Especialista no restauro de peças em cristal, porcelana e mármore, Marcelo Cerceau acredita que o reconhecimento da profissão no Brasil vai colaborar bastante para o alcance de um padrão de excelência no exercício desta complexa atividade





Carlo Pagani, italiano radicado no Brasil há mais de 20 anos, aplica seus conhecimentos em química para restaurar peças de madeira em seu ateliê, em Secretário, e lecionar para os alunos do curso de Graduação Tecnológica em restauração de bens culturais, da Faculdade Estácio de Sá, no Rio









Dulce Maia: “Tudo que se agrega a um quadro ou a qualquer obra deve poder ser retirado a qualquer momento para que tenhamos a noção de como ela era originalmente. Esta é a lei número um da restauração”








O trabalho de restauração exige, em primeiro lugar, uma análise profunda da obra para que seus elementos originais possam ser preservados; o ideal é que se obtenha o máximo de efeito com o mínimo possível de intervenções


Fotos: Henrique Magro


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Restauração

    A arte de conservar e recuperar bens culturais

    Ao contrário do que supõe a nossa vã filosofia, e mesmo em oposição à substanciosa sabedoria contida nos dicionários, existem colossais diferenças entre os termos restaurar e consertar. Embora dois de nossos mais conceituados lexicógrafos, Aurélio e Houaiss, ofereçam relação de sinonímia entre os dois vocábulos, os esforços empregados em uma restauração estão tão distantes quanto o céu da terra daqueles aplicados no conserto de uma peça.
    “A restauração consiste na preservação da originalidade, com a conservação do bem restaurado em sua integridade com relação à forma, cor, pigmentos e texturas originais”. A explicação é do mineiro radicado em Itaipava, Marcelo Cerceau, conservador restaurador especializado em cristais, mármores e porcelanas. Com esta descrição objetiva, o trabalho de restauro pode até parecer simples; mas não é, nem um pouco.
    Para se chegar o mais próximo possível das características originais de uma obra - seja ela um objeto de arte, uma peça decorativa, um móvel ou mesmo prédios inteiros – que sofreu deteriorações pela ação do tempo ou danos causados por qualquer outro agente externo são necessárias várias e detalhadas etapas. “O processo deve ser, impreterivelmente, iniciado por um estudo minucioso da peça, respeitando-se a época de sua concepção. A partir daí, antes de começar a intervenção, temos pela frente uma busca incessante por materiais adequados”, complementa o especialista.
    A tarefa de conservação ou recuperação de uma obra exige ainda a atenção ao conjunto das condições do ambiente em que ela esteve instalada ou guardada, além do conhecimento acerca de suas características específicas. De acordo com Carlo Pagani - especialista na restauração de móveis e peças em madeira que veio da cidade italiana de Milão para o Brasil há 24 anos e montou seu ateliê no distrito petropolitano de Secretário – estas são observações fundamentais.
    “Todas estas condições – se a obra estava em um museu ou em uma residência; se esteve exposta à luz do sol e a determinados níveis de temperatura ou umidade etc - são extremamente relevantes para que se possa realizar um bom trabalho. Mas a primeira medida que tomamos ao receber uma peça é fazer uma análise filológica, ou seja, tentamos reunir o máximo de informações, através de documentos e referências bibliográficas, para descobrir, se possível, quem é o autor, em que época a obra foi criada e ainda se já sofreu outras intervenções ao longo dos anos. Estes são aspectos que irão influir diretamente no resultado final”, esclarece.
    É a partir da profunda análise do objeto que se pode detectar a realização de intervenções anteriores e descobrir, por exemplo, se todos os elementos que o compõem são originais ou se ao longo do tempo foram realizadas substituições. Segundo a restauradora Dulce Maia - que mantém no distrito de Nogueira um ateliê especializado no restauro de pinturas sobre tela e outras superfícies, além de obras em papel -, o ideal em toda restauração é que se obtenha o máximo de efeito com o mínimo possível de intervenções.
    “Para isso, é necessário saber escolher o tipo de técnica e materiais que devemos aplicar. Outro aspecto fundamental é a reversibilidade. Tudo que se agrega a um quadro ou a qualquer obra deve poder ser retirado a qualquer momento para que tenhamos a noção de como ela era originalmente e também porque sempre existe a possibilidade de surgimento de produtos melhores e mais indicados para determinados casos. Esta é a lei número um da restauração”, diz.
