As tinas galvanizadas do Armarinho Itaipava - fundado há 28 anos por Seu Vininho (esq.) e hoje administrado por seu genro Uelton - são sucesso de público e de crítica e conquistaram o mundo fashion através das vitrines da Richard’s



A Casa Flora comercializa uma grande variedade de utensílios domésticos e peças de decoração, além de secos e molhados



Detalhes da Selaria Flora, que oferece todos os equipamentos necessários para a montaria




A família Flora: Maria Inês, João Ildeu, Maria da Conceição e Zeca


Fotos: Henrique Magro

Especial

Negócios de família



    Em tempos de comércio online, tradição das lojas do interior resiste na Serra.

    Encontrar os mais diversos tipos de produtos em Itaipava e arredores hoje já não é tarefa das mais complicadas nem das mais aborrecidas, já que uma tarde livre para compras nestas paragens pode ser bastante compensadora. Mas, ter à disposição em um único lugar centenas de tipos de artigos - de utilidades domésticas a acessórios de informática; de alimentos a equipamentos completos para montaria - não tem preço. Ainda mais se o estabelecimento em questão oferecer aos clientes um atendimento personalizado - com direito a não dois, mas a vários dedos de prosa – e mimos especiais como possibilidades de encomenda de peças sob medida e degustação de uma legítima caninha mineira.


