Solar D. Afonso (interior e fachada), de 1875, restaurado e transformado em hotel de luxo


Detalhe do trabalho em ferro e da chaminé da antiga Companhia Petropolitana, em Cascatinha


Foto: Arquivo do Museu Imperial


Foto: Arquivo do Museu Imperial
Fotos da fábrica em atividade, no final do século 19


Detalhe da fachada do edifício fabril à espera de verbas para a recuperação: Petrópolis detém patrimônio arquitetônico inestimável





Fotos: Henrique Magro


Capa

Uma riqueza de cidade

    Em Petrópolis, uma cidade desconhecida adormece. Oculta, emerge no imaginário urbano cada vez que um de seus componentes retorna à vida, mesmo que ausente de significações do passado. Essa cidade, representativa do cosmopolitismo e da industrialização do Brasil monárquico, como também do Brasil republicano da belle époque, observa, silenciosamente, o cotidiano de seus cidadãos. Mais de 800 construções a compõem, entre casas de colonos, fábricas, igrejas, casarões e palacetes, um conjunto arquitetônico centenário. Como despertar essa bela cidade adormecida?

    O debate acerca da recuperação do patrimônio ambiental histórico e arquitetônico da Cidade Imperial – denominação surgida na década de 80, quando se promoveu o tombamento de imóveis da cidade – envolve toda a sociedade. Por essa razão, recentemente o assunto foi tema do seminário “Petrópolis, preservação e prosperidade”, realizado no SESC Petrópolis, por iniciativa do artista plástico Luiz Aquila, presidente da Associação de Moradores e Amigos do Centro Histórico e Adjacências de Petrópolis.
    O encontro, realizado em 30 e 31 de julho último, atraiu representantes de segmentos sociais envolvidos com a preservação do patrimônio de Petrópolis. O objetivo: pensar, juntamente com a sociedade petropolitana, questões como economia, meio ambiente, política, prosperidade, pobreza e memória da cidade.
    O evento reuniu arquitetos, urbanistas, sociólogos, psicólogos, empresários, historiadores e personalidades como o deputado Fernando Gabeira, a socióloga e vereadora Aspásia Camargo, o empresário José Luiz Alqueires, envolvido com o projeto de iluminação subterrânea em Tiradentes e o jornalista e professor da PUC-Rio, Claudio Bojunga, morador de Petrópolis. Afinal, a que passado se refere esse patrimônio?

Uma cidade para o lazer
    Elevada à categoria de cidade em 1843, Petrópolis abriga patrimônio arquitetônico inestimável, fruto de sua origem. Criada para o lazer de verão da família imperial, é a primeira cidade planejada do país, segundo regras modernas de urbanismo do século 19. Desenhada pelo engenheiro alemão Júlio Koeler a pedido de Pedro II, seu traçado previu, entre inúmeros detalhes urbanísticos, a construção do palácio imperial e de palacetes no entorno da casa do imperador, que, da serra, administrou o Brasil por 40 verões.
    Como assinala a historiadora Lilia Moritz Schwarcz no livro As barbas do imperador: D. Pedro II, um monarca nos trópicos, no verão, Petrópolis se convertia em rota de fuga da família imperial e dos que tinham recursos para escapar da febre amarela, o que revelava uma espécie de política sanitária da corte. Ainda nas palavras da autora, em meados do século 19 “tudo se dirigia serra acima, rumo à nova cidade, construída para o deleite e a proteção do imperador”. Mesmo com a queda do regime, Petrópolis se manteve como destino de lazer dos chefes de Estado e da elite carioca, visto que o Rio era capital da República.
    Freqüentada por personagens ilustres, a cidade de Pedro tomou forma no imaginário da classe dominante como paraíso para o ócio. Estância de lazer salubre, aristocrática, na passagem do século 19 para o século 20, caracterizava-se pelo comércio elegante para os padrões da época. Os palacetes das avenidas Koeler e Ipiranga testemunharam festas e bailes. Os parques, como o Cremérie, eram palco de piqueniques para centenas de pessoas, que desfrutavam da natureza, saboreando cardápio francês em louças e talheres refinados.
    Já nos segmentos econômico e industrial, Petrópolis apresentava quadro promissor. Segundo o Almanak Laemmert de 1880, observava-se nesse período um desenvolvimento agro-industrial e comercial representativo na cidade. Nessa época, segundo essa fonte havia quatro olarias (o que indicava um substancioso mercado de construção civil), duas fábricas de tecidos de algodão, fábricas de charutos, cinco fábricas de cerveja, uma fábrica de queijos, quatro fábricas de carroças e oficinas de ourivesaria, de relojoaria e de calçados. O Almanak de 1881 registrava que a população de 10 mil moradores chegava a 16 mil ao longo do verão.
    A pesquisadora Ismênia de Lima Martins, da Universidade Católica de Petrópolis, em trabalho sobre a vocação industrial da cidade, avalia como fatores positivos para tal tendência a regularidade da comunicação com o Rio, o que facilitava o escoamento da produção e a compra de matérias-primas; a salubridade, que impulsionava os moradores da capital a se refugiarem em Petrópolis para se protegerem das pestes que assolavam o Rio no verão; a abundância de água e a topografia da cidade, que facilitavam a produção de energia para alimentar as indústrias, e o custo de vida inferior ao da capital. Fatores imprescindíveis para o desenvolvimento dos estabelecimentos fabris, principalmente no segmento têxtil, ponto forte da economia petropolitana no final do século 19 e primeiras décadas do século 20.

