Fotos: Henrique Magro


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Um brinde a Napoleão

    Sim, porque, indiretamente, foi o imperador francês o responsável pelo costume que hoje cultivamos de saborear uma cerveja bem geladinha para comemorar datas especiais, regar as conversas jogadas fora com os amigos nos bares da vida ou, simplesmente, espantar o calor. Explico melhor: foi graças à decretação do bloqueio continental, imposto por Napoleão Bonaparte para fazer frente à Inglaterra em questões comerciais, que a corte portuguesa resolveu se transferir para o Brasil. Na bagagem real - além de obras de arte, jóias da coroa, todo o dinheiro do erário português, mais de 60 mil livros da Biblioteca Real e outros pertences –, todo o tipo de víveres, inclusive barris de cerveja – bebida que até “antanho” não se consumia nestas terras tropicais.

    O resumo da ópera é mais ou menos assim: nos primeiros anos do século XIX a França dominava grande parte da Europa e o único obstáculo para a consolidação do Império Napoleônico era a Inglaterra - país favorecido pela localização insular, poderio econômico e supremacia naval. Para tentar subjugar esta nação com o enfraquecimento de sua economia, Bonaparte decretou o fechamento dos portos de todos os países europeus ao comércio inglês. O governo de Portugal, que relutava em aderir ao bloqueio devido à aliança com a Inglaterra e não intentava um enfrentamento direto com a então superpotência, adotou uma alternativa mais segura para os membros da corte: mudou-se de mala e cuia para sua principal colônia - o Brasil.
     Hoje, passados muitos conflitos, levantes, declaração da independência, alternância de regimes políticos e profundas transformações sociais, comemoramos com alegria os 200 anos da cerveja no Brasil. Mas a bebida não é assim tão jovenzinha. Registros históricos dão conta de que os sumérios, em 2600 a.C., já a fabricavam e reverenciavam. Arqueólogos encontraram registros desta época com a mais antiga notícia que se tem da cerveja: uma placa de barro com o hino a Ninkasi, a deusa da fermentação, com referências inequívocas aos processos fundamentais a sua produção.
     Da Babilônia, são conhecidos documentos que demonstram a existência de diferentes tipos da bebida - com diversas combinações de plantas e aromas, além do uso de mel na composição - e a mais antiga regulamentação para ela. O Código de Hammurabi, formulado pelo rei da Babilônia entre 1792 e 1750 a.C., incluía várias leis de fabricação, comercialização e consumo da cerveja, com direitos e deveres dos clientes das tabernas. A bebida era tão importante para este povo que representava até um complemento salarial. Trabalhadores em geral recebiam dois litros por dia; funcionários públicos, três; e membros do governo, cinco. Também foi esta civilização a primeira a estabelecer um sistema de controle de qualidade que previa punições para os que servissem cerveja de má qualidade.
     Na Roma antiga e em muitas outras sociedades e épocas a boa e velha cerveja também foi importante a ponto de receber regulamentos específicos para sua produção ou comercialização. Mas foi no século XVI, mais precisamente em 1516, que o mais antigo código de alimentos vigente no mundo - a Lei da Pureza (“Reinheitsgebot”), instituída pelo Duque Guilherme IV da Baviera - determinou que apenas água, malte, lúpulo e levedura poderiam ser utilizados na elaboração da bebida. O objetivo era assegurar a qualidade e salubridade da cerveja e regularizar a aplicação de taxas relativas a matérias primas.
     Existem dois tipos básicos de cerveja quanto ao processo de fermentação: as de fermentação alta (Ale) e baixa (Lager). Mas estes dois grupos se ramificam ainda em outras incontáveis classificações. As do tipo Pilsen (baixa fermentação), são as mais comumente consumidas no Brasil. “São cervejas que se adaptaram muito bem ao nosso clima porque são leves, refrescantes, com um toque de amargor e baixo teor alcoólico”, diz Leonardo Pelogia, proprietário do Vagão Beer & Food, casa especializada na bebida, com filiais em Teresópolis e Itaipava, no Shopping Estação.
