A fachada do palácio e o menu do baile da Ilha Fiscal, de agosto de 1888, guardado no arquivo histórico.









Trono de cedro dourado e forro de veludo, com a sigla P II I (Pedro II Imperador) bordada no encosto, ficava no Paço de São Cristóvão. Sala de música com cravo (centro) de madeira dourada, de 1788, manufaturado em Lisboa. Partitura original (de 1876) do hino, encomendado por Pedro II a Carlos Gomes, para presentear o governo norte-americano pela comemoração do centenário de independência do país, guardada no arquivo histórico









Cofre de porcelana e bronze dourado, presente de casamento do rei Felipe aos príncipes de Joinville. Óleo de Pedro Américo retratando Pedro II em trajes majestáticos na abertura da Assembléia Geral, em 1872. Recibo de compra de escravo, guardado no arquivo histórico.









Quadros da reserva técnica do Museu; cálice de cristal Baccarat pertencente ao serviço de cristais do Palácio, abrigado na reserva técnica. As mãos que limpam e restauram diariamente as peças garantem a preservação do acervo


Fotos: Henrique Magro


Capa

Museu para todos

    Os pés calçam as largas pantufas e deslizam sobre o assoalho de madeira nobre. Olhares atentos e zelosos acompanham os passos dos visitantes, que adentram a casa com imensa curiosidade, alguns pela primeira vez, outros relembrando imagens colhidas na infância, em excursões escolares. Seja qual for a motivação, esta não é uma visita qualquer. Trata-se do Museu Imperial de Petrópolis, residência de verão de Pedro II, sucesso de público e ícone da história do século 19 no Brasil. Museu mais visitado do País, o palácio é também um marco da fundação da cidade, criada para o descanso do imperador, que inaugurou o hábito de veranear na serra da Estrela.