Indústria da preservação
    “As palestras visaram chamar a atenção dos intelectuais e da população para o fato de que a única saída contra a degradação de Petrópolis hoje é a indústria da preservação e do turismo”, alerta Luiz Aquila. Segundo o artista plástico e mentor do seminário “Petrópolis: preservação e prosperidade”, uma política voltada à preservação significa planejamento habitacional e reflorestamento, e somente o debate acerca dessas carências promoverá mudanças.
    Se depender de entidades representativas da sociedade petropolitana, de empresários e de alguns órgãos da administração federal, estadual e municipal, debate e investimentos têm promovido restaurações de valor para o patrimônio histórico e arquitetônico de Petrópolis. Recentemente, por exemplo, foi restaurado o Solar D. Afonso, palacete em estilo neoclássico construído em 1875, na avenida Koeler.
    Com investimentos da ordem de R$ 2 milhões, o palacete, tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), mas em estado de degradação, foi transformado em hotel de luxo com 16 suítes. As obras de recuperação, que levaram um ano, envolveram 80 profissionais, entre arquitetos e engenheiros. Especialistas em luminotécnica, acústica, madeiramento, estuque, pintura, elétrica, hidráulica, gesso e azulejos, quase todos de Petrópolis, completavam a equipe.
    “A reforma desse patrimônio tombado demandou um mix de técnicas de construção. Às paredes e às estruturas em pedra, pinho-de-riga, pau-a-pique e tijolos de barro maciço adicionamos, com a reforma, estruturas em aço e lajes de concreto”, explica o arquiteto carioca Gustavo Cotrim, responsável técnico pela reforma. Até mesmo os jardins se mantiveram fiéis ao projeto original, o que exigiu intensa pesquisa da paisagista Márcia Raposo.
    De acordo com Sérgio Treitler, arquiteto do Iphan de Petrópolis, em uma restauração, o objetivo é que o novo uso do imóvel se adapte ao bem tombado, não o contrário. Segundo ele, não há restrições quanto ao uso dos imóveis tombados, desde que se restaure o bem sem intervenções que o descaracterizem ou falseiem sua antigüidade.
    “Há quem critique a instalação de clínicas médicas ou de escolas em imóveis históricos tombados. Mas o que importa é a recuperação e a preservação desse patrimônio segundo os critérios do Iphan, que presta consultoria técnica a arquitetos e proprietários”, esclarece Sérgio Treitler.
    Entre os inúmeros imóveis tombados que aguardam projetos de restauração, tal qual o realizado no Solar D. Afonso, um dos mais significativos e imponentes da cidade é o Conjunto Fabril da Cascatinha.
    Antiga Companhia Petropolitana, fundada como indústria têxtil em 1873, o Conjunto engloba edifício fabril de 15 mil metros quadrados, usina hidroelétrica, vila operária, coreto, igreja, estação ferroviária, vias e praças. Quando funcionava a todo vapor na produção de tecidos de algodão, a fábrica empregava cinco mil funcionários – a maioria imigrantes italianos da região do Vêneto – e fazia da Cascatinha um núcleo quase independente de Petrópolis.
    Projetado por um arquiteto francês, o prédio em pedra e estrutura metálica possui, ainda que bastante deteriorado, telhado com telhas francesas e “sheds”, que permitem a entrada de luz e ventilação. “Trata-se de uma edificação tipicamente industrial. É uma jóia”, enfatiza a arquiteta Lilian Amaral de Sampaio, contratada pelo Iphan do Rio para executar um projeto de revitalização da antiga indústria, que teve suas atividades paralisadas na década de 60.
    Segundo ela, esse projeto, fomentado por um grupo de trabalho que envolve representantes da Prefeitura, Sebrae, Iphan, Firjan (Federação das Indústrias do Estado do Rio de Janeiro), Feema (Fundação Estadual de Engenharia do Meio Ambiente), Caixa Econômica Federal e Associação de Empresários da Cia. Petropolitana (Asecop), prevê a execução de estudo preliminar do edifício e de seu entorno. Somente a partir desse estudo é que se realizará planta baixa, maquete e definição de custos para a recuperação do patrimônio.
    “Com base nele, pretendemos atrair empresas e entidades dispostas a investir na restauração. A idéia é, além de recuperar o prédio, que vai exigir reforma estrutural e de esquadrias, criar um centro de memória da Cascatinha, com fotos da fábrica, e uma cafeteria”, conta Lilian Amaral.
    Atualmente, no edifício fabril estão estabelecidas cerca de 50 empresas (formais e informais) que geram em torno de dois mil empregos, diretos e indiretos. Ali funcionam pequenas fábricas de móveis, bijuterias, confecções, estamparias, metalurgia e outras. Segundo Denilson Nicolau, presidente da Asecop, a restauração é necessária, mas as microempresas ali estabelecidas devem manter suas atividades.
    “A Prefeitura de Petrópolis liberou verba para reforma da parte elétrica, uma das exigências do Ministério do Trabalho. Já houve mais de 20 legalizações, e aguardamos a efetivação de um projeto de incubadora de empresas juntamente com o Sebrae. Esse é o coração de Cascatinha”, ressalta Denilson.
    Na opinião de Lilian Amaral, o turismo industrial pode e deve ser fomentado, como já acontece na Europa. Daí a atração do Conjunto Fabril. “O projeto de recuperação inclui a construção de estação de tratamento de detritos industriais, showroom do que é produzido ali, albergue para viajantes, uma vez que Cascatinha está no circuito da Estrada Real, salas de aula e de conferências no subsolo do edifício (uma surpreendente área de três mil metros quadrados), e manutenção da sede da Asecop”, enfatiza ela. Ou seja, a concepção do projeto é estimular o turismo e manter a vitalidade econômica do lugar. Nada melhor para uma cidade que busca revitalizar sua mais genuína vocação.

