Fotos: Henrique Magro

Lar, doce lar

Cacarecos... nem tanto

    Sucesso de público, a Feira de Cacarecos, em Itaipava, valoriza o comércio de objetos usados.

    A idéia de tornar útil o obsoleto ou de fazer novo uso do que está destinado ao lixo torna a Feira de Cacarecos mais que modismo, uma prática social relevante. Inaugurada em fevereiro último, está em vias de constar no calendário oficial de eventos culturais e turísticos de Petrópolis. Estímulo à reflexão sobre o excesso de consumo em nossa sociedade, atividade que ressalta a importância da reciclagem, ou, ainda, reservatório de peças que já marcaram época, a feira é, acima de tudo, um evento de utilidade pública.

    Porto Bello Road, Londres; Marche auxs Puces, Paris; Feira de Santelmo, Argentina. Pontos turísticos consagrados em suas cidades, esses mercados das pulgas ou brechós representam práticas em uso há décadas no exterior: compra e venda de peças usadas, como móveis, eletrodomésticos, objetos decorativos, louças, talheres, copos, roupas, brinquedos, quadros, enfim, todo tipo de caraminguá que normalmente estaria destinado ao lixo, mas que se torna útil para quem o adquire.
    “A Feira de Cacarecos não é uma feira de antiguidades. Os antiquários trabalham com peças catalogadas, classificadas como raras ou como características de uma época. A Feira de Cacarecos segue o modelo das feiras da Europa, ou do Garage Sale norte-americano, em que se vende o que se tem em casa e não se quer mais, por um lado, e, de outro, compram-se objetos usados por preços muito baixos”, explica a idealizadora do evento, a arquiteta Beth Kozlowski.
    Proprietária do Galo Vermelho, loja especializada na venda de móveis manufaturados com materiais de demolição, Beth percebeu a demanda por um espaço de comercialização de peças usadas que não se enquadravam no perfil da loja. “Criamos, em fevereiro, uma ‘central’ de compra e venda com grande rotatividade de objetos, aberta a novidades e à necessidade do público consumidor”, acrescenta Beth.
    A partir daí, a adesão do público foi tanta que a feira foi reeditada em julho e, atualmente, funciona nos finais de semana. Agora, a idéia é buscar apoio da Prefeitura para que seja incluída no calendário de eventos da cidade, em vista do volume de visitantes que atrai, incluindo arquitetos e decoradores ávidos por objetos diferenciados. De acordo com Beth Kozlowski, a proposta “ideológica” da feira é estimular a cultura da reciclagem de objetos, imprescindível para uma era de consumo excessivo.
    Se a cultura da reciclagem ressalta a pertinência da Feira de Cacarecos, questões como valorização de mão-de-obra especializada em restauração, geração de renda e solidariedade figuram como características não menos importantes.
    “Em Petrópolis, dispomos de excelentes restauradores de madeira e de ferro, em virtude da imigração alemã e italiana, tradição que a demanda da feira ajuda a não se perder. Além disso, os expositores do evento recebem doações de objetos cuja venda, a pedido de seus donos, é revertida para instituições de caridade, como a Cruzada do Menor”, ressalta a arquiteta. E ela dá uma dica ao visitante: olho aberto e espírito de garimpeiro, pois quando menos se imagina ali se encontra uma peça que só estava à espera de um trato para ganhar destaque na sala, ou mesmo objetos tão úteis como cinzeiros, jogos de chá e café, ou baldes de gelo de excelente qualidade e em perfeito estado de conservação.

    Uma central de compra e venda de objetos, muitos deles inusitados. Pode ser um jogo de 700 potinhos de creme idênticos, uma coleção de cartazes da Jovem Guarda, um macacão antigo de aviador, ou mesmo peças de prata, como baixelas e faqueiros. Isso resume a Feira de Cacarecos, um espaço em que se reúnem cerca de 15 expositores que se renovam, pois ali não há pontos garantidos para um ou outro comerciante. “Nosso objetivo é oferecer variedade ao público”, argumenta Beth Kozlowski, justificando a afirmação com um caso peculiar, ilustrativo da missão do evento: “Uma cliente veio até nós interessada em se desfazer de 40 panelas amassadas. Chegamos a pensar em não aceitar, pois achamos que não haveria compradores. Mas não é que um artista plástico levou todo o lote para utilizar em uma obra?”.

Feira de Cacarecos • Aberta aos sábados e domingos, das 9h às 19h • Pátio do antiquário Garage Salles – Estrada União e Indústria, 14.999 – Itaipava • (24) 2222-0374 / (24) 2222-5090 • cacarecos@galovermelho.com.br














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