     Ali, é possível experimentar mais de 200 diferentes rótulos dos cinco continentes, inclusive a belga Deus, cuja garrafa de 750 ml alcança a cifra de R$ 220,00, e as do tipo Trapista, produzidas unicamente por monges na Bélgica e na Holanda. Na carta, além das marcas de três cervejarias nacionais, constam ainda produtos oriundos de diversos países europeus, dos Estados Unidos, Canadá, Japão, China, América Latina e até vindos de lugares exóticos como Singapura e Cazaquistão, entre muitos outros. “Hoje, além das belgas Duvel, Tripel Karmeliete, Chimay e Hoegarden, podemos incluir entre as melhores cervejas do mundo as Pilsener Urquell e Staropramen, fabricadas na cidade de Pilsen, na República Tcheca”, considera o especialista, que costuma organizar almoços ou jantares harmonizados e degustações nas duas casas.
     Nas degustações, explica o empresário, deve-se iniciar a seqüência pelas cervejas com graduação alcoólica menor para que se possa distinguir e apreciar o sabor de cada uma delas, pois, assim como acontece com os vinhos, existem os tipos apropriados para acompanhar saladas, entradas frias, peixes, carnes e sobremesas. “Pode-se começar pelas da categoria Pilsen, seguidas pelas Weiss, Golden Ale e frutadas (que têm alto teor alcoólico e sabor marcante) até e finalização com as clássicas, como a belga Gulden Draak”, sugere.
     O Vagão oferece frutadas à base de cereja, framboesa e laranja e aromatizadas com, por exemplo, queijo (Achel Trappist - Bélgica) e chocolate (Brunete - Brasil). Para os mais puristas, cerca de 120 diferentes copos para saborear a geladinha. Porque, embora muitos considerem um exagero, existe, sim, a necessidade de utilização de um copo adequado para cada tipo de cerveja. “A Erdinger, que é uma cerveja de trigo, deve ser consumida em um copo que tenha exatamente a mesma capacidade de volume da garafa. Isso acontece porque o fermento fica acumulado no fundo e para que ele seja misturado ao líquido é preciso esvaziar todo o conteúdo no copo”, exemplifica Leonardo.
     Mas existem também outras razões bem fundamentadas para a utilização do copo apropriado, que deve sempre ser lavado com atenção a determinados detalhes. A cerveja possui três características peculiares: é uma bebida carbonatada, que deve ser consumida a baixas temperaturas e protegida por uma coroa de espuma – o famoso “colarinho”. Para que seu brilho, aroma, paladar, cor e espuma não sejam alterados e para que não absorva odores estranhos, não esquente rapidamente e não perca o gás carbônico, o recipiente adequado é essencial. E para que estas propriedades se mantenham, é preciso ainda lavar o copo com sabão neutro e enxaguá-lo abundantemente em água corrente e bem limpa. Atualmente, a oferta de cerveja de diferentes nacionalidades no Brasil é grande. Mas os apreciadores da loura – também conhecida por cerva, birra e outros apelidos carinhosos – têm mais motivos para festejar. Estudos científicos recentes comprovam que seu consumo moderado faz bem à saúde. Entre os principais benefícios estão: redução do estresse, dos riscos de Mal de Parkinson, Diabetes e endurecimento das artérias; proteção contra males do coração e carência de ácido fólico; fortalecimento da memória e redução do colesterol.
     O desembarque da família real, e de sua preciosa bagagem, em Salvador, deu-se no dia 22 de janeiro de 1808 - 54 dias depois do embarque no porto de Lisboa. Um desvio de rota causado por uma forte tempestade levou parte da esquadra, inclusive a nau que transportava o príncipe-regente D. João VI e outros membros da monarquia, para o litoral baiano, onde a família real permaneceu por um curto período, até que em 7 de março se estabeleceu definitivamente no Rio de Janeiro. Então, tá combinado. A cada dia 22 do primeiro mês do ano, corra para o bar mais próximo e levante sua tulipa – ou, se possível, um copo apropriado para a cerveja escolhida - em homenagem a Napoleão.


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