    Em 1897, Olavo Bilac fez uma generosa leitura de Petrópolis, em crônica no jornal carioca Gazeta de Notícias:
    Assim, amo a vida civilizada encaixada na moldura rústica da natureza primitiva. (...) Por isso, prefiro Petrópolis! (...) Quando os casais alemães, nutridos a queijo fresco e a cerveja loura, entregues ao amor e ao trabalho, deram filhos e melhoramentos ao lugar – logo o resto da gente pensou que devia ser deliciosa a vida, ali, naquela altura, sem miasmas, sem febre amarela.
E, logo, a corte de D. Pedro II começou a ir passar o verão naquele canto da Estrela – patrimônio de coroa: bem pífia corte essa, sem fausto, sem arte, sem dinheiro... Mas, enfim, sempre era uma corte: e a cidade de Pedro foi melhorando e tornando-se a habitação da moda, durante as asperezas do verão fluminense. Hoje, é aquele encanto!

    Escreveu Gilberto Ferrez (neto do fotógrafo Marc Ferrez, que fotografou Petrópolis entre 1875 e 1905) para o Anuário do Museu Imperial, de 1948:
    Petrópolis era a mais aristocrática de nossas cidades. Os colonos alemães habitavam os vales retirados, a Mosela, o Bingen, o Ingelheim, Rhenania, Westphalia, Palatinato. A parte central era ocupada por palacetes dos titulares e diplomatas, cercados de belos jardins floridos e de bosques, muitos dos quais chegaram até nossos dias, tais como: palácio Imperial, palácio da princesa Isabel, o da baronesa de S. Joaquim, de Mme. Landsberg, da família Franklin Sampaio, do Visconde de Mauá, da família Abreu Fialho (antiga Duchas), do Dr. Francisco Pereira Passos, chácara das Camélias, de D. Jerônima de Mesquita, Dr. Guerra Rocha Miranda, Mme. Regendanz, Barão do Rio Branco, Embaixada Inglesa, do Sr. Bloch e outras. Todos realçados pela vegetação dos parques delineados por Binot e tão ao gosto do nosso Segundo Reinado (...). A corte dava o tom.


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