Com 17 anos de funcionamento, o Horto é um retrato do potencial agrícola de Petrópolis. Ali são comercializadas, nos três dias de funcionamento do mercado, cerca de 32 toneladas de verduras, frutas e legumes






Bolos e doces caseiros, mel, geléias, frutas: o Horto garante trabalho e renda para mais de 600 pessoas















A variedade, o frescor e a qualidade dos produtos fizeram do Horto uma referência em hortifrutigranjeiros


Fotos: Henrique Magro


Capa

Beleza e variedade

    Cena 1: sexta-feira, 7 da manhã. O agricultor Paulo Albernaz, morador do bairro Mangalarga, Itaipava, enche a caçamba da caminhonete com uma tonelada de legumes, verduras e frutas, cultivados em seu sítio, e se dirige ao Hortomercado Municipal de Petrópolis. Corta.
    Cena 2: sexta-feira, 10 da manhã. A chefe de cozinha Fernanda Prates, do restaurante Pirilampo, Vale das Videiras, chega ao Horto, como o mercado é mais conhecido, para a compra semanal de hortaliças, entre outros produtos. Em seguida, saboreia um pastel no boteco local, parada obrigatória do público que circula por ali. Corta.


    Essas duas cenas, “rodadas” semanalmente há 17 anos, compõem também a rotina de centenas de agricultores, proprietários de restaurantes e pousadas, veranistas e moradores de Itaipava e arredores. Nesse filme, contracenam cerca de 600 profissionais do campo responsáveis pela venda de 32 toneladas de verduras, frutas e legumes, apenas nos três dias da semana em que o Horto fica aberto ao público.
    Inaugurado em 1989, o Hortomercado é hoje referência como ponto de venda de produtos de qualidade, cultivados nas propriedades rurais de Petrópolis. Em seus 36 boxes são acomodados os frutos do trabalho de produtores de hortifrutigranjeiros, organizados em nove associações (às quais também se agregam os floricultores e truticultores da região), situadas em localidades como Brejal, Bonfim, Caetitu, Caxambu, Itaipava, Jacó, Santa Catarina, Secretário e Taquaril.
    O cultivo de oleráceos, como são classificados os frutos das culturas de ciclo curto, é o forte da agricultura petropolitana. No entanto, somente 5% do que é cultivado e colhido nas propriedades rurais do município é vendido no Hortomercado. A maior parte é comercializada em mercados atacadistas do Rio, como Ceasa e Cadeg, nos municípios de Duque de Caxias, Três Rios e Juiz de Fora, e nas feiras livres da cidade.
    “Atualmente, a principal reivindicação do homem do campo é a construção de um mercado atacadista em Petrópolis. Assim se evitaria a venda para os atravessadores do Ceasa e da Cadeg, que pagam pouco pelas mercadorias e as revendem para o consumidor final por preços muito maiores. Infelizmente, eles lucram mais que os agricultores, sem nada produzir”, alerta Paulo Albernaz, cuja produção, em Itaipava, é toda voltada para o Horto, justamente para evitar esse prejuízo. Mas ele é uma exceção.
    Segundo Jerson Nagel, presidente do Sindicado Rural Patronal de Petrópolis e vice-presidente da Apherj-Petrópolis (Associação dos Produtores de Hortifrutigranjeiros do Estado do Rio de Janeiro – seção Petrópolis), como o Hortomercado absorve somente 5% do que é produzido em Petrópolis, os agricultores se vêem obrigados a vender sua produção para os grandes atacadistas do Rio, a um preço baixo, para evitar prejuízos, uma vez que se trata de mercadorias perecíveis.
    “Um grande mercado atacadista em Petrópolis faria com que clientes que hoje compram no Ceasa e na Cadeg, como supermercados de pequeno porte, hospitais e escolas, comprassem diretamente dos agricultores locais. Isso geraria mais empregos no segmento, incrementaria os negócios. Mas é necessária a intervenção do poder público municipal”, esclarece Jerson.
    Essa intervenção teve o pontapé inicial dado pela Prefeitura, há três meses, com a criação da Secretaria de Agricultura, Abastecimento e Produção, uma reivindicação antiga dos produtores rurais. A missão do novo órgão: aumentar a rentabilidade e melhorar a qualidade de vida do homem do campo, incentivando a produção na linha agroecológica e a normatização e a fiscalização da venda de hortifrutigranjeiros.
    “O Horto é um mercado de venda direta do produtor para o consumidor final, mas não absorve toda a produção do município. Antes, porém, de decidirmos sobre o investimento na construção de um grande mercado atacadista, precisamos conhecer as necessidades dos produtores, de fato. Em Teresópolis, por exemplo, a iniciativa (a construção de um “atacadão”) não alcançou o objetivo esperado, pois, apesar da baixa lucratividade, muitos agricultores ainda preferem escoar toda a sua produção para o mercado atacadista do Rio e assim evitar perdas”, alerta o secretário Leonardo Faver, engenheiro agrônomo da Emater de Petrópolis por 15 anos.
    Segundo ele, a fim de evitar ações precipitadas, a Secretaria está realizando uma pesquisa para avaliar o potencial agropecuário do município. “Essa ‘radiografia’ é o primeiro passo, e esperamos ter esse levantamento dentro de seis meses. Talvez a melhor solução não seja a construção de um grande atacado, mas de vários pontos de venda direta, nos moldes do Horto, pela cidade”, comenta o secretário.
    Enquanto a questão é analisada, a Secretaria está investindo na revitalização do Horto, com a reforma do prédio e a pavimentação do estacionamento. “O Horto entrará em uma nova era, o que aumentará a rentabilidade do produtor e a satisfação do público consumidor”, garante Leonardo Faver. Outra ação de fomento à produção agrícola do município é a inauguração da Fazendinha, um centro de educação ambiental e venda de produtos agrícolas orgânicos direto do produtor, no Parque Municipal de Petrópolis. O projeto, permanente, é uma ação conjunta das Secretarias de Agricultura, Abastecimento e Produção; de Educação; de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável; da Comdep (Companhia de limpeza urbana) e da Fundação de Cultura e Turismo de Petrópolis.

