Estudo urbanístico dos Amigos de Itaipava, que prevê pistas únicas, em dois sentidos, margeadas por calçadas e ciclovia, com faixa para pedestres a cada 200 metros


Itaipava hoje: trecho em frente ao condomínio Granja Brasil, com pistas duplas

















O projeto Orla do Piabanha prevê a abertura de faixa vicinal ao rio para movimentação de máquina de dragagem


A mesma faixa sendo utilizada como ciclovia, após encerramento dos trabalhos de dragagem e desassoreamento do Piabanha







A proposta dos arquitetos Mauro Otero e Pedro Quintanilha: calçadões interligando os centros comerciais











Desenho da União e Indústria com calçadas




















Fotos: Henrique Magro

Especial

O futuro é agora

    A Pedra do Salto, como é denominada a grande montanha que parece abraçar Itaipava, pode ser vista, em toda sua magnitude, de vários trechos da União e Indústria, estrada federal que tem cerca de 10 dos seus 100 quilômetros passando pelo distrito petropolitano. Agora, imagine contemplar essa pedra majestosa de calçadas arborizadas ou de ciclovias, onde pedestres e ciclistas circulassem com conforto e segurança. Hoje, vale ressaltar, em vários trechos da rodovia eles “disputam” o espaço, de forma perigosa, com veículos de passeio, ônibus, caminhões e até carretas, uma vez que Itaipava se expandiu ao longo da União e Indústria sem que a estrada fosse devidamente urbanizada.
    O que essa imagem sugere é que o crescimento de Itaipava está em pauta, e com ele uma discussão em voga na atualidade: o “consumo” do espaço urbano, ou seja, o modo como as pessoas que nele vivem o compartilham e o utilizam. Por essa razão, Estações de Itaipava consultou os arquitetos Andrés Cebrián, Mauro Otero e Pedro Quintanilha e o engenheiro agrônomo Orlando Graeff em busca de propostas para a urbanização de Itaipava em seu trecho mais emblemático: os 4,8 quilômetros, entre o trevo de entrada da localidade e o ponto popularmente conhecido como “arranha-céu”, que fizeram do distrito símbolo da expansão de Petrópolis.


Andrés Cebrián
    A discussão sobre a urbanização da União e Indústria ganhou fôlego com a formação do grupo Amigos de Itaipava, em 2004, constituído por moradores e veranistas preocupados com o futuro do lugar e interessados em buscar soluções para sua melhoria. Foi desse grupo, do qual fiz parte, que surgiu a elaboração de um projeto urbanístico para os 4,8 quilômetros mais “problemáticos” de Itaipava, os mais movimentados. O objetivo principal da iniciativa: dar prioridade ao ser humano, não ao carro. Esse é um projeto polêmico, pois muitos comerciantes acham que serão prejudicados caso as áreas existentes em frente às suas lojas, a maior parte utilizada como estacionamento, sejam transformadas em calçadas, como ocorre em toda cidade urbanizada. Para demonstrar o quanto estão equivocados, cito sempre Búzios como exemplo. O comércio de lá foi totalmente contra a construção da Rua das Pedras, pelo mesmo motivo. Hoje, aqueles comerciantes estão satisfeitíssimos com o resultado. Daí a importância do nosso projeto, porque ele prioriza o pedestre e também o ciclista. O que propomos: o carro continuaria circulando na União e Indústria, em duas vias opostas, como acontece hoje. A diferença é que essas duas vias teriam pistas únicas, sem espaço para ultrapassagens, o que manteria a velocidade média dos veículos em torno de 40 km/h. Para evitar engarrafamentos, como ocorre atualmente, não seriam instalados semáforos nem quebra-molas. Por essa razão o projeto prevê recuos laterais nessas duas vias, para desembarque de passageiros e para pontos de ônibus. Além dos recuos, a idéia é que o lado direito da União e Indústria (sentido Juiz de Fora) tenha calçada e ciclovia compartilhando o mesmo espaço. O lado esquerdo (sentido Petrópolis) teria somente calçada. A fim de evitar que os veículos cruzem as vias para retorno, prevemos, entre elas, a instalação de separadores, que podem ser de concreto. Para retorno, além das rótulas existentes, projetamos outras duas: uma em frente ao Banco Itaú, próxima ao “arranha-céu”; outra em frente à loja Creações Menê perto do futuro shopping Estação Itaipava. Já as travessias para pedestres seriam niveladas com as calçadas e ficariam, ambas, acima do nível das vias dos carros. Haveria uma dessas passagens de nível a cada 200 metros e, obrigatoriamente, em frente a escolas, supermercados e centros médicos. Já nas calçadas, a cada seis metros, em ambos os lados, seria plantada uma árvore. Também não poderia deixar de haver estacionamentos para veículos. Eles seriam instalados em terrenos vazios, já existentes ao longo da União Indústria, mediante a isenção de taxas municipais para os proprietários. E, finalmente, o imprescindível: um projeto sério de escoamento pluvial. Sem ele, as vias virariam uma grande piscina.