    Um bom exemplo da importância da utilização da técnica da reversibilidade é o aparecimento dos adesivos industriais à base de cianoacrilato, desenvolvidos na Alemanha em meados da década de 40. O produto é hoje considerado ideal para o restauro de materiais como o cristal e a porcelana. “Este é um adesivo que, graças à sua baixa viscosidade, age através da penetração capilar, o que permite que as partes fragmentadas sejam unidas com perfeição, sem o risco de que fiquem coladas de forma inexata. Suas vantagens em relação aos outros produtos é a maior capacidade de adesão e o nível bastante reduzido de emissão de blumen (vapores desta substância), que costuma ocorrer nas porcentagens específicas para o trabalho realizado em cristais”, fundamenta Marcelo Cerceau.
    O trabalho destes profissionais requer não só uma grande precisão e conhecimentos em diversas áreas, mas, sobretudo, muita responsabilidade. Por este motivo, para cada peça é montada uma ficha técnica. Neste documento são reunidas fotos que demonstram o estado em que ela se encontrava quando chegou às mãos do restaurador, um laudo técnico com a descrição detalhada de seu estado de conservação, o tipo de intervenção que será realizada e, simultaneamente ao restauro propriamente dito, um relatório diário das ações a que está sendo submetida.
    “Através destas fichas podemos formar fontes de consulta muito úteis para o caso de recebermos outras obras da mesma época ou do mesmo artista para restaurar. O relatório diário é uma medida de segurança para que consigamos manter um controle de qualidade sobre o que estamos fazendo. Como costumamos trabalhar em diversas peças ao mesmo tempo, fica difícil lembrar com exatidão em que estágio do processo cada uma delas se encontra”, esclarece a restauradora. Não é para menos. O processo de restauração de um quadro não passa apenas pela devolução de traços e cores à obra, mas engloba também operações delicadas para a recuperação de chassis e tramas de tecido das telas.
    Quanto aos requisitos técnicos necessários para a realização deste delicado trabalho, a arte de restaurar exige, acima de tudo, um conhecimento multidisciplinar que deve abranger áreas de interesse tão distintas quanto a história (inclusive da arte) e a química. “Costumo dizer aos meus alunos que o restaurador deve ser um pouco físico, químico, arquiteto, desenhista e também fotógrafo, porque deve saber fotografar as peças adequa damente, e ainda um artesão, pois tem de saber usar plainas, formões e outras ferramentas. Ou seja: ele não pode privilegiar apenas um, mas todos os aspectos que envolvem a peça”, ressalta Carlo Pagani, que foi professor de química na Itália e hoje, além de se dedicar à restauração, leciona na faculdade Estácio de Sá, no Rio de Janeiro, para os alunos do Curso Superior de Graduação Tecnológica em Restauração de Bens Culturais como titular da cadeira Restauro de madeira e móveis.
    Conhecimentos em química, especialmente, são fundamentais, uma vez que toda restauração exige a aplicação de diversos produtos em suas diferentes etapas, inclusive na limpeza, definida por Dulce e pelo professor Pagani como “uma das fases mais críticas do trabalho”. “Nos quadros, além da retirada mecânica de poeira e outras impurezas, é realizada uma bateria de testes com produtos químicos para a identificação da substância capaz de remover fungos ou outros agentes causadores da deterioração da pintura sem o perigo de manchá-la”, exemplifica a especialista.
    O professor acrescenta que a operação é extremamente delicada e complicada porque há sempre o risco de interferência naquilo que primitivamente foi inserido na obra por seu criador. “Quando se retira um verniz ou uma laca de um móvel, mesmo que você tenha condições de recolocar este material, este nunca será um trabalho realizado pela mão do artista e sim pela sua – o que já configura uma adulteração”, afirma.
    Apesar do ofício exigir um alto nível de especialização e o aprimoramento constante de quem o exerce, no Brasil, como também ocorre em vários outros países, a profissão ainda não é oficialmente reconhecida. “Com o surgimento, em 2006, de um curso regular de restauração e conservação em nível superior e o encaminhamento ao Congresso Nacional de projeto de reconhecimento da nossa profissão, esperamos dar fim a uma situação de desconforto para todos aqueles que se dedicam a esta atividade com seriedade e responsabilidade. Nossa meta  é conseguir um padrão de excelência no exercício de nossa complexa, dedicada e quase desconhecida profissão”, almeja Marcelo Cerceau, que, com os colegas Dulce Maia, Carlo Pagani e outros, integra a Cooperativa de Restauradores da Serra (COORES), fundada aqui em 2004.

Contatos:
Dulce Maia (24) 2221-2486
Marcelo Cerceau (24) 2222-0700/(24) 2222-0299
Carlo Pagani (24) 2223-1646

























































































































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