Foto: divulgação

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O palhaço Pingolé, que abandonou sua carreira de bancário para acompanhar o Circo Spacial, é um dos destaques entre os artistas da companhia.





Fotos:Henrique Magro


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Circo:

a eterna sedução de uma arte milenar

     Difícil não ceder às tentações que o mundo atual propõe, com suas inúmeras possibilidades de entretenimento instantâneo e ao alcance das mãos através do controle remoto da TV, do mouse do computador ou de um mero clique em qualquer dos muitos gadgets que a moderna tecnologia oferece. Isso tudo pode ser muito bom e bastante prático, mas nada substitui o verdadeiro encantamento de se estar diante do artista em plena atuação, em um ambiente que, por si só, já é pura magia.
     Mesmo que o circo não conserve algumas de suas tradicionais atrações - como os domadores de feras, atualmente uma prática mundialmente proibida -, ainda reserva a seu respeitável público (para parafrasear os antigos mesquatro de crimônia) grandes emoções. É sob sua lona que as luzes, a música, o brilho dos figurinos, o cheiro de pipoca e de algodão doce que paira no ar, o suspense gerado pelos números audaciosos no trapézio ou no globo da morte, a incrível destreza dos mágicos e as singelas brincadeiras dos palhaços conquistam o mais empedernido dos mortais.
     Aqui, nesta pequena parte do planeta, muitos concordam que esta é uma emoção insubstituível e costumam prestigiar os espetáculos das caravanas que de tempos em tempos chegam para alegrar crianças de todas as idades. Mas, mesmo assim, para garantir uma boa lotação nas funções em sua visita à Itaipava, durante as férias escolares de julho, o Big Brothers Cirkus, comandado pela família Lestar, teve de lançar mão de um artifício: a inclusão de um show com os Backyardigans, personagens de série animada infantil americana, produzida em computação gráfica.
     “Hoje, infelizmente, o circo tem de oferecer atrações extras para garantir a lotação; a procura pelo espetáculo convencional não é mais a mesma de tempos atrás. O que procuramos fazer para atrair o público é sempre incluir algo diferente na semana de estréia. Nas semanas seguintes, muitos acabam voltando para assistir às apresentações regulares, totalmente realizadas por nossos artistas”, conta Zuleika Motta, dublê de secretária geral e assessora de imprensa do Big Brothers.
     Não é à toa que a arte - que remonta a tempos imemoriais (há registros com quase cinco mil anos de idade de espetáculos com características circenses) – não morreu sufocada pela modernidade e não dá sinais de desaparecer. Pelo contrário, o circo se modernizou e hoje, além das atrações tradicionais e da convivência estreita com as mídias contemporâneas, muitas trupes incluem uma série de ações sociais e oficinas para a difusão das técnicas em suas turnês.

O CIRCO MODERNO E ENGAJADO
     O Big Brothers, além de apresentações beneficentes para comunidades carentes, oferece para crianças e jovens das cidades que visita oficinas gratuitas e um serviço odontológico, prestado em um consultório móvel. Mas como, nem mesmo no circo, a vida é só felicidade, algumas cidades visitadas acabam sem receber estes benefícios. “Em alguns lugares, por conta da gigantesca burocracia e das taxas impostas pelas prefeituras, não conseguimos disponibilizar todos esses serviços”, lamenta Zuleika.
     No picadeiro a história é bem diferente, ali só há espaço para a alegria. Grandes companhias que hoje atuam no Brasil, como o Big Brothers, da família Lestar, e o Spacial, da família Querubim, ambos sediados em São Paulo, fazem a festa do público não só com seus artistas – trapezistas, malabaristas, contorcionistas, equilibristas, mágicos, palhaços e tantos outros -, mas também com modernos sistemas de iluminação, sonorização e efeitos especiais. Tudo para criar uma aura mágica e transportar os espectadores, mesmo que apenas por poucas horas, para um mundo mais leve e bonito.
     No Circo Spacial - fundado em 1985 pela profissional de marketing Marlene Olímpia Querubim e que conta hoje com integrantes de mais de 35 famílias – a música, a dança e o teatro fazem parte do show, mas a legítima arte circense ocupa um lugar privilegiado. O palhaço Pingolé, bancário que abandonou sua carreira para acompanhar a companhia, é um dos destaques do espetáculo, com seus esquetes, pantomimas, piadas e trocadilhos.
     Uma das características que renderam ao Spacial o título de “circo do futuro” é o investimento que a companhia realiza em ações totalmente distintas dos espetáculos. A lona que abriga as apresentações dos artistas é também utilizada para treinamentos corporativos, lançamentos de produtos, exposições e eventos de diferentes naturezas, inclusive políticos, como a sessão solene da Câmara de Vereadores de São Paulo que foi realizada ali em 2007. A preocupação com a ecologia também contribuiu para o título, o Spacial adota um sistema de gestão ambiental em sua organização.
     O circo atual conquistou definitivamente características da modernidade e, com ele, convive ainda uma outra vertente. O movimento que se convencionou chamar de “circo contemporâneo” tem suas origens no final dos anos 70, de forma simultânea em diferentes partes do mundo. Austrália, Inglaterra, França e Canadá foram alguns dos países que o impulsionaram, com a criação de grupos e escolas que inspiraram novas companhias. Os australianos têm sua representação através do Circus Oz, até hoje em atividade; os europeus, pelos artistas de rua ingleses e pela escola francesa Annie Fratellini (descendente de tradicional família de palhaços), que surgiu com o apoio do governo do país e originou outras trupes.

O CIRCO NA ERA HIGH TECH
     Mas, sem dúvida, é o canadense Cirque du Soleil que melhor representa esta contemporaneidade; com a realização de turnês por todo o planeta, acabou por incorporar mundialmente a imagem. No Brasil, a companhia não só é figurinha fácil como chegou a contratar a coreógrafa carioca Deborah Colker para dirigir a montagem do espetáculo comemorativo de seus 25 anos. A história do grupo começou em 1982, em Québec, quando o grupo Club des Talons Hauts (Clube dos Saltos Altos), sob a direção do artista Guy Laliberté, realizou um festival nas ruas da cidade. Dois anos depois, com um conceito completamente novo, que incluía uma combinação diferente e dramática de artes circenses e de rua, já se apresentava com o nome que mantém até hoje.
     No Brasil, os grupos que atualmente representam o movimento são, entre outros, a Intrépida Trupe, do Rio de Janeiro, uma união de artistas circenses com dançarinos e atores dos grupos Coringa e Manhas & Manias; o Acrobáticos Fratelli, de São Paulo, com ênfase nas atividades acrobáticas; e o Parlapatões, Patifes e Paspalhões, nascido nas ruas da mesma cidade, com apresentações que mesclam circo e teatro.
     Em sua maioria, os artistas destes grupos tiveram sua formação circense nas escolas especializadas do país. A primeira delas, fundada em 1977, no estádio do Pacaembu, em São Paulo, chamava-se Piolin, em homenagem ao grande palhaço brasileiro. Em 1982, foi criada, no Rio de Janeiro, pelo artista Luís Olimecha, a Escola Nacional de Circo (ENC). A instituição, mantida pelo Ministério da Cultura, realiza cursos regulares de formação e reciclagem de artistas e mantém uma lona moderna de quatro mastros, com capacidade para três mil espectadores.
     Atualmente, são 200 alunos matriculados, com admissão realizada por concurso público, em um espaço que oferece salas de aula, dança e musculação, fisioterapia, refeitório e oficinas para confecção e conserto de aparelhos. O objetivo da escola é formar o artista circense, através do domínio de habilidades e técnicas, além de contribuir para a reciclagem e especialização de profissionais brasileiros e estrangeiros. Os cursos de capacitação incluem elaboração e execução de números com excelência, montagem de equipamentos com segurança, organização do espaço cênico e domínio de fatores técnicos. A escola foi montada em um terreno de 7 mil m2 na Praça da Bandeira, tradicional ponto de armação de circos no século XIX e início do XX.

HOJE TEM ESPETÁCULO? TEM, SIM SENHOR!
     O registro mais antigo que se guarda da origem do circo está na China, onde foram descobertas pinturas, com cerca de 5 mil anos, de acrobatas, contorcionistas e equilibristas. Foi neste país também que em 108 aC. o então imperador recepcionou visitantes estrangeiros com circo no Brasil. Seus avós paternos – ele, francês; ela, espanhola - vieram para cá com o Circo Irmãos Charles, da Inglaterra, e decidiram não prosseguir com a caravana para outros países. Foi no Paraná que nasceu, em 1905, o autor de uma das mais famosas brincadeiras com as crianças. Ao perguntar a elas “Como vai, como vai, como vai, vai, vai?”, a resposta vinha em coro: “Muito bem, muito bem, muito bem, bem, bem”. Arrelia dividiu sua carreira entre o picadeiro e a televisão, atuando em um programa da TV Record de São Paulo.
     Mas foi o fluminense, natural de Rio Bonito, George Savalla Gomes, o Carequinha, o primeiro a levar as pantomimas para a televisão. Depois de vir à luz, debaixo da lona do circo, em 1915 (sua mãe começou a sentir as dores do parto em pleno trapézio), começou a atuar como palhaço, aos cinco anos de idade. Tempos depois, inaugurava na TV Tupi um novo formato: o programa infantil de auditório, que acabou lhe rendendo fama nacional. Seu talento e habilidade para os negócios o levaram a gravar 26 discos, que venderam milhões de cópias, participar de produções cinematográficas, associar seu nome a produtos infantis e ainda a conquistar muitas homenagens e prêmios. A figura do palhaço é tão representativa do circo brasileiro que o Dia Nacional do Circo, comemorado em 27 de março, é uma homenagem a Piolim pela data de seu nascimento. Também vários prêmios conferidos a espetáculos e artistas são batizados com os nomes destes artistas. A Funarte, em parceria com o Ministério da Cultura, concede anualmente o Prêmio Funarte de Estímulo ao Circo. A honraria, que acabou batizada de Prêmio Carequinha, tem como objetivo fomentar e viabilizar projetos em diversas regiões do país e podem concorrer companhias, empresas, grupos ou trupes de todos os tamanhos e tipos, desde que ligados às artes circenses.
     Assim como fazem em relação às tradições, as trupes de circo também cultivam suas superstições. São sinais de má sorte o uso de roupas pretas no trapézio, mulheres que atravessam o picadeiro em momentos não reservados às apresentações, aves voando sob a lona e pessoas de costas para o picadeiro ou deitadas na arquibancada. Agora você já sabe: da próxima vez em que for ao Circo – e o Big Brothers promete voltar a Itaipava em julho de 2010 - fique bem sentadinho em sua cadeira para assistir e se emocionar com o “maior espetáculo da Terra”.

BIG BROTHERS CIRKUS
www.bigbrotherscirkus.com.br
tel: (21) 9876-5546
CIRCO SPACIAL
www.spacial.com.br
tel: (11) 3431-6204


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