O carrinho que sustenta a câmera, e que guarda até hoje suas características originais, foi construído nos anos 40, nos primeiros estúdios da Cinédia, em São Cristóvão, e usado pela primeira vez no filme Pureza, do diretor português Chianca de Garcia, contratado especialmente para esse projeto.

O casarão de Santa Teresa, escolhido para abrigar a Cinédia e o IPMCB, passa por adaptações para receber um programa de cursos sobre cinema.

Lanterna de projeção (acoplada ao fole de uma câmara fotográfica de chapa) que permitiu o uso pioneiro da técnica de projeção por transparência no filme Bonequinha de Seda.

Projetor de copiões 35mm, à manivela, que Adhemar Gonzaga usava nos primeiros tempos da Cinédia em São Cristovão.

Na Cinédia se respira cinema. Todo o interior do casarão é decorado com cartazes e com máquinas como a comparadeira, equipamento usado para comparar, quadro a quadro, dois filmes em película.

À frente da Cinédia desde 1970, Alice Gonzaga desenvolve, através do IPMCB um importante trabalho de restauração e recuperação dos filmes produzidos pela companhia.

Vindos diretamente de Hollywood, por volta de 1936/37, os refletores Molle Richardson do acervo da Cinédia foram os primeiros introduzidos no Brasil.

Adhemar Gonzaga (clicado em 1932 por Jack Freulich, da Universal Studios): caricaturista, jornalista, empresário, cineasta, produtor e, sobretudo, um apaixonado incentivador da industrialização do cinema brasileiro.

Com as irmãs Aurora e Carmem Miranda entre as atrações musicais, Alô! Alô! Carnaval! foi o primeiro sucesso de bilheteria da companhia. Sobre ele Nelson Motta escreveu (em O Globo de 23 de setembro de 1974): “era a verdadeira semente das comédias musicais que vieram resultar numa das mais autenticamente brasileiras expressões da linguagem cinematográfica”.



Foi em Bonequinha de Seda, outro grande êxito da produtora, que se utilizou pela primeira vez uma grua. O equipamento serviu para que a filmadora pudesse acompanhar Gilda de Abreu pelas escadas durante um número musical. O papel principal, que seria de Carmem Miranda, foi entregue à Gilda e o roteiro, reescrito para adaptar-se a sua personalidade.



Berlim na Batucada - que trazia, entre muitos outros, números de Francisco Alves e do Trio de Ouro formado por Herivelto Martins, Dalva de Oliveira e Nilo Coelho – colocava o humor e música a serviço da crítica social. A película foi restaurada em 1976, com pesquisa, planejamento e supervisão de Alice Gonzaga.



Durante as fimagens de O Ébrio, Vicente Celestino – que assinou o argumento, musicou e protagonizou o filme – foi por várias vezes confundido com um mendigo e chegou a receber esmolas de populares ao se caracterizar como o Dr. Gilberto Silva, um médico de prestígio que sofria com o abandono da mulher e tinha problemas de alcoolismo.



A quinta produção da Cinédia, Canga Bruta foi alçada muitos anos depois de seu lançamento, à categoria de cult movie brasileiro e ganhará uma versão no ultramoderno formato Blu-ray.



Poeira de Estrelas (1948), é um dos cinco filmes de Moacir Fenelon incluido em projeto de restauração. Nele, a canção Boneca de Pixe, de Ary Barroso, é interpretada por Lurdinha Bittencourt (à esq.) e Emilinha Borba.



Para Estou Aí? (1949) - com Colé (na foto, sentado), Ronaldo Lupo, Celeste Aída e Emilinha Borba, entre outros - está sendo feita uma reconstituição a partir de 4 cópias incompletas remanescentes em 16mm. Daí, será produzido um negativo, suprimindo-se riscos e abrasões. Posteriormente será também passado para mídia digital.



Produzido por Adhemar Gonzaga, com direção de Humberto Mauro, Lábios sem Beijos (filme mudo, de 1930) trazia no elenco a atriz Didi Viana – mulher de Adhemar e mãe de Alice - , que abandonou a carreira devido à pressões familiares.