    Por aqui, duas lojas somam a estes atributos um delicioso clima de empório e a tradição familiar - características fundamentais nesta época tão impessoal, marcada por compras pela Internet, turismo espacial e que tais.
    O Armarinho Itaipava, inaugurado no número 11. 985 da Estrada União e Indústria, há 28 anos, pelo “seu Vininho” (Elvino Souza na certidão de nascimento), e atualmente gerenciado por seu genro Uelton de Jesus Froes, é uma dessas casas em que se pode achar de tudo. De tudo mesmo. Ali, além dos aviamentos que sugerem o nome do estabelecimento, podem ser adquiridos, entre muitos outros diferentes itens vindos de vários estados do Brasil, capachos, peneiras de taquara, luminárias, equipamentos para cozinha (inclusive industriais), baterias e pulseiras para relógios, discos virgens de DVD etc.
    Utensílios importados também. Cafeteiras italianas de alumínio convivem harmonicamente com reproduções modernas de peças antigas. Neste rol se destacam latões de leite como os usados antigamente nas fazendas, prosaicos penicos esmaltados e inusitados chuveiros adaptados a baldes (cujo modelo original pode ser visto no banheiro da casa de Santos Dumont, em Petrópolis), que podem compor a decoração de forma divertida e original.
    É na categoria decoração, justamente, que, segundo o gerente, está “o forte do negócio”. O Armarinho Itaipava comercializa uma linha exclusiva de tinas galvanizadas para diferentes utilizações (revisteiros, porta-lenha, baldes para bebidas e outros) que até já ultrapassou as fronteiras desta bucólica região para alçar vôo no cenário fashion nacional. Foi dali que a Richard´s – uma das mais conceituadas marcas de moda masculina do país - levou mais de cem destas peças para expor sua coleção de sandálias no último verão.
    E é onde também o cliente pode encomendar as peças galvanizadas em seu estado natural ou com decupagens coloridas feitas em diversas padronagens pelo próprio Uelton. Além de administrar a loja e realizar este trabalho artesanal, ele também é responsável pela idealização de alguns dos produtos à venda – caso da forma de pizza especial para uso em forno à lenha. Produzida em alumínio e tela, ela permite uma distribuição uniforme do calor durante a cocção para que a massa seja assada por igual.
    Antes de apresentar as características que reúne atualmente, o Armarinho passou por algumas modificações em seu perfil. Pelos cálculos de seu Vininho, a loja onde está instalado já existe há cerca de 70 anos e o primeiro negócio a funcionar ali, com o nome Barateira dos Tecidos, foi aberto por uma senhora conhecida como “turca” e era dedicado à comercialização deste tipo de mercadoria. Quando passou às mãos de seu Vininho teve seu leque de produtos ampliado com a introdução dos aviamentos, roupas e calçados e ainda artigos de cama, mesa e banho.
    Mas o estilo atual, entretanto, só começou a ser delineado a partir da chegada de Uelton à família, vindo de Montes Claros (MG). Em 1995, ele assumiu a administração da loja e, ao perceber as dificuldades enfrentadas pelo sogro em face aos novos tempos, começou a investir em outros segmentos. “No passado, este foi um grande negócio porque não havia lojas aqui; mas, com o desenvolvimento de Itaipava, ficou inviável manter este tipo de empreendimento. Então, fui eliminando aqueles produtos e introduzindo novas idéias. As coisas vão mudando e o comércio tem de acompanhar as necessidades da população local e dos visitantes”, considera o gerente.
    A disposição para seguir novas tendências e evoluir no passo que exige o progresso só não é demonstrada por ele quando se trata de modificações na essência do Armarinho. “Se as necessidades começarem a mudar, a loja vai mudar de produtos; mas nunca abandonar esta tradição de comércio do interior, este nosso jeito simples de tocar o negócio”, frisa.
    Outro endereço certo para quem procura grande variedade de mercadorias, atendimento atencioso e, sobretudo, tradição é a Travessa dos Expedicionários, nº 20, no Distrito de Pedro do Rio, onde funciona a Casa Flora.
    Este estabelecimento foi fundado em 1919, na cidade de Pequeri, Minas Gerais, por Salvador Flora, primeiro prefeito do município. Em 1942, quando se mudou para Petrópolis, o político e comerciante abriu na serra a versão fluminense da casa, iniciando as atividades com o foco voltado para o comércio de alimentos, no mais autêntico estilo “secos & molhados”.
    Embora estes produtos ainda sejam comercializados – é possível comprar ali arroz, feijão, fubá, lingüiça, carne seca e outros gêneros alimentícios, além de material de limpeza –, eles deixaram de ser o principal ramo do negócio. Os bens amealhados por João Ildeu Flora, filho de Salvador, durante a época em que integrou o exército como sargento da guarda do então presidente Getúlio Vargas, permitiram novos investimentos na loja. A partir deste momento, nos idos de 1950, a Casa Flora começou a oferecer para sua clientela materiais elétricos e hidráulicos, insumos agrícolas, medicamentos veterinários e outras utilidades para sítios e fazendas, além de peças avulsas para bicicletas. “Naquela ocasião, comprar todos os componentes separadamente para montar o próprio veículo com as características desejadas fazia parte do cotidiano dos clientes e era uma prática que proporcionava economia”, explica João José Ferreira Flora, mais conhecido como o Zeca Flora, um dos membros da terceira geração da família a ter participação ativa na empresa. Foi ele que deu início à atual fase, que inclui os equipamentos de montaria e mais uma série infinita de coisas: objetos de decoração, peças artesanais, materiais de construção, alimentos para todas as espécies de animais domésticos, ferramentas, imagens religiosas, utensílios de cozinha etc.
    O investimento em equipamentos e acessórios para a prática de hipismo, e cavalgadas de um modo geral, foi tão bem sucedido que o lugar acabou ficando pequeno e, em 2003, Zeca montou um espaço independente para a comercialização destes produtos nos fundos da loja: a Selaria Flora. Mas não são apenas os amantes do esporte que podem satisfazer seus desejos consumistas ali. Na selaria – entre todos os tipos de cabeçadas (incluindo uma bela peça produzida no Ceará com couro de bode, material bem incomum por aqui), rédeas, freios, bridões, mantas e, naturalmente, selas – encontram-se também botinas e sapatos confeccionados em couro e camurça, chapéus, artigos de pet shop e cachaças mineiras.
    Seguindo a máxima que preconiza “tudo para agradar ao cliente”, que só mesmo neste tipo de comércio é praticada à risca e com freqüência, o comerciante mantém na loja uma garrafa da bebida (com um rótulo desenvolvido exclusivamente para a casa) para degustação. Café, biscoitinhos e água mineral também são oferecidos aos clientes.
    Hoje, além de seu João e do primogênito Zeca, trabalham nas duas lojas a dona Maria da Conceição, os outros dois filhos do casal, Bruno Marcos e Maria Inês, e ainda o neto João Victor. O clã Flora faz coro com a família de seu Vininho do Armarinho quando o assunto é manter a tradição do comércio interiorano. “Depois de todo este tempo, não mudamos quase nada no ambiente; ele tem a mesma aparência da época da inauguração. Também fazemos questão de chamar os clientes pelo nome. Aqui eles não são números, são amigos”, enfatiza Zeca.


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