Dodge Kingsway 1959, da Chrysler, muito confortável, câmbio hidramático e marcha comandada por botões no painel






O charme, em detalhes, do Chevrolet Bel-Air verde e branco 1956 coupé, um dos carros mais cobiçados pelos colecionadores


Cadillac conversível preto, 1952, modelo fabricado em comemoração aos 50 anos do Cadillac




Oldsmobile 88, ano 1955




Dodge Kingsway 1959, que ilustra a página de abertura desta reportagem


Triumph 1960 conversível com duas capotas, de lona (fixa) e de aço (removível)


Réplica em fibra de vidro de um MG modelo TF 1955, fabricado pela Avalloni em 1978, com motorização de Opala 4 cilindros


Carroceria original, motorização diferenciada, constituindo-se em um hot-rod (carro modificado e estilizado) Simca Jangada 1966 verde


Detalhe do Dodge 1967 do mestre cervejeiro Roland Reis


Dodge Comand 1942 do publicitário Ronaldo Caiado


Capacete do Exército norte-americano, da Segunda Guerra Mundial


Willis 1942 de Rubens Riet, e Ford 1942 de Santiago Perez (Ford 1942), dois dos fundadores do IJC


Arma original da Segunda Guerra, instalada em um Willlis 1942


Os membros do Imperial Jeep Club: apaixonados por veículos de combate


Fotos: Henrique Magro


Capa

Paixão sobre rodas

    Eles já foram tema recorrente do cinema e da música. Ainda são marco de época e de geração, caracterizam estilos, revelam traços da personalidade de quem os adquire. Uma das maiores invenções da humanidade, frutos da revolução científico-tecnológica iniciada no século 19, viraram símbolos da sociedade de consumo. Como ícones da vida moderna, converteram-se em alvo da publicidade, que explora seu potencial erótico ao associá-los à figura feminina, ou o poder da velocidade ao relacioná-los à virilidade masculina. Por todas essas peculiaridades, os automóveis se tornaram também objetos de coleção, seja por sua evolução mecânica e pelo design, seja por sua importância para a história do século 20.

