório, enquanto os escravos mais íntimos da casa ficavam nesse salão, afastados dos patrões", explica Zélia Meira.
    Incorporada ao circuito Rota 22, ação que promove a divulgação dos atrativos turísticos ao longo dos 22 quilômetros que ligam Araras ao Vale das Videiras, a Fazenda Santa Rita se converteu em ponto turístico e, assim, em dividendos para sua proprietária. "O centro de informações da Rota 22 agenda visitas à fazenda para grupos do Rio e de Petrópolis. O passeio, de cerca de duas horas, inclui um lanche com produtos caseiros. É ótimo, pois também conheço pessoas novas", comenta Zélia.
    A iniciativa de transformar a propriedade histórica em ponto turístico ainda se restringe à Fazenda Santa Rita, dentre as 13 propriedades da região. Segundo Evany Noel, gerente de turismo da Fundação de Cultura e Turismo de Petrópolis, o pontapé inicial para que a propriedade seja incorporada aos atrativos turísticos da cidade deve partir de seus proprietários. "Os interessados devem se integrar aos circuitos turísticos e eco-rurais dessas regiões - Rota 22 (Araras-Vale das Videiras) e Caminhos de Secretário na Estrada Real", aconselha.
    Inseridos no Plano Diretor de Turismo de Petrópolis, o Plano Imperial, os circuitos têm por objetivo a implementação do agroturismo como alternativa econômica sustentável para as comunidades das áreas desses percursos. "Os circuitos são uma tendência de mercado, pois ajudam a incrementar as atividades artísticas e comerciais dessas localidades e a preservar o meio ambiente. As comunidades interessadas devem se organizar e procurar a Fundação, que mantém parceria com o Sebrae, para estruturá-los", orienta Evany.
    De acordo com o gerente regional do Sebrae-Petrópolis, Alney Antunes, ao se integrarem aos circuitos, os donos dessas fazendas históricas recebem orientação de como obter financiamento para o restauro das propriedades, entre instituições financeiras como Caixa Econômica Federal, Banco do Brasil e BNDES. "O importante é eles estarem inseridos nesse produto turístico e eco-rural, que é o circuito. A partir disso, o Sebrae-Petrópolis poderá intermediar o financiamento e capacitá-los a receber turistas através de cursos e consultorias", pontua.
    Para o diretor de marketing do Petrópolis Convention & Visitors Bureau (PCVB), George Court, envolvido na estruturação do Caminhos de Secretário na Estrada Real, os circuitos têm a função de evitar o crescimento desordenado das áreas em que estão inseridos, além de propagar a riqueza cultural dessas regiões. "O Governo Federal dispõe de recursos para incentivar projetos turísticos e culturais que envolvem a recuperação do patrimônio histórico. É preciso correr atrás", ressalta George.
    Na opinião do perito em trilhas históricas, o topógrafo Amauri de Menezes, correr atrás significa também pesquisar documentos textuais e iconográficos que revelem a história do café em solo petropolitano. "Como essa região ficou sob a jurisdição de Paty do Alferes e de Vassouras até a incorporação a Petrópolis, é preciso investigar nossa participação no ciclo do café", defende. Segundo Amauri, é necessário que os organizadores dos circuitos façam inventários de todas as fazendas e pesquisem material iconográfico, ou mesmo colham relatos orais, que contem a história dessas propriedades. "É o que o turista busca", diz ele.
    Mas se faltam material impresso, gravuras e fotografias, sobram construções para contar essa história perdida. Em Secretário, a Fazenda Nossa Senhora de Fátima, do engenheiro Fernando Cybrão, é outra representante de expressão do ciclo do café em Petrópolis. Atualmente, a propriedade é utilizada pela família para veraneio.
    Antiga Fazenda da Rocinha (acredita-se que está situada onde havia, no passado, a roça da sesmaria de José Ferreira da Fonte, secretário da Câmara da Capitania do Rio de Janeiro, dono das terras que hoje abrangem Secretário e Itaipava), a propriedade abriga um conjunto arquitetônico colonial de impressionar: sede, de 1840, com telhado realçado pelo lambrequim do beiral e, no interior, alguns móveis de época; moinho com roda d´água, paiol de taipa de pilão, pátio de secagem dos grãos com pilastras de 1868, forno com chaminés e tachos para fabricação de rapadura, de 1845.
    Juntam-se às três fazendas citadas: Fazenda da Cachoeira, Fazenda Santana, Fazenda da Conceição, Fazenda do Ribeirão, Fazenda Santo Antônio da Floresta, Fazenda Santa Tereza, Fazenda do Fagundes, Fazenda do Secretário, Fazenda Desembargador Marins Peixoto e Fazenda Santana do Alto Pegado. Provas vivas de que Petrópolis tem muito para acrescentar à história do ciclo do café.










































































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