    Transformado em museu por decreto de Getúlio Vargas, em 1940, e por ele inaugurado em 16 de março de 1943, o palácio de verão do imperador não é somente o repositório de emblemas do Império, de obras de arte, documentos, livro raros, fotografias e incontáveis relíquias representativas da História do Brasil. Destino de turistas e de pesquisadores em busca de conhecimento sobre o País, seja a passeio, seja por interesse acadêmico, o Museu Imperial é hoje o espaço de lazer cultural mais representativo de Petrópolis.
    “De fato, somos um órgão de comunicação de massa”, define Maria de Lourdes Parreiras Horta, diretora do Museu Imperial. Doutora em Museologia, Maria de Lourdes transformou a imagem da instituição nos últimos 14 anos, desde que assumiu a direção da entidade. Em sua gestão, fica no passado a idéia do museu como um local conservador e elitista, ou bastião da alta cultura. Sob sua batuta, entrou em cena uma administração moderna, que enxerga a instituição cultural como arena para a cultura de massa, pronta a atrair um espectador cada vez mais ávido por megaeventos e espetáculos de sucesso.
    Ao seguir essa linha de articulação entre instituição cultural e público, o Museu Imperial se tornou um espaço híbrido para diversão, conservação da memória nacional e pesquisa acadêmica. Tanto que, além de abrigar um acervo de relíquias importantíssimas – algumas, únicas no mundo – do século 19, o Museu abriu as portas para a arte visual de vanguarda, graças ao convênio com a Funarte, transformando-se também em um paradigma de atividades culturais contemporâneas. O resultado: mais de 300 mil visitantes, de todo o Brasil e do mundo, atravessam seus portões, anualmente, e se encantam com o acervo, os jardins projetados pelo francês Jean Baptist Binot e a residência em estilo neoclássico. Espaços, aliás, que recebem grupos de biodança, capoeira e tai chi chuan (que, eventualmente, se apresentam na área externa do palácio), além de grupos musicais para concertos.
    “Uma de minhas primeiras medidas foi aproximar a instituição dos moradores da cidade”, ressalta Maria de Lourdes. Tal estratégia significou iniciativas como “O Museu é nosso”, que oferece entrada franca para os petropolitanos, todo último domingo do mês, mediante apresentação de comprovante de residência, e a criação da Sociedade de Amigos do Museu Imperial, constituída, principalmente, por moradores e veranistas. “A Sociedade é o grande esteio da instituição. Ano passado, as doações custearam metade das despesas do Museu”, explica a diretora.
    Segundo ela, com a verba é possível viabilizar projetos como o espetáculo Som e Luz, incrementar a loja de souvenirs e a casa de chá, contratar mão-de-obra de apoio às atividades técnicas e adquirir equipamentos de suporte ao trabalho dos funcionários. A casa de chá, inclusive, é utilizada para a realização de eventos particulares e de empresas, revertendo em verbas reaplicadas na instituição. Já a loja é responsável pela comercialização anual de cerca de quatro mil peças, de um rol de 300 produtos, com a marca do palácio estampada.
    O Setor de Educação Patrimonial é outro orgulho da direção do Museu Imperial. O atendimento a escolas de todo o Brasil por monitores treinados atrai mais de 70 mil alunos anualmente. “Adotamos metodologia específica para trabalharmos o acervo e o patrimônio com alunos e professores”, destaca Maria de Lourdes. Em breve, a diretora também pretende inaugurar uma cinemateca para a projeção de filmes nacionais, documentários e outras películas classificadas como filmes “de arte”, ou seja, aqueles desconsiderados pelo circuitão, que privilegia os campeões de bilheteria. “Será mais um atrativo para a cidade”, acrescenta.
    Tais iniciativas, aliadas à seriedade do corpo técnico da instituição, que inclui historiadores, museólogos, pedagogos, arquivistas, restauradores e arquitetos, entre outros, fazem do Museu Imperial o destino de inúmeras e importantes doações de colecionadores privados. Recentemente, o Museu recebeu todo o acervo do empresário e colecionador Paulo Geyer, o que representou a maior doação já feita ao patrimônio público da Nação. Além da casa da família, no Cosme Velho, a doação inclui cerca de cinco mil itens, entre pinturas, obras raras, porcelanas e mobiliário. “Todo ano, recebemos doações incríveis, o que credito à imagem de confiabilidade do Museu Imperial entre a população”, avalia Maria de Lourdes.

