Lan em seu ateliê, no sítio onde mora, há 30 anos, em Pedro do Rio: italiano brasileiríssimo



























































A ceramista Flávia Santoro utiliza dois tipos de queima do barro para produzir suas peças, vendidas em galerias de arte no Rio, em BH, Tiradentes e Itaipava






Vítor Lemos: temática aborda a paisagem de Itaipava e fotos familiares





























O produtor musical, guitarrista e compositor Marcos Vianna fundiu estilos para lançar seu primeiro disco solo

Fotos: Henrique Magro


Capa

Tempos e olhares híbridos

    Se já vivemos tempos modernos, hoje eles são híbridos. O hibridismo é tema recorrente nas artes plásticas, na música, na gastronomia, quando se fala no cruzamento de influências entre culturas distintas, na fusão de tendências ou na releitura de estilos. Deixando-se a crítica ao estrangeirismo à parte, hoje expressões como fusion e collages, ou montagem, ressemantização e incorporação expressam um momento em que as fronteiras do tempo e do espaço são fragmentadas pela velocidade da informação e pelas migrações transnacionais, entre outros fatores. Dessa forma, expressões artísticas variadas abordam, cada uma a sua maneira, as inquietações que o novo século nos oferece. Como os artistas as traduzem, cabe ao olhar de cada um.

Lan (por Lan)*
Samba: Sou o mais velho membro da Portela.
Itaipava: Adoro morar aqui.
Mulatas como temas das charges: A essa altura da vida, aos 81 anos, não posso ser exclusivista. Por que só mulatas?
Saúde: Sou italiano da Toscana, onde se faz o vinho Chianti, região em que o colesterol dos moradores é baixo, não há problemas de coração. Isso dito a partir de estudos científicos! Tenho ótima saúde. Segundo o Chico Caruso é porque sou feito de material importado.
Itália: Desde criança, tenho um tremendo orgulho de minha nacionalidade. Uma vez no colégio um napolitano me desafiou, pois achava que o nome dele era maior do que o meu. Ele me perguntou: qual é o seu nome? Respondi: Lanfranco Aldo Riccardo Vaselli Cortellini Rossi Rosini! Mas assino Lan e em meu documento está Lanfranco Vaselli, minha família que me perdoe. Comida de botequim: Adoro picanha com gordurinha, presunto de Parma com gordurinha... Quando entro no Bracarense, peço: “dá o meu sanduíche de pernil com bastante gordurinha”, todo mundo se vira surpreso.
Rio: Adoro o Rio. Morei em Paris, mas o parisiense é chato, não é hospitaleiro. Sou cidadão carioca e petropolitano, sou muito condecorado. Aliás, as medalhas deviam ser feitas de ouro. Tenho tantas que era só fazer uma cópia em bronze e ficar rico vendendo o ouro a quilo.
O cachorro de estimação: O nome é Alexander Bakunin, o maior anarquista da história. Me perguntaram de que raça era. Pensei duas vezes: não vou dizer que é vira-lata, não, é tão bonito!
Profissão: Sempre lutei para os ilustradores se valorizarem. Ilustrador tem olhar próprio, não pode só ilustrar os textos dos outros. O baixinho das charges: O baixinho nasceu casualmente, porque as mulheres parecem gigantescas, inalcançáveis. Criei um personagem que, aos poucos, foi se assemelhando comigo: adora mulher (a minha é a melhor do mundo, no sentido de não fazer perguntas e nunca armar uma cena de ciúme), ama as mulatas, é torcedor do Flamengo, portelense e boêmio. Um dia uma colega do JB me perguntou se era eu, respondi que era meu alterego. O baixinho sempre está com uma mulher, não se sabe se é esposa, amante, namorada, às vezes é loira, é morena, é mulata. Buenos Aires, outra paixão: Com 23 anos, trabalhava em cinco revistas e em dois jornais de Buenos Aires e em todos ganhava salários de alta categoria. Imagina, com 23 anos, não saía dos cabarés, mas também trabalhava como um louco.
Brasil: Evita era minha patroa, era dona da imprensa argentina. Quando ela morreu, decidi passear, conhecer Nova Iorque. Passei pelo Rio e vi as cariocas. Disse, meu Deus, o que é que eu vou fazer em Nova Iorque? Minha vida sempre foi cheia de acidentes de percurso e as culpadas sempre foram as mulheres. Daí fiquei, em 1952. Não estou arrependido, apesar do Lula, que eu detesto, pois se gaba de nunca ter lido um livro.
* um ícone do hibridismo cultural