Orlando Graeff
    A limpeza periódica da calha do Piabanha é uma necessidade. Por esse motivo, ela demanda a abertura de vias marginais ao rio para a movimentação de máquinas e caminhões destinados à dragagem e ao desassoreamento. Já se fez isso, anteriormente, em alguns trechos, mas criou-se uma polêmica ambiental a respeito da movimentação da máquina nas margens e no leito do rio, pelo fato de a obra não ter sido autorizada pela Feema. Pelo que se constatou, embora nenhuma dessas vias abertas tenha danificado florestas, elas passaram a ser utilizadas, como seria de se esperar, para a invasão das margens do Piabanha e a instalação de casas, serrarias clandestinas, viveiros de mudas etc. A fim de sustar esse danoso processo, criou-se o Orla do Piabanha, defendido pelo Conselho Gestor da APA-Petrópolis (Área de Proteção Ambiental da Região Serrana de Petrópolis). De baixíssimo custo e grande repercussão social, principalmente para Itaipava, o projeto propõe algo muito simples: em cada trecho indicado para acesso das máquinas, uma margem seria totalmente reflorestada e a outra arborizada e preparada para receber vias asfaltadas ou ensaibradas. Essas vias seriam utilizadas como ciclovia e via de pedestres e, quando se tornasse necessária a dragagem do rio Piabanha, serviriam momentaneamente para o acesso e o trânsito de veículos e de máquinas. Vejo nele também outras vantagens: a abertura dessas vias auxiliaria o fluxo da água e manteria desobstruída a área de transbordamento do rio, durante as cheias de verão, que são muito rápidas; o combate às invasões das margens do rio seria propiciado pela maior capacidade de fiscalização dos próprios cidadãos; a proteção adequada das margens do rio viria ao encontro da legislação ambiental, uma vez que seriam controlados a erosão e o assoreamento; futuras obras de sistema de esgoto sanitário (já previstas nos contratos das concessionárias), assim como de drenagem e de adução de água poderiam utilizar essas vias e trazer ainda mais recursos para melhorá-las; terrenos hoje inviabilizados pelo traçado da BR-040 poderiam encontrar uso urbanístico, integrando-se ao patrimônio urbano e à economia local; muitos estabelecimentos que hoje desprezam a parte de seus terrenos voltada ao Piabanha, onde são jogados entulhos e lixo, teriam como aproveitá-la. Dessa forma, o projeto aumentaria a capacidade do poder público de limpar o rio, o que é necessário, pois o crescimento urbano não pára. Se continuarmos a esconder o Piabanha, a “varrer a sujeira para debaixo do tapete”, que é o que se tem feito, nada mudará. Agora, se levarmos o cidadão a olhar o rio, criaremos entre ambos uma relação afetiva. O Piabanha não pode ser mais um grande esgoto. Para que haja uma mudança, o cidadão precisa passear em suas margens, conscientizar-se da importância da preservação ambiental, exigir, tomar a iniciativa de não sujá-lo.

