Albino Carneiro, empresário brasileiro com sociedade em uma vinícola argentina: produção, importação, distribuição e comercialização do Família Borges no Brasil

Fotos: Henrique Magro e divulgação
Locação: Maison du Sommelier

Especial

Alimento divino

Entrevista: Albino Carneiro

Sócio da vinícola Sangiorgio&Fornari, localizada em Mendoza, na Argentina, o empresário Albino Carneiro trouxe para o Brasil o tinto Família Borges, adotando o Rio, principalmente a Região Serrana, como porta de entrada para a bebida. Em entrevista a Estações de Itaipava, ele conta como se iniciou no mercado de produção e comercialização de vinhos.


Como o senhor entrou no mercado de vinhos?
Eu era executivo de uma multinacional norte-americana e fui designado, em 1992, para gerenciar as operações da companhia na Argentina. Trabalhei lá por 12 anos e conheci muita gente do mercado de vinhos, que sempre me interessou. Além disso, o mundo do vinho me encantava. Sou filho de portugueses e meu pai me ensinou, desde os 12, a tomar uma taça de vinho com sopa. No Brasil, associamos a bebida ao glamour, ao requinte. Isso é ótimo, mas, na Europa e nos países produtores de vinho, ele é tido como um alimento, não há a mensagem de bebida alcoólica. Cresci com essa cultura e imaginava trazê-la como filosofia de negócio para o Brasil. Quando me aposentei, há dois anos, e montei uma assessoria empresarial para atuar nos segmentos de novos produtos, recursos humanos e planejamento tributário, a idéia de importar vinhos começou a ganhar forma. Em uma viagem a Bariloche, conheci um restaurante, cuja proprietária é sobrinha de Che Guevara. Lá bebi um vinho argentino maravilhoso, o Família Margueri. Fui para Buenos Aires e contatei um dos sócios da empresa. Comecei daí a importar o vinho para o mercado carioca, apoiado em uma estratégia de excelência em produtos e serviços para o cliente.

No que consiste o projeto do Família Borges?
Amigos meus de Buenos Aires me convidaram para desenvolver um projeto de exportação para a vinícola Sangiorgio&Fornari, de Mendoza, criando uma marca para o mercado brasileiro. Daí nasceu o Família Borges Malbec e Cabernet Sauvignon. Preparamos o projeto cuidadosamente, durante 14 meses, sem pressa de lançar o produto ou colocá-lo a qualquer custo no Brasil. Hoje eu e esse grupo de amigos temos uma participação acionária na vinícola. Nosso comprometimento é total: produzimos, importamos, distribuímos e comercializamos o vinho. Estamos da ponta inicial à ponta final. Todos os que compram nosso produto têm a certeza de que não é uma aventura, é um projeto que veio para ficar. Não só a qualidade, mas o design, a etiqueta, o rótulo, a cápsula, a garrafa, o carro de entrega (refrigerado, com vidros climatizados), o armazém refrigerado no Rio para guardar as garrafas, tudo foi pensado e concretizado. Procuramos tomar todos os cuidados para que chegue à taça do consumidor um vinho com a qualidade que esperamos. Por isso a armazenagem nas delicatessens, nos restaurantes, é fundamental, pois o vinho tem vida, e se não for bem cuidado terá sua qualidade final comprometida. Queremos empresas que estejam comprometidas com a marca, representantes que sejam fiscais do produto e do bom atendimento. Nossos passos são lentos, mas firmes.

O negócio exige muitas viagens a Mendoza?
Viajo a cada 45 dias. Estamos projetando a expansão das terras da vinícola, localizada em Cruz de Pedra, Mendoza, e futuramente pretendemos desenvolver o turismo enológico: teremos, na própria vinícola, uma pousada com 8 ou 10 suítes, para hospedagem e degustação. O turista verá como funciona o processo de produção, desde a colheita. Esse turismo vem crescendo no mundo inteiro e as grandes vinícolas na Espanha, em Portugal, na Itália, nos EUA, estão investindo nisso. Estamos nos estruturando.

Como é a Sangiorgio & Fornari?
É uma vinícola antiga, familiar e tradicional, assim como outras tantas que existem na Argentina, mas que produzia somente para o mercado interno. A exportação foi iniciada com o projeto do Família Borges. Esse vinho está em um patamar superior ao dos vinhos comercializados internamente na Argentina e ao do que eles produzem para venda interna, o Tiberius. Hoje as grandes vinícolas estão colocando seus melhores produtos para exportação. Como o mercado brasileiro é grande, há mais espaço para o vinho argentino aqui do que no mercado interno deles, que é extremamente competitivo e, como existem muitas vinícolas, não há demanda para tantos vinhos.

A capacidade produtiva da vinícola atenderá à demanda do Família Borges?
Sim. Hoje utilizamos apenas 30% da capacidade produtiva. A previsão de venda do Família Borges é de 40 mil garrafas em 2006 e de 70 mil em 2007. Assim manteremos um crescimento sustentável, fixando a marca, gerando recursos e investindo constantemente no negócio. Em agosto, lançaremos o Família Borges Reserva (20% Malbec, 20% Cabernet Sauvignon e 20% Merlot).

Onde o Família Borges é comercializado?
No Rio, já pode ser encontrado em 50 locais e também nos melhores restaurantes e hotéis da Costa Verde e da Região Serrana, onde a inserção do vinho nos estabelecimentos comerciais está sendo feita com carinho todo especial, pois há temperatura para se beber vinho o ano todo. Em Itaipava, por exemplo, o Família Borges pode ser encontrado nos restaurantes Clube do Filé e Il Perugino, e em delis como Lidador, The Place, Bordeaux, Maison du Sommelier e outras. Almejamos o crescimento sustentável, em pontos comerciais que tenham afinidade com o produto e compromisso com a filosofia de fortalecimento da marca. Temos obtido ótima aceitação no Estado do Rio desde o lançamento, há seis meses. Nossa estratégia agora é distribuir nos estados do Sul e nos demais estados do Sudeste. O Família Borges é um vinho de valor médio para alto (R$ 60), de baixíssima acidez e de teor alcoólico na faixa de 13, 4%.

Qual a característica do mercado argentino?
O mercado para comercialização de vinhos na Argentina é grande e competitivo. Nos últimos 10 anos, o país investiu fortemente em tecnologia, no cultivo de terras. Muitas vinícolas e empresas do exterior (Chile, Espanha, Holanda, EUA) compraram terras e participações em vinícolas no país. Então, os vinhos melhoraram muito. Na Argentina, existem aproximadamente 1.300 vinícolas, mas somente 200 exportam, e a cada dia surgem novas vinícolas, com produtos espetaculares a custos excelentes. Então a Argentina começou a seguir o caminho do Chile, que há uma década investiu em logística, em produção e em qualidade, sedimentando a cultura de exportação. O resultado: desde agosto do ano passado, a Argentina vem superando o Chile na venda de vinhos para o mercado brasileiro, onde o consumo da bebida aumenta aceleradamente.

Por que investir em uma vinícola argentina e não brasileira? Pelo fato de esse grupo de amigos argentinos ter me convidado para o projeto da Sangiorgio&Fornari. Como brasileiro, naturalmente tenho mais facilidade para abrir canais de distribuição no país. Por exemplo, passamos seis meses para adequar o produto às exigências do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento. Mas conseguimos a aprovação da marca e a vinícola ganhou registro para comercializar o Família Borges no Brasil por 10 anos.

Está satisfeito como o resultado pessoal e profissionalmente, a família o apoiou?
Muito. Para se ter uma idéia minha filha, aluna da ESPM (Escola Superior de Propaganda e Marketing), e minha esposa, design e estilista, trabalharam diretamente na confecção do rótulo do Família Borges, que ficou sóbrio, elegante, símbolo de um bom vinho para compor uma boa mesa.


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