As historiadoras Maria Luísa Salgado e Margarida da Silva Ramos (irmã de Paulo Machado) realizaram pesquisas que comprovam que a capela instalada no andar superior da sede da fazenda foi esculpida por Valentim da Fonseca e Silva, conhecido como Mestre Valentim. O artista se destacou por seu trabalho em talha dourada e outras técnicas em igrejas do Rio de Janeiro no século XVIII.

Nas missas e ladainhas realizadas na capela da Santo Antônio, a sacada era o espaço destinado aos escravos.

A fechadura horizontal do portão que separa internamente os níveis superior e inferior da sede é datada de 1754.

O relógio de pêndulo faz parte da coleção de peças de Argemiro Machado que a família mantém.

A sala de jantar, espaço que originalmente era uma varanda no piso superior, foi transformada a partir de projeto do arquiteto Lucio Costa, que fez ainda outras pequenas intervenções na parte externa da casa. A mesa de seis metros foi feita sob medida para a sala por encomenda de Argemiro Machado.

O arcaz em madeira maciça que sustenta o oratório é datado do período da construção da sede da fazenda e consta nos documentos da casa.

A madeira presente nos pisos, portas, proteção da escada e ainda em diversos detalhes faz parte dos materiais originais da sede.

O mobiliário da sede reúne peças que foram sendo colecionadas pela família Hungria Machado ao longo dos anos.

Em uma visita à Amazônia, em 1913, o presidente norte-americano Theodore Roosevelt utilizou a sela que mais tarde seria presenteada a Argemiro Machado e que hoje fica exposta em um hall do andar inferior da casa.


Em vários detalhes da casa, como o lavatório localizado junto a uma das janelas ou maçanetas de portas, as louças importadas da Inglaterra conferem um charme extra à sede da Santo Antônio.



Em uma de suas muitas estadas na fazenda, o presidente Getúlio Vargas (ao centro) saboreia um chá, enquanto conversa animadamente com Argemiro Machado (à esquerda) e outro visitante.

A cestinha do início do século XIX, usada para transportar as sinhazinhas, é uma das raridades que faz parte do acervo original da fazenda.

O antigo papel de parede - baseado em imagens pintadas pelo artista alemão Johann Moritz Rugendas, que viajou pelo país e adotou o costume de retratar cenas brasileiras - reveste a parede de um dos salões do piso inferior da fazenda e é um dos raros exemplares que existem hoje no mundo.

Pintura (de autor desconhecido) da escola cuzqueña, que engloba as pinturas coloniais hispano-americanas produzidas em países andinos entre os séculos XVI XVIII.



Fotos: Henrique Magro


Capa

De porteiras abertas



     A partir de meados de 2009, moradores de Petrópolis e visitantes vindos de todas as partes do mundo vão ganhar de presente a oportunidade de conhecer mais de perto um pouco do passado do Brasil. A sede da Fazenda Santo Antônio, que acumula mais de dois séculos de história - sua constituição, em Itaipava, por volta de 1750, antecede a fundação da cidade de Petrópolis (1843) – será aberta à visitação.
     A fazenda, que já faz parte de nosso patrimônio histórico e cultural, recebeu recentemente o certificado de Reserva da Biosfera da Mata Atlântica do Brasil. O título é concedido pela UNESCO a espaços aptos a realizar projetos voltados para aspectos ambientais, históricos e culturais. Este foi o impulso que levou os irmãos Theodoro de Hungria Machado, Sylvia Amélia Hungria Machado Orleans e Bragança, Ana Clara Hungria Machado DeCarolis e Maria Paula Hungria Machado Maldari, herdeiros da Santo Antônio, a transformar a sede da propriedade em um espaço cultural e que também servirá de base para projetos ambientais.
     “Hoje, a sede funciona como uma casa de trabalho para a administração de todos estes programas que estamos empreendendo. Já fizemos um projeto piloto, quando abrigamos o evento Mastercasa, que teve grande sucesso; em 30 dias, recebemos cerca de 1,5 mil visitantes. O que nos fez ver que muitas pessoas estão em busca de um pouquinho mais de cultura, de história e de algo mais do que um dia de compras em um shopping”, observa Ana Clara.
     Há aproximadamente dois anos, a fazenda recebe também alunos da rede municipal de ensino para visitas guiadas, em que são ministradas aulas de história, biologia e ecologia. Além destes programas, está ainda em curso o lançamento do projeto de um condomínio que vai ocupar parte do terreno da fazenda, que ao passar às mãos da família Machado englobava 1,5 mil alqueires de terra. Hoje, a área da propriedade totaliza quase 80 alqueires, onde, em uma RPPN (Reserva Particular do Patrimônio Natural), estão preservadas espécies da Mata Atlântica e alojado um sítio arqueológico que abriga um antigo cemitério construído em pedra.
     Em seus primórdios, a fazenda, oriunda de uma sesmaria concedida a Antônio da Silveira Golarte, fez parte do ciclo do açúcar. Mas, ao longo dos anos, e depois de passar pelas mãos de outros proprietários, inclusive o Barão de Mauá, diferentes atividades agro-pecuárias foram desenvolvidas no lugar. Em 1932, quando foi comprada dos herdeiros do comendador Francisco José Fialho (que se empenhou em preservar a arquitetura colonial da sede) por Argemiro de Hungria Machado, o estado era praticamente de abandono.
     De acordo com Ana Clara, nesta época ainda viviam na propriedade descendentes de escravos, com quem Argemiro fez um comodato para que suas famílias permanecessem ali por quatro gerações. “Com o passar do tempo eles foram morrendo e há mais ou menos dez anos as terras voltaram para a fazenda”. Com a administração de Argemiro e de seu filho Paulo - pai dos atuais proprietários e que assumiu a fazenda ainda muito novo, aos 17 anos - a Santo Antônio viveu o seu apogeu. Na época, entre as atividades estavam criação de gado leiteiro, a produção de laticínios e embutidos, curtume e outras. A vida social era também intensa. Por ali passaram grandes empresários e foram fechados grandes negócios: um dos episódios mais marcantes foi a assinatura do contrato para a abertura da primeira fábrica da Coca-Cola no Brasil.
     Figuras importantes da política brasileira, inclusive presidentes da República, eram visitas constantes. Por lá passaram, por exemplo, Juscelino Kubitschek e Getúlio Vargas. O presidente conhecido como “o pai dos pobres” chegou a ter uma proposta de compra recusada por Argemiro Machado. “Quando soube de seu interesse pela fazenda, meu avô convidou o Getúlio para passar um fim de semana lá e eles acabaram ficando muito amigos. Como suas visitas eram muito freqüentes, ele chegou a despachar de lá, meu avô reservou uma área no andar inferior exclusivamente para ele”, conta Ana Clara.
     Ainda hoje estes aposentos conservam características de quando serviam ao presidente e sua comitiva. A preservação de elementos originais é, por sinal, um dos grandes atrativos da fazenda. Algumas poucas intervenções arquitetônicas foram realizadas e de forma a não alterar drasticamente o projeto original, vindo de Portugal.
     Além de uma mudança no piso superior, que transformou uma varanda em sala de jantar, no ano de 1940 a sede sofreu uma modificação na parte externa do andar térreo. Ambas realizadas pelo arquiteto Lucio Costa, um dos fundadores do IPHAN (Instituto do Patrimônio Hitórico e Artístico Nacional), autor do Plano Piloto de Brasília e amigo do também arquiteto Paulo de Hungria Machado.

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