Mauro Otero
    Eu e o Pedro Quintanilha pensamos, há alguns anos, em um projeto de urbanização do trevo de Itaipava ao “arranha-céu” que tivesse um modelo para experimentação. Nesse “trecho-modelo”, onde o projeto seria implementado, instalaríamos um quiosque com escritório de arquitetura volante, onde estudantes – a partir de convênio com alguma universidade – ouviriam as crítica e sugestões da população sobre a funcionalidade ou não desse projeto. A partir de então ele poderia ser executado em outras áreas ao longo da União e Indústria. Inicialmente, a idéia é a seguinte: alternar trechos de pista dupla com trechos de pista única, conforme o estreitamento ou o alargamento da União e Indústria, criando recuos para pontos de ônibus e paradas de veículos. As travessias de pedestres seriam demarcadas em locais com faixas coloridas e sinalizadores sonoros, ou poderiam ser construídas passarelas de madeira e aço, sobre a União e Indústria, nos pontos mais movimentados. Esse projeto experimental pode ser implementado, por exemplo, entre o Shopping Vilarejo e o futuro Estação Itaipava. Uma outra proposta, a meu ver bastante ousada, seria sugerir a grupos de comerciantes que integrassem suas lojas com calçadas de uso comum, onde seriam instaladas jardineiras, mesas e cadeiras, quiosques para venda de suvenires e para atendimento ao turista, ou seja, criassem um shopping a céu aberto. Com essas melhorias, haveria a valorização desses pontos. Isso não é fácil implantar, mas é possível reunir cinco ou seis comerciantes e fazer um projeto piloto. A Rua das Pedras é um exemplo. Na época de sua construção, os comerciantes contrários a ela não tiveram visão, e hoje trata-se do metro quadrado comercial mais valorizado de Búzios. Nosso projeto também pode ser conciliado com o projeto dos Amigos de Itaipava. Ou seja, precisamos olhar Itaipava e ver tudo o que estamos perdendo e o que perderemos se não tomarmos iniciativas como essas. Outra questão é a altura dos prédios no distrito: acho que não deveriam ultrapassar três ou quatro andares.

Pedro Quintanilha
    Eu e o Mauro imaginamos também que, nesse trecho da União e Indústria do qual falamos, poderia ser implementado um sistema de transporte gratuito que seria feito por meio de jardineiras (ônibus sem portas laterais), financiadas por associações de comerciantes, por exemplo. Os motoristas parariam seus carros naquele terreno imenso do Hortomercado Municipal, ou em outros estacionamentos ao longo da rodovia, estacionamentos ao longo da rodovia, e usariam a jardineira como meio de locomoção. Nosso projeto também prevê a construção de pontes sobre o Piabanha para ligar a faixa de terra que margeia a BR-040 ao outro lado do rio. Essa idéia se integra ao projeto Orla do Piabanha. Vou dar um exemplo: o turista vem pela BR-040, entra nessa estrada vicinal aberta pela máquina de dragagem, pára o carro em estacionamento instalado na margem esquerda do rio, atravessa a ponte e visita o shopping Itaipava, que fica na margem oposta. Em qualquer cidade do mundo com perfil turístico, os visitantes param os carros a uma distância de até um quilômetro do centro histórico ou comercial e completam a visitação a pé. Isso não é viável em Itaipava, por ser ela atravessada por uma rodovia federal, mas podemos humanizar a rodovia. Outra sugestão do projeto é criar mais um novo entroncamento para entrada e saída de Itaipava, além dos já existentes, pela antiga estrada do Catobira, onde fica o restaurante Armazém do Guga. Para isso, conseguimos aprovar, nos órgãos públicos responsáveis e na Concer, vias de entrada e de saída da BR-040 que poderão ser acessadas por essa antiga estrada do Catobira. Mas o mais importante, acredito, é o poder municipal elaborar um plano diretor para Itaipava e um plano de reestruturação urbana desses 4,8 quilômetros. Enquanto isso não acontece, creio que as pequenas intervenções, se bem planejadas, surtam efeitos bastante positivos. Acreditamos que a vocação desses 4,8 quilômetros seja comercial, imaginamos esse trecho como um grande shopping a céu aberto, de comércio e de serviços. Daí a importância de pensarmos no futuro agora.