    Paixão a toda prova assumida por poucos, porém convictos, obstinados, colecionar carros é, acima de tudo, um desejo admirável de preservação. Reza a cartilha do Veteran Car Club do Brasil (clube de colecionadores de veículos antigos) que um bom colecionador identifica, com segurança, a marca, o modelo e a década de fabricação dos automóveis de sua preferência. Ainda segundo o clube, um carro antigo deve ter pelo menos 30 anos de fabricação, independentemente de modelo e tipo.
    Nesse sentido, se indagado sobre as “peças” de sua coleção, o geólogo e geofísico marinho Marcus Aguiar Gorini ganharia nota máxima. Apaixonado por carros da década de 50 (destaques de sua coleção de mais de 60 raridades, que incluem motos e bicicletas antigas), Gorini não titubeia diante de um Cadillac, marca da qual possui diversos exemplares.
    “O Cadillac é um marco do pós-guerra e simboliza um período de prosperidade e de otimismo em todo o mundo ocidental. Era um carro feito para transportar famílias, levar as pessoas ao trabalho com conforto. Naquele tempo, o compromisso da indústria automobilística não era com a lógica do espaço, mas com a estética e com o status que o bem proporcionava”, conta Gorini.
    Símbolo de consumo elitizado e do desenvolvimento industrial impulsionado pela Segunda Guerra Mundial, o Cadillac era raridade nas ruas, principalmente do Rio, então capital da República. “Andei quando criança no Cadillac do meu pai pela Avenida Atlântica e jurei para mim mesmo que teria um”, lembra Gorini. Teria sim, mas não apenas um.
    Em sua coleção há vários exemplares dos anos 50, entre eles um quatro portas com motor V8, um coupé duas portas e um conversível. “O Cadillac inovou o design automobilístico da época com o estilo ‘rabo de peixe’”, acrescenta o colecionador.
    Por essa paixão por maravilhas sobre rod s (algumas ilustram essa reportagem), na garagem e na quadra de tênis coberta de sua residência, em Itaipava, Gorini guarda relíquias em perfeito estado de conservação: um Pontiac 1951, um Packard Clipper 1947 duas portas, um Karmann Ghia 1968 e um Buick Marquette 1930, esta último uma raridade, já que existem poucos exemplares no mundo.
    Gorini ainda preserva outras jóias da história automobilística, como o Dodge Brothers 1933, semelhante ao usado por Al Capone, o Plymouth 1946, modelo utilizado na época pelo general norte-americano Eisenhower, e o Cadillac 1956 que pertenceu a Tenório Cavalcante, o “homem da capa preta”. Adquirido recentemente, o veículo está em reforma. Entre as motocicletas, destacam-se as inglesas Norton 1951 e Sunbean 1950, e a alemã DKW, de 1928.
    “O maior prazer do colecionador é trocar informações, com outros colecionadores ou pessoas simplesmente apaixonadas por carros antigos, sobre detalhes mecânicos e curiosidades a respeito da construção desses carros”, explica Gorini.
    Segundo ele, seja a compra e venda de automóveis antigos em leilões e feiras, seja a comercialização de peças genuínas ou de réplicas perfeitas, esse é um mercado que movimenta bilhões de dólares nos Estados Unidos. Lá existem até mesmo museus de automóveis raros que colocam à venda alguns veículos.
    “Para o colecionador, a originalidade, principalmente em se tratando da pintura do carro, é o mais importante. Dependendo do estado de conservação da carroceria, do motor e da pintura, colecionar carros é um bom negócio”, conclui o geólogo.
    Negócio rentável sim, mas será que um colecionador de carros antigos pensa em se desfazer de suas preciosidades? O que o move, afinal?
    “É o prazer de ver um veículo antigo andando hoje. Há também o gosto por antigüidade, comum a todos os colecionadores”, responde o advogado Rubens Riet, proprietário de um jipe de guerra Willis, de 1943, pertencente ao antigo Ministério da Guerra. Orgulhoso, o advogado mostra as iniciais MG no painel do veículo, que possui até um moderno toca-fitas adaptado no interior do rádio original.
    Assim como ele, outros apaixonados por carros antigos – nesse caso específico, jipes produzidos durante a Segunda Guerra Mundial, que pertenceram ao Exército brasileiro – descobriram na paixão por esses brinquedos um sentimento em comum.
    E tamanha afinidade por raridades dos campos de batalha fez esse grupo formar uma associação sem fins lucrativos denominada Imperial Jeep Club, fundada em 1997, em Petrópolis. “Temos um clube co-irmão, o Clube de Veículos Militares Antigos do Rio de Janeiro, cujo presidente é o João Barone, baterista do Paralamas do Sucesso. Os dois clubes somam vinte e poucos veículos entre jipes, caminhões e carros de combate”, explica Rubens, sócio-fundador do clube de Petrópolis.
    O jipe, primeiro veículo da categoria 4x4, foi criado pela Bantam (fabriqueta norte-americana que desenhou o jipe, seguindo padrões estabelecidos pelo exército americano) e fabricado pela Ford e pela Willys especialmente para a Segunda Guerra, período em que foram produzidos, nos Estados Unidos, aproximadamente 650 mil jipes.
    Carros extremamente raros, esses veículos de guerra também movimentam polpudas cifras nos Estados Unidos, onde se pode encontrar todo tipo de peça e acessório, originais ou réplicas. Aqui, de acordo com Rubens, encontra-se peças em ferros-velhos com facilidade. Como a maioria dos jipes é adquirida em estado deplorável, o trabalho de lanternagem é decisivo. “Temos um lanterneiro maravilhoso em Petrópolis”, acrescenta Rubens.
    Esse trabalho de garimpo, juntamente com o esmero dos sócios do Imperial Jeep Club em restaurar suas preciosidades faz com que o clube esteja a um passo de se tornar o primeiro da América Latina a se filiar ao Military Vehicles Preservation Association (MVPA), associação sem fins lucrativos, com sede nos Estados Unidos, que reúne colecionadores de veículos militares e filia, por todo o mundo, grupos como o clube petropolitano. O IJC já é filiado ao Military Vehicles Collectors of California (MVCC).
    Mas não é apenas a possibilidade de possuir uma peça antiga, restaurada em seus mínimos detalhes, que encanta os jipeiros. Como todo colecionador, eles amam a troca de informações sobre acessórios originais que um amigo conseguiu encontrar, a restauração que outro sócio fez em seu veículo e o tempo levado para transformá-lo em uma relíquia.
    Por todo o esforço dos sócios do IJC em manter seus veículos o mais próximo da originalidade, eles costumam receber convites para participar de paradas de 7 de Setembro. Em Petrópolis, os veículos já desfilaram com ex-combatentes da Segunda Guerra. Paixão por antigüidades, desejo de relembrar o passado, valorização da memória: colecionar carros antigos é também pura emoção.













































































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