Flávia Santoro
    Barro, sementes, folhas, cinzas para a produção de esmaltes, pigmentos naturais de óxidos extraídos das rochas. Hibridismo em cerâmica traz tons e elementos naturais, gerando arte contemporânea cuja gênese é norteada por técnicas indígenas primitivas. Tendência que resume, por assim dizer, o trabalho da ceramista Flávia Santoro, mineira de Belo Horizonte que fixou residência e ateliê em Itaipava, há 10 anos.
    Formada em cerâmica e escultura pela Escola de Belas Artes de Vallauris, na França, tendo realizado curso de escultura na Academia Brasileira de Arte de São Paulo, Flávia descobriu sua vocação quando, em 1991, passou uma temporada com os índios caraívas, em Ponta de Corumbau, na Bahia. Foi do convívio com a tribo indígena que aprendeu técnicas de modelagem e de queimas primitivas, dominando o manuseio do barro. Assim, fundindo saberes e recursos estéticos formais ao capital étnico, conquistou o gosto dos compradores urbanos. Hoje Flávia tem jarros, painéis com ferro e esculturas comercializadas em galerias de arte no Rio, em Belo Horizonte, Itaipava e Tiradentes.
    “Venho de uma família de psicólogos e psicanalistas. Cheguei a me formar em psicologia, mas nunca cliniquei. Descobri minha vocação profissional na cerâmica. É um trabalho gratificante”, afirma a artista, que ministra cursos em seu ateliê e já formou inúmeros ceramistas.
    Flávia faz peças esmaltadas a partir de duas técnicas: Raku (técnica de queima japonesa que deixa as peças com manchas e craquelês) e alta temperatura (aplicada a objetos utilitários, como pratos, xícaras, fruteiras, refratários e cinzeiros).
    “A partir dessas duas técnicas, a cada ano, lanço uma linha diferente, inspirada em motivos naturais. Já explorei temas marinhos, folhas e agora busco inspiração nas sementes. Pratico o que chamo de cerâmica artística, não é artesanato. A cerâmica exige um estudo”, esclarece Flávia, que inclusive produz o esmalte que aplica em suas peças a partir de cinzas que recolhe de lareiras. Uma alquimia, de fato.

Vítor Lemos
    A opressão feminina norteou sua primeira fase artística, resultando em sofisticadas telas surrealistas. Poucos anos depois, adotando o expressionismo fovista, criticou a burguesia, em obras consideradas líricas e fascinantes por Antônio Houaiss, em crítica sobre seus quadros, em 1988. Com sofreguidão e energia, transportou sua temática para o álbum de família, utilizando fotos antigas para registrar a condição efêmera da humanidade. Do acrílico passou à aquarela, e desta retornou à técnica anterior, com a mesma desenvoltura.
    Português nascido em Lamego, Vítor Lemos veio para o Brasil em 1952, aos 26 anos. Publicitário, em 35 anos como diretor de arte, passou por agências nacionais e multinacionais e recebeu inúmeros prêmios. Viu seus anúncios serem reproduzidos em anuários internacionais de propaganda. Mas foi na década de 80 que abraçou, em definitivo, a pintura, vocação adormecida desde a infância. Em sua primeira exposição, na galeria A. M. Niemeyer, na Gávea, vendeu todas as telas, fato recorrente em cada mostra artística que realiza.
    “Em minha obra, a figura humana e as cores tropicais são utilizadas como temática para expressar, com otimismo, a condição efêmera da humanidade. Vivemos a queda das fronteiras do tempo e do espaço”, explica Vítor, cuja verve artística está impregnada de hibridação cultural, seja pelo deslocamento físico (na migração de Portugal para o Brasil), seja pela conversão do publicitário premiado em pintor bem-sucedido, seja ainda pela fotografia reconfigurada na pintura. Dessa forma, o artista vem construindo uma obra em que a efemeridade é contestada pela valoração de instituições sólidas, segundo ele, como a família. “Quebro o viés atual da desconstrução familiar pelo reforço dos laços familiares, em meu caso muito sólidos e positivos. Mas faço isso sem pretender pregar mensagem alguma, é uma experiência totalmente particular”, esclarece. Sem dúvida, como disse Houaiss, a obra de Vítor (que mora em Itaipava, onde ministra cursos de pintura), “nos oferece a certeza de que com ele se instaura um momento singular no nosso processo pictural”. Que o efêmero, inevitável, o continue inspirando.

Marcos Vianna
    Se Gil misturou chiclete com banana para cantar o samba-rock dos anos 70, os acordes de hoje refletem o hibridismo cultural na música – fusão de melodias ou reinterpretação de estilos em linguagem contemporânea. Um exemplo é o “Blues´n´Bossa”, primeiro disco solo de Marcos Vianna, guitarrista da banda “On the rocks”, compositor e produtor musical.
    O disco instrumental faz casamentos musicais surpreendentes, como Jimi Hendrix com Ary Barroso, Carlos Santana com Luís Bonfá, som eletrônico com batida da bossa nova. Resultado: um cruzamento multimídia e multicultural que gerou um som em estilo lounge, suave, com baladas ótimas de se ouvir. O CD, em fase de lançamento, foi gravado no estúdio de Marcos, em Itaipava, onde mora há 20 anos. O MV Studio conta com infra-estrutura (sala de som equipada com instrumentos acústicos, sala de mixagem, suíte independente) para bandas interessadas em gravar suas criações.
    Ex-produtor de gravadoras como Warner, Top Tape e RCA Victor (atual BMG), produtor de jingles publicitários e de discos para músicos como Jorge Mautner, Celso Blues Boy, Marcelo Süssekind, entre outros, Marcos é um autodidata. “Aprendi a tocar guitarra sozinho, toda a minha carreira como músico e produtor construí trabalhando e praticando”, conta ele.
    Artista híbrido, exacerbou os cruzamentos musicais e os converteu em eixos conceituais para seu trabalho, com o intuito de fugir do lugar-comum e assim criar algo de novo no cenário musical do país. Para isso, lançou mão da tecnologia como meio, e não fim, mantendo seus equipamentos focados no sistema analógico, e não no digital. “Em muitos casos, a tecnologia padronizou a música. O computador faz a performance do músico ficar certa, mesmo que ele não tenha base musical. Por isso, em meu estúdio, gravo o som real dos instrumentos, em tempo real, não utilizo sampler de terceiros”, explica. Com a iniciativa, traz boas-novas para a música brasileira.


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