Fotos: Henrique Magro & arquivo Cinédia


Capa

Fábrica de sonhos

80 anos da Cinédia, uma meca do cinema brasileiro

     A Cinédia, uma das principais produtoras de filmes do país, acaba de completar seu 80º aniversário, comemorado oficialmente no dia 15 de março, e, apesar da idade avançada, não perdeu o fôlego. A empresa que há cerca de um ano e meio está instalada em um casarão em Santa Teresa, no Centro do Rio de Janeiro, se prepara para uma nova empreitada: o lançamento de um programa de cursos sobre cinema. Fazem parte também dos planos dessa senhora cheia de energia a digitalização de uma série de documentos e fotos que, junto com equipamentos e filmes, compõem um acervo de mais de 300 toneladas.
     Para que se mantivesse longe do sedentarismo nessas oito décadas, a Cinédia contou com uma parceira que a acompanha de muito perto desde seus primeiros anos de vida e que também é movida pelo mesmo dinamismo e amor ao cinema: Alice Gonzaga. Filha de Adhemar Gonzaga – o idealizador e fundador dessa que é uma das mais importantes fábricas de sonhos já erguidas no Brasil – ela ficou encarregada da administração da empresa a partir de 1970.
     Desde então, Alice vem desenvolvendo um trabalho de preservação e restauração de grandes obras da cinematografia brasileira como Alô, Alô Carnaval (1936), de Adhemar Gonzaga, e Mulher (1931), de Octávio Gabus Mendes e a recuperação, de Romance Proibido (1944), Anjo do Lodo (1950), Maridinho de Luxo (1938) e o Cortiço (1945). Entre restaurados e recuperados, somam-se hoje 18 obras. Foi ela também a responsável pela criação, em 1997, do Instituto para a Preservação da Memória do Cinema Brasileiro (IPMCB), que, ainda hoje, sob sua batuta, desenvolve ações e projetos em prol da conservação de filmes e documentos relativos a atividades cinematográficas no país.
     O instituto desenvolve agora o projeto de restauração de cinco filmes de Moacyr Fenelon - diretor, produtor, roteirista e técnico de som que incentivou o cinema independente e inspirou a geração nacionalista dos anos 1950-60. São cinco títulos - Obrigado Doutor, Es­tou Aí!, Poeira de Estrelas, Dominó Negro e A Inconveniência de Ser Esposa - produzidos e dirigidos entre 1948 e 1951, na fase final da carreira do cineasta. As obras são documentos históricos da era de ouro do filme popular brasileiro e também registros da nossa cultura do pós segunda guerra mundial - momento de profundas alterações na estrutura social brasileira.
     A mudança da chácara de Jacarepaguá, na Zona Oeste - onde os estúdios da Cinédia estiveram instalados por 52 anos, com o aluguel de cenários e equipamentos para terceiros como atividade principal - para a casa atual não foi à toa. Além da necessidade de um ambiente que pudesse comportar da melhor maneira possível o inestimável acervo da empresa, o espaço tinha de ser capaz de abrigar salas adequadas para a realização de cursos e palestras que pudessem manter o IPMCB.
     “Chegou um momento em que tive de optar por manter os estúdios, o que significava uma despesa muito grande, ou tomar conta dos arquivos. Depois de procurar muito, encontrei o lugar ideal, que teve a aprovação imediata do curador do acervo (o professor Hernani Heffner, também diretor de conservação da cinemateca do MAM). Agora estamos concluindo as adaptações necessárias para iniciar o programa de cursos e também o de visitas guiadas”, conta Alice. Nos dias atuais, o papel principal da produtora que produziu 56 longas – entre eles Ganga Bruta (1939), de Humberto Mauro e O Ébrio (1946), de Gilda de Abreu - e 700 curtas e médias-metragens, entre os anos de 1930 e 1981, é contribuir para a difusão dessa rica parcela da história do cinema brasileiro. Vamos a ela.

     Cena 1
     A Cinédia teve sua origem na revista Cinearte, publicação especializada em cinema, fundada por Adhemar Gonzaga em 1926. Foi a partir da campanha lançada pela publicação em prol da industrialização cinematográfica no Brasil que o grupo recebeu o convite para colaborar na fita Barro Humano (1929), que acabou produzindo em parceria com a Benedetti Filmes, e que teve a direção do próprio Gonzaga. O sucesso foi grande – com a eleição de melhor filme do ano em concurso promovido pelo Jornal do Brasil e exibição em toda a América Latina e ainda em Portugal – e o próximo passo de Gonzaga maior ainda: a construção de um estúdio próprio nos mesmos moldes dos que havia visitado em Nova York e Hollywood, em 1927.
     Mesmo sem dispor com facilidade da tecnologia já utilizada nos EUA, o empreendedor conseguiu levar a idéia adiante e montar uma empresa que seguia os padrões americanos em relação a diversos aspectos. Funcionários e técnicos tinham contratos de trabalho com a empresa, dotada de estúdios bem montados e equipamentos modernos. Para inaugurar a companhia, foi escolhido o filme Lábios sem Beijos (1930) – que já contava com uma versão inacabada, dirigida por Gonzaga antes da inauguração da Cinédia – cuja direção foi entregue ao já consagrado cineasta Humberto Mauro. Apesar de algumas críticas negativas, o filme de estréia também conquistou prêmios, dando início à carreira de sucesso da produtora.
     Já no ano seguinte, a produção Mulher, com direção de Otávio Gabus Mendes, ficou marcada pela ousadia de seu roteiro, considerado forte para a época. No lançamento, o filme foi sonorizado por discos que reproduziam trechos de diálogos e músicas; tempos depois, além da restauração, ganhou em, 1977, uma versão sonorizada que incluía na trilha sonora a valsa homônima composta por Zequinha de Abreu.

     Cult Movie Nacional
     Em 1933 nascia Ganga Bruta, o clássico dirigido por Humberto Mau­ro, e hoje presente em quase todas as listas dos 10 melhores filmes brasileiros de todos os tempos, que apresentou grandes novidades em sua filmagem, descritas no livro 50 anos de Cinédia, escrito por Alice Gonzaga, com base em documentos e anotações do pai. “Pela primeira vez, nada menos de três câmeras foram utilizadas para a tomada de uma sequência passada em interiores (...) havia uma para os close-ups, outra já assentada para os long-shots e a terceira aguardando o momento de apanhar outras cenas.”
     Assim como Mulher, o clássico de Humberto Mauro teve também sonorização completa em disco pa­ra acompanhar a exibição. “Esses são os dois únicos filmes brasileiros realizados com a técnica. A coleção do Ganga Bruta era composta por seis discos e a restauração, que incluiu a inserção da trilha, foi um verdadeiro trabalho de chinês”, