Foto: Henrique Magro

O empreendedor Joaquim Rolla, que iniciou a vida como tropeiro, inaugurou o Hotel Cassino Quitandinha - prédio projetado no estilo normando francês, como a maioria dos cassinos europeus do período - em 1944.

Para chegar ao cassino, os visitantes atravessavam um salão ricamente decorado.

Nos palcos giratórios do teatro mecanizado Grande Otelo fez sua estréia como ator e a Miss Martha Rocha foi coroada pelo poeta Manoel Bandeira, que, na época, residia em Petrópolis.

O salão de convenções, onde funcionou o cassino, assim como todos os ambientes do Palácio Quitandinha, impressiona pela suntuosidade.

O lago de 18 mil m2, com deque e praia artificial, era uma das principais atrações do hotel.

O decreto que proibiu o jogo no país, determinando o fim do lucrativo negócio montado no Quitandinha, iniciou a derrocada do hotel, que viveu seu esplendor entre os anos de 1944 e 1946.

O Salão de Convenções abrigou grandes reuniões, como a Conferência Interamericana de Manutenção da Paz e Segurança, em 1947.

Na área externa, além das quadras de voleibol e tênis, os hóspedes tinham à disposição um rinque de patinação e uma pista de equitação.

A piscina térmica, em formato de um piano de cauda, era dotada de caldeiras que mantinham a água a uma temperatura de 30º C.

Para a decoração dos ambientes internos, Joaquim Rolla trouxe da Califórnia a designer Dorothy Draper, responsável por cenários de filmes dos estúdios de Hollywood na década de 40.

Festas monumentais, com a presença de personalidades do cenário internacional, eram realizadas na boate.




O salão de correspondência e o magnífico hall de entrada do hotel mantêm até hoje alguns dos elementos originais da época do cassino.




O estilo impresso pela decoradora americana foi também preservado no Salão D. Pedro II e no jardim de inverno.

O bar central e ...


o lobby foram registrados em fotos por "Postais Colombo" no final da década de 40.

O lobby em sua configuração atual.

A varanda e...


a impressionante gaiola - que hoje guarda apenas uma fonte em seu interior - também mereceram registros da tradicional editora que produzia cartões postais para divulgar as belezas do Brasil no exterior.

O restaurante principal do hotel nos dias de hoje.

Fotos em preto&branco: Arquivo do historiador Milton de Mendonça Teixeira

Fotos à cores: arquivo de Gilson Cony dos Santos



Capa

Quitandinha

    A doce vida holywoodiana na serra

     Houve uma época em que não era preciso ir até Los Angeles, a capital mundial do cinema, para esbarrar com as celebridades das telonas em ambientes de extremo requinte arquitetônico e luxuosa decoração. Em Petrópolis, nas décadas de 40 e 50, isso era coisa corriqueira. Pelo menos para quem tinha condições de gastar muitos cruzeiros para se hospedar e jogar no Hotel Cassino Quitandinha.
     Em seus tempos áureos, o lugar chegou a ser o cenário de grandes episódios - relacionados à política internacional, à indústria cultural e mesmo a dramas pessoais - que marcaram a cidade. Muito mais do que muitos imaginam, o Quitandinha foi palco de acontecimentos extraordinários.
     Inaugurado em 12 de fevereiro de 1944 pelo empreendedor Joaquim Rolla para ser o paraíso do jogo na América Latina, o prédio, hoje denominado Palácio Quitandinha, testemunhou fatos históricos e festas monumentais. Com a decretação da proibição do jogo no país, transformou-se em um Hotel Termas e depois em condomínio residencial. Hoje, abriga, além de moradores e veranistas nos apartamentos, uma unidade do SESC (Serviço Social do Comércio), instalada no primeiro piso, onde se concentram espaços importantes como o Teatro Mecanizado e os salões Mauá, Marconi e Roosevelt – atualmente utilizados para a realização de eventos.
     Durante os dois anos em que o cassino esteve em atividade, de 1944 a 1946, o Quitandinha viveu sua fase mais glamorosa. Era no Salão Mauá – dotado de uma magnífica cúpula, com a dimensão de trinta metros de altura e cinquenta de diâmetro (o que a coloca na posição de segunda maior do mundo) – que os panos verdes se estendiam, até que um decreto do então presidente da República, Eurico Gaspar Dutra, proibiu o jogo no país. O banho de água fria nos planos do empresário Joaquim Rolla aconteceu pelo decreto-lei 9215, de 30 de abril de 1946.
     Pior notícia impossível. Rolla – mineiro do interior que começou a vida como tropeiro e cujo espírito empreendedor o permitiu possuir vários outros cassinos (o da Urca, no Rio; o de Icaraí, em Niterói; e o da Pampulha, em Belo Horizonte), além de estâncias hidrominerais em Minas (Araxá, Poços de Caldas e Lambari) – havia colocado muito dinheiro no negócio. Alguns registros dão conta de que o investimento foi da ordem de 700 mil contos de réis; outros de que os gastos totais, do início da construção até a inauguração com toda pompa e circunstância, somaram mais de 200 milhões de cruzeiros (o padrão monetário do país foi alterado em 1942).
     Em qualquer moeda, o certo é que a quantia empregada ali não poderia ser pequena. Grande parte dos materiais usados na construção do majestoso hotel veio de diferentes partes do Brasil e do mundo para que fosse erguido o prédio de seis andares, com 440 apartamentos de tamanhos distintos e ambientes variados para as áreas comuns: 13 salões, piscina térmica, viveiro, teatro mecanizado e boate, entre eles. Os espaços destinados a serviços - cozinha, lavanderia, circulação, sala de correspondência e outros – também não deixavam a desejar a qualquer hotel de luxo da Europa ou dos EUA. Na área externa, outros elementos que demonstravam o requinte da construção: rinque de patinação, pista de equitação, jardins maravilhosos e um lago de 18 mil metros quadrados, equipado com piscina flutuante de madeira e praia artificial.
     Joaquim Rolla queria também para o interior a suntuosidade que o prédio exibia em sua fachada e exigiu para os ambientes uma concepção sem estilos definidos, fora das influências da cultura européia, preferindo as cores e ornatos utilizados nos estúdios de cinema de Hollywood. “Ele esteve nos Estados Unidos, nas terras californianas, em busca dos mágicos criadores de tanta beleza, encontrando-se com a maior profissional da área, Dorothy Draper.
     Passou seu projeto e suas idéias e ela prontificou-se a criar os cenários fixos. Ela criou os espaços para o cassino, com salões únicos, nenhum assemelhado a outro, numa simbiose de cores e ornatos tão diferentes quanto harmoniosos no conjunto da obra de beleza cinematográfica”, descreve um texto do historiador Joaquim Eloy Duarte dos Santos, elaborado a partir de reportagens publicadas pela imprensa brasileira.
     Foi neste cenário que, durante um curto período de esplendor, o hotel teve grandes personalidades brasileiras e internacionais (estas, trazidas pelo próprio Rolla como estratégia de divulgação) desfilando por suas dependências. Orlando Frederico Kloh, que trabalhou muitos anos no Quitandinha (primeiro como vendedor de cigarros no salão de jogos, depois como garçom na boate e maitre d’hotel no restaurante), se recorda de ter servido as mesas de Juscelino Kubitschek e João Goulart. Entre os artistas contratados para os shows, estiveram ali Carmen Miranda, Emilinha Borba, Marlene e outros ídolos do rádio como Orlando Silva, Carlos Galhardo, Cauby Peixoto, Mário Reis e Nelson Gonçalves.
     O elenco da Atlântida, produtora que realizou ali várias filmagens, também costumava aparecer. Oscarito, Cyl Farney, Anselmo Duarte, Dick Farney, Eliana Macedo, Adelaide Chiozzo, José Lewgoy, Ankito e Zezé Macedo estavam neste rol. Alguns artistas chegaram a fazer suas estréias profissionais no palco do teatro do Quitandinha. Foi ali, onde trabalhava como carpinteiro, que o ator Grande Otelo começou a trilhar sua trajetória de sucesso depois de ter seu pedido por uma chance de se apresentar atendido por Joaquim Rolla.
     Nomes importantes no cenário político mundial também ficaram registrados no livro de hóspedes. O presidente americano Harry S. Truman e a mais controvertida primeira dama e líder política argentina Eva Perón estão entre eles. Estrelas de Hollywood não faltavam. Além da atriz Lana Turner, que teve uma estada de dois meses na suíte presidencial, Marlene Dietrich, Errol Flyn, Bing Crosby, Henry Fonda, Orson Welles e Walt Disney, em visita ao Brasil para o lançamento do personagem Zé Carioca, foram alguns dos que experimentaram os requintes do hotel.
