A fachada assimétrica que conferiu à construção a alcunha de "casa dos sete erros"







Um dos salões e escadaria em peroba: materiais nobre e afresco do austríaco Carl Schaeffer

Sala de música, com piso em jacarandá, onde acontecem os shows para público reduzido

Detalhe da lareira em mármore de Carrara


Fotos: Henrique Magro

Especial

Uma pérola da história



    Casa da Ipiranga é o mais novo (e mais charmoso) centro cultural de Petrópolis.

    A Inglaterra vitoriana, influenciada pelos avanços tecnológicos da Revolução Industrial e pela colonização da África, vivenciou um período de conquistas materiais e grande misticismo. Junte-se a esses fatores um rico financista brasileiro, herdeiro de um cafeicultor português, que passou parte de sua vida naquele país e, em retorno ao Brasil em 1879, construiu o palacete de seus sonhos na cidade de veraneio do imperador Pedro II e da corte. Resultado: a Casa da Ipiranga, construção de 122 anos praticamente intocada, palco de pocket-shows, peças teatrais e exposições, proporciona hoje ao público visitante uma experiência inesquecível.


    Assimetria na fachada do projeto arquitetônico em estilo vitoriano; afrescos de paisagens emblemáticas de países da África, Ásia e Europa, em que figuram também referências familiares; materiais nobres na composição dos cômodos; projeto paisagístico do francês Auguste Glaziou. Com essa receita, o financista José Tavares Guerra construiu em Petrópolis um palacete que resistiu ao tempo e às dificuldades para se conservar um patrimônio histórico no Brasil. Graças ao cuidado de seus herdeiros, mantém-se erguida hoje, majestosa, como em 1884, data de sua inauguração.
    “José Tavares Guerra coordenou a construção desta casa e nela imprimiu sua alma, amante da arte e da arquitetura. Daí podermos hoje apreciar os 300 afrescos do austríaco Carl Schaeffer, em que figuram paisagens dos países visitados pelo financista e representações de seus cinco filhos, a sofisticada arquitetura de interior, além de símbolos místicos, típicos da Inglaterra vitoriana em que viveu ao cursar Finanças”, conta o músico Celso Vieira de Carvalho, bisneto de Tavares Guerra e diretor cultural da Ong Museu A Céu Aberto, arrendatária da propriedade, tombada pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN).
    Centrada em terreno de 15.900 m², com três nascentes de águas magnesianas e ferruginosas, repleto de espécies da mata atlântica, a mansão de 900 m² conta com 11 quartos, cinco salas, dois banheiros, sala de banhos, cozinha e capela, em estilo neogótico. O jardim, 85% em estado original, conforme projetado por Glaziou, paisagista do Império, apresenta espécies nativas e sistema natural de escoamento das águas pluviais, que são vertidas para o lago defronte ao palacete, compondo uma paisagem pictórica.
    No interior da construção, a imponência e a sobriedade dos cômodos são contrastadas por afrescos de paisagens – tema inaugurado no século 19 –, anjos, crianças, ninfas e elementos do universo, simbolizando uma preocupação com o estudo da astrologia, da mitologia e do espiritualismo.
    “Meu bisavô foi muito influenciado pelo misticismo da Inglaterra vitoriana e também pela arquitetura desse período. Daí as pinturas murais de Schaeffer fazerem referência a esses estudos e a fachada do palacete ser assimétrica, diferenciando-se do estilo neoclássico, que predomina nos palacetes de século 19, em Petrópolis”, explica Celso. Justamente por essas referências a casa ficou conhecida como “mal-assombrada” e “casa dos sete erros”, alcunhas divertidas que alimentam ainda mais o imaginário místico da mansão. A propriedade ainda preserva o primeiro relógio de torre de Petrópolis (na fachada da cocheira, onde hoje funciona um charmoso bistrô, aberto ao público diariamente) e requintes arquitetônicos, como sala de banho com água aquecida e cômodos revestidos com materiais nobres como jacarandá, mármore de Carrara, cristais belgas, azulejos ingleses e tecidos de parede franceses. Na construção, que demandou cinco anos e foi coordenada por Carlos Spangemberg, escultor das famosas bengalas de madeira que Pedro II comprava para presentear os amigos, não se utilizou mão-de-obra escrava.
    “Fogões à lenha aqueciam a água, que circulava por uma serpentina de cobre até chegar à banheira. Para a construção foram contratados operários alemães e italianos e para o serviço doméstico, Tavares Guerra chegou a ter cozinheiros chineses, trazidos de uma de suas viagens ao Oriente”, acrescenta Celso.
    Hoje, a Casa da Ipiranga, mesmo incrivelmente bem conservada pelo esforço da família, urge por verbas para ser restaurada. Com telhado seriamente danificado pela infestação de cupins, a construção e toda a riqueza de seu interior correm risco de deteriorar pela ação do tempo. Por falta de recursos, é de lastimar os danos às paredes da pequena capela, no sótão da casa, uma pérola em estilo neogótico, infelizmente fechada ao público.
    “De 1999 a 2002, abrimos a casa ao público, graças a patrocínios do Ministério da Cultura e da Prefeitura de Petrópolis. Mas com o fim das verbas, tivemos que fechá-la. A parceria com a Ong Museu a Céu Aberto e o aluguel da cocheira para o bistrô Bordeaux proporcionaram a reabertura, em julho deste ano. Agora tentamos angariar verba para a reforma do telhado de 400 m², o que esperamos conseguir do governo federal”, explica o músico, que fez da restauração do palacete o projeto de sua vida e ao qual se dedica com abnegação, amor e muito otimismo.
    O novo desafio de Celso, agora, é captar recursos para a reforma de toda a propriedade e também do jardim de 124 anos, único de Glaziou em estado praticamente original. “Deveria ser obrigatório o Estado ajudar, afinal a casa não é mais da minha família, mas sim um bem cultural de todos os brasileiros”, enfatiza. Estima-se que a restauração completa, se feita, demandaria R$ 6 milhões, aproximadamente. Se comparada ao valor histórico e cultural do bem, relíquia do patrimônio nacional, a quantia fica em segundo plano.


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