O acervo
    Produto da era moderna – surgiram como os conhecemos após a Revolução Francesa, com o Louvre – os museus resumem um desejo profundo de preservação da memória e de construção da identidade das nações. Talvez por essa razão os acervos reúnam peças, seletivamente organizadas, que permitem uma leitura do passado, aos olhos do presente, traduzindo a tensão entre lembrança e esquecimento.
    Teorias à parte, no Museu Imperial, o acervo revela trechos marcantes da história do Brasil no século 19, em especial do Segundo Reinado, período em que Pedro II governou o País de 1840 a 1889. Na biblioteca, por exemplo, os cerca de 50 mil volumes incluem obras sobre história do Império, heráldica, numismática, genealogia e literatura nacional e estrangeira. Outros destaques são as biografias de nobres da corte, as pranchas com aquarelas originais de artistas naturalistas como Debret e Rugendas, periódicos do Rio e de Petrópolis (como a coleção completa da sofisticada revista carioca Kosmos, cujos originais podem ser consultados) e livros sobre a história da cidade. Uma festa para os pesquisadores.
    “O acervo, grande parte doado pelo imperador, torna a biblioteca referência como centro de estudos e de documentação sobre o século 19. Pedro II foi um grande intelectual, amante dos livros e consciente da importância da disseminação da informação”, explica com entusiasmo e amor pelo que faz a historiadora Claudia Costa, responsável pela biblioteca do Museu, onde atende diariamente pesquisadores de todo o País.
    A ela se juntam as arquivistas Meibe Machado e Fátima Morais, chefes do arquivo histórico. Apaixonadas pela riqueza do acervo que têm em mãos diariamente, tratam os documentos com o carinho e o orgulho de mães zelosas. Não é para menos.
    Ali estão guardadas relíquias textuais, como correspondências e documentos, e iconográficas, que incluem mapas, cerca de 13 mil fotografias (destas, cerca de oito mil de Petrópolis), desenhos e gravuras. “No acervo se destacam as 45 cadernetas de viagens realizadas por Pedro II ao interior do Brasil, e 1.500 manuscritos de Pedro I”, revela Meibe Machado. Além disso, documentos referentes à escravidão, como cartas de alforria e recibos de compra e venda de escravos, documentos pertencentes à Carlota Joaquina e uma coleção de partituras do maestro Carlos Gomes, que teve os estudos custeados por Pedro II, são outros destaques, só para citar uma mínima parte do rico arquivo.
    “Estamos realizando, em parceria com a IBM e a Universidade Católica de Petrópolis, a digitalização de todo esse acervo, tanto da biblioteca como do arquivo”, adianta Maria de Lourdes. Tal projeto evitará que a documentação seja manuseada e também facilitará o acesso a pesquisadores de outras cidades. Afinal, segundo a museóloga, não há centro de pesquisa sobre o século 19 mais completo que o Museu Imperial.
    Que o diga o chefe da Museologia, Maurício Ferreira. “O Museu é imbatível em termos de acervo de insígnias imperiais, que são o cetro, as coroas de Pedro I e II, o manto da Ordem do Cruzeiro, os trajes majestáticos de Pedro II, a esfera armilar e a espada do Cruzeiro”, detalha o museólogo.     Tais peças, no entanto, assim como as demais em exposição permanente no palácio, representam apenas, e precisamente, 8,43% do acervo, que abrange 11.985 itens distribuídos em categorias como alfaia, ourivesaria, escultura, mobiliário e iconografia.
    Como ter acesso, então, a relíquias como a coleção de cristais Baccarat utilizados pela família imperial, ou o auscultador, que pertenceu ao Conde D´Eu? “Por intermédio do projeto ‘O Museu que não se vê’, grupos de estudantes, pesquisadores e mesmo turistas percorrem, em visita guiada, todas as áreas técnicas do Museu. As exposições temporárias temáticas também dão conta de expor as peças da reserva técnica”, responde Maurício Ferreira.
    Peças que exigem conservação preventiva e em, alguns casos, restauração meticulosa. “Diariamente, fazemos a conservação das peças em exposição no palácio e, ao longo do ano, seguimos um cronograma de limpeza, conservação preventiva e restauração de todo o acervo”, conta a restauradora Eliane Zanatta, do laboratório de conservação do Museu.
    “Tanto e tão importante trabalho, em dedicadas mãos. É o que se observa, de fato, na visita ao ícone da história imperial brasileira. “Excelência e acessibilidade, essa é a missão do Museu Imperial, que guarda e preserva bens que pertencem a toda a Nação”, resume sua diretora.

Conheça a programação de eventos do Museu:
    Som e Luz, espetáculo com efeitos especiais de iluminação e sonorização, que conta episódios do reinado de Pedro II. Todas as quintas e sábados, às 20h. Ingressos na bilheteria do Museu ou pelo site www.ticketronics.com.br
    Sarau Imperial, espetáculo interativo com música, poesia e texto retirados de correspondência da família imperial, no século 19. Agendamento prévio pelo telefone (24) 2237-8000, ramal 251.
    O Museu que não se vê, circuito, de duas horas, pelos setores de museologia e reserva técnica, laboratório de conservação e de restauração, arquivo histórico e biblioteca. Entrada Franca. Reservas pelo telefone (24) 2237-8000
    O Museu é nosso, todo último domingo do mês, entrada franca aos moradores de Petrópolis mediante apresentação de comprovante de residência.





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