     Mas nem tudo era festa. Grandes perdas nas mesas de jogo levavam a atos extremos. O mais conhecido deles – e que chegou a originar a incrível lenda de que havia no porão do hotel um salão disponível para suicídios - foi o de um jogador que, em plena luz do dia foi de bote até o meio do lago e tirou a própria vida com um tiro na cabeça. “Nesta época eu trabalhava no restaurante do lago e cheguei a ouvir o tiro, disparado perto do meio-dia”, lembra Orlando Kloh.
     Cerca de um ano depois do fechamento do cassino, o Quitandinha, já com a atenção de seu proprietário voltada para atividades que pudessem compensar o fim deste lucrativo negócio, sediou um dos mais importantes encontros internacionais até então organizados no Brasil. Entre 15 de agosto e dois de setembro de 1947, aconteceu ali a Conferência Interamericana de Petrópolis – com a reunião de representantes de 21 países do continente americano. O evento teria sido ainda mais significativo por representar também a cooptação de algumas destas nações pelos EUA para uma aliança contra o comunismo.
     Veículos de comunicação, que compareceram em peso para a cobertura do grande acontecimento, noticiaram que enquanto a conferência organizada para tratar da paz e da segurança nas Américas se desenvolvia, iniciava-se - através de conversas reservadas entre o chefe de Estado americano George Marshall e o ministro da Guerra brasileiro Góis Monteiro - a gestação da Guerra Fria entre os EUA e a então União das Repúblicas Socialistas Soviéticas. O evento culminou na assinatura do Tratado de Assistência Recíproca, que permitia a “intervenção norte-americana, com a ajuda de tropas dos países signatários, onde quer que a paz e a segurança estivessem ameaçadas”. Pouco tempo depois do fim da Conferência, em outubro de 1947, o Brasil rompia relações diplomáticas com a União Soviética.
     Outra curiosidade sobre este encontro foi presenciada pelo jornalista Sylvio Carvalho, que trabalhou como recepcionista no evento. “No banquete de encerramento, especulava-se que a primeira dama argentina, Eva Perón, que compareceu como convidada à Conferência, queria fazer um discurso – o que, pelo protocolo, era permitido apenas aos chanceleres participantes. Quando percebeu, durante a sobremesa, que ela iria realmente tomar a palavra o chanceler brasileiro Raul Fernandes imediatamente adiantou-se e levantou para propor um brinde a Evita, única mulher presente entre os comensais, evitando assim o que poderia ter sido um grande constrangimento diplomático”, relata o jornalista.
     Foi neste mesmo período, ainda no ano de 1947, que o empresário Joaquim Rolla lançou um inovador projeto de Marketing, com vistas à ocupação do hotel por turistas europeus para tratamentos termais com água radioativa. Ele fez publicar uma revista (com edição única, no idioma francês) com aproximadamente 40 páginas que descrevem em detalhes todos os atrativos do hotel, além de anunciar a inauguração, em maio de 1948, da Exposição Internacional da Indústria e do Comércio, mostra em caráter permanente das técnicas e procedimentos industriais e comerciais do Brasil e de outros países do mundo.
     De acordo com material elaborado (para contribuir com pesquisas sobre a história da cidade) por Gilson Cony dos Santos, que trabalhou com Rolla na Companhia Terrenos Quitandinha, a tentativa de transformar o espaço em um centro permanente de exposições internacionais foi primeiro aplaudida e depois repudiada. O documento registra os fatos que levaram o governo a incentivar, para, logo em seguida, decretar o fechamento da exposição. “A iniciativa pioneira, de arrojado estímulo às exportações, empolgou o presidente Dutra, que facilitou as condições de sua imediata realização, com a expedição de circular que determinava a entrada no país de qualquer mercadoria destinada à Exposição livre e desembaraçada.”
     Entretanto, pressionado por conflitos de interesses, o próprio governo acabou decretando o fim do projeto. Com mais este investimento frustrado, o Quitandinha ficou sem atividades por um período de dois anos, até que, em 1949, foi arrendado pela empresa americana Eppley Hotel Termas do Brasil, que o reativou por mais um biênio, antes de passá-lo para a a Flumitur Cia Fluminense de Hotéis, que o manteve em sua função hoteleira de 1951 a 1954.
     Foi no ano de 1954 que o prédio voltou para as organizações Joaquim Rolla, que optou pela venda de 202 apartamentos, dando origem a um condomínio. Para o professor Oazinguito Ferreira da Silveira Filho - historiador pós-graduado em História do Século XX e membro do Instituto Histórico de Petrópolis -, a presença do Quitandinha em Petrópolis causou profundas transformações na cidade. “Isto determinou uma mudança violenta em Petrópolis, cidade até então de padrão operário e com a constituição de seu centro bem preservada. Depois do início da construção do hotel cassino, o Centro passa a ser eivado de construções, começam a surgir vários espigões. O que se passou a chamar de ‘ciclo modernista de Petrópolis’, na verdade não tem nada de modernismo, foi, simplesmente, uma especulação urbana exagerada. Para se ter uma idéia, o Edifício Imperador (localizado no Centro), construído na época, teve vários andares alugados por Joaquim Rolla apenas para receber os funcionários do cassino”, afirma.
     Para o bem ou para o mal, fato é que o Quitandinha, em qualquer de suas fases, sempre representou um símbolo da cidade e até hoje encanta visitantes com suas instalações majestosas e sua aura cinematográfica.

     Para a realização desta matéria, com fornecimento de dados históricos e cessão de fotos de arquivos pessoais, a Estações de Itaipava contou com a inestimável colaboração de Gilson Cony dos Santos, Orlando Frederico Kloh e do jornalista Sylvio Carvalho, além dos historiadores Oazinguito Ferreira da Silveira Filho, Joaquim Eloy Duarte dos Santos e Milton de Mendonça Teixeira.

Colaboração: jornalista Sylvio Carvalho e professores Joaquim Eloy e Oazinguito Ferreira

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