Feira de bairro
    Um quê de feira-livre de bairro, a qualidade dos produtos, a fartura e o colorido dos boxes, o burburinho do boteco, onde a cerveja está sempre gelada e os pastéis quentes e saborosos, e o vai-e-vem de pessoas circulando com braçadas de flores fazem do Horto parada quase obrigatória. Ao menos essa é a opinião de Fernanda Prates, do restaurante Pirilampo. “A durabilidade e a qualidade dos produtos são inigualáveis. Por isso, os donos de pousadas e chefes de restaurante batem ponto aqui todas as sextas-feiras. O pastel, depois, é obrigação”, diz ela.
    Outro atrativo do lugar é o box da delicatessen Serra e Campo. A lojinha, bem sortida, é um chamariz para glutões, visto que ali se comercializam queijos, frios, embutidos, pães, bolos, geléias, enfim, tudo o que se imagina para um fim de semana de tirar até os mais obstinados da dieta. “Nosso atrativo é a qualidade dos produtos, o corte dos frios, mas, principalmente, o atendimento. O público faz fila, fica o maior congestionamento de gente na frente do balcão, mas estamos sempre sorrindo”, diz Sílvia Cândido, gerente e funcionária mais antiga da delicatessen.
    Um box de destaque é o da família Katsumoto, especializado na venda de mudas de hortaliças, ervas aromáticas e ornamentais, orgânicas e de flores. Pioneira, em Petrópolis, na produção de mudas para o agricultor, a família também oferece serviço de consultoria para a montagem e a manutenção de hortas caseiras. “Mais de 200 produtores rurais de Petrópolis, Teresópolis, Três Rios e Rio de Janeiro compram nossas mudas. A consultoria fica por conta de minhas filhas, que são engenheiras agrônomas”, conta Ângela Katsumoto, que tem sítio no Brejal.
    O Horto é também o ganha-pão da família de José Pimenta. Em seu box, organizado com apuro, ele comercializa dez diferentes tipos de alface, cultivados em sua propriedade no bairro Caxambu, próximo ao centro de Petrópolis. “Em um final de semana, vendo cerca de 1.200 molhos de verduras. Minha produção é toda voltada para o Horto”, explica o agricultor, que emprega dois funcionários para auxiliá-lo no plantio e na colheita das hortaliças.
    Para quem imagina que mais de mil molhos é muito, não tem afinidade com a linguagem corrente do Horto. Ali, molhos, quilos e toneladas são palavras usuais, pois a demanda ao longo dos três dias de funcionamento é grande. E não apenas de legumes, verduras e frutas. “Vendo 150 quilos de peixe nesse período, entre trutas e tilápias”, ressalta João Luiz da Silva, do único box especializado na venda das espécies, criadas em Petrópolis nas localidades Jacó e Rocio (trutas) e Barra Mansa (tilápias).
    O plantio de flores também representa um ramo de negócio que tem público garantido. Américo e Luiz Fernando Martins, proprietários do Sítio São Luiz, em Santa Mônica, Itaipava, são responsáveis pelo plantio de mais de 120 variedades de flores do campo, o que lhes permite colheitas ao longo do ano todo. “Vendemos mais de 400 maços de flores nos finais de semana, sem contar os feriados como Dia das Mães”, comenta Luiz Fernando.
    Flores, hortaliças, frutas, peixes. O Hortomercado simboliza a força do trabalho de centenas de produtores rurais, distribuídos em mais de 140 propriedades. “Isso sem contar o pessoal de limpeza e manutenção do prédio e os funcionários do bar”, lembra Alexandre Teixeira, funcionário do Sindicato Rural Patronal de Petrópolis. Enfim, o Horto representa um segmento de negócio que merece ser muito bem cuidado.


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