Pensando o futuro de Itaipava por Paulo Roberto Cardoso*
    “Itaipava firmou-se ao longo dos anos como centro de excelência gastronômica, lugar de belas e aconchegantes pousadas, além de ser, tradicionalmente, local preferido de veraneio dos cariocas. O esforço que os empresários locais vêm desenvolvendo para manter as citadas características é digno de nota. No entanto, em contraste com tal esforço vemos o crescimento rápido e indiscriminado, nos morros e às margens dos rios, de inúmeras favelas. Pensando nos problemas dos próprios favelados e dos empresários que investem na região e no futuro de Itaipava, surgiu-me uma sugestão para resolver o problema da favelização. A Prefeitura deverá : 1 - efetuar o cadastramento de todos os moradores e de todas as casas existentes nas encostas dos morros e às margens dos rios; 2 - efetuar um levantamento físico de todas as casas cadastradas para se saber a área de cada uma; 3 - notificar todos os moradores de que a partir de uma determinada data nenhuma construção nova será permitida e será derrubada se for iniciada; e nenhuma ampliação, seja horizontal ou vertical, será admitida, também sendo demolida se iniciada. Tais medidas são fundamentais para se conhecer o universo com que se vai trabalhar e para conscientizar os moradores das intervenções a serem feitas, mas não se deve parar por aí. É necessário dar dignidade e melhor qualidade de vida para essas pessoas. Para isso, sugere-se: 1 - construir blocos de casas isolados uns dos outros, compostos de térreo e mais dois pavimentos, com quatro residências por andar; 2 - construir posto de atendimento médico-dentário, creche, escola, área de lazer e de esportes; criar uma horta comunitária, pois sobrará espaço para tal; 3 - construir acesso decente com ruas, calçadas e escadas ; 4 - construir estação de coleta de esgoto (Cia.Águas do Imperador); 5 - acabar com a utilização indevida dos mananciais e levar água tratada da Cia.Águas do Imperador; 6 - reflorestar as áreas que ficarão livres, sobretudo as cabeceiras das minas de água; 7 - levar a rede de energia elétrica (AMPLA), o que evitará os “gatos” existentes. Quais as vantagens dessa proposta ? 1- a população dita de baixa renda passaria a morar dignamente e teria o título de propriedade do imóvel; 2 - a Prefeitura poderá lançar o IPTU; 3 - o meio ambiente seria rapidamente melhorado; 4 - acabaria a ocupação desordenada dos morros e dos rios; 5 - facilitaria a coleta do lixo; 6 - dificultaria enormemente a ação e o esconderijo dos bandidos; 7 - seria utilizada a mão de obra do próprio local para as construções dos blocos. Na falta de um terreno em que se possa construir os tais blocos, a construção poderá ser feita no próprio morro. Aqueles que moram às margens dos rios seriam levados para morar nos blocos. Não se pode esquecer que uma das grandes causas das enchentes está exatamente no desmatamento dos morros e da mata ciliar à beira dos rios, além de tudo que é jogado nos rios, especialmente por aqueles que habitam em suas margens. E todos os anos Itaipava sofre com as enchentes dado o crescente assoreamento dos rios. Pouco adiantará dragar os rios se a causa de seu assoreamento não for combatida. Confiamos que tais medidas encontrarão eco naqueles que hoje moram de forma sub-humana e contribuirão para o desenvolvimento de todas as atividades, especialmente as ligadas ao turismo. E o turista terá grande prazer em visitar e passar alguns dias em Itaipava.
    *Paulo Cardoso é economista, foi sub-secretário de Transportes do Estado do Rio de Janeiro na gestão de Marcelo Alencar e é proprietário do Condomínio e Pousada Recanto do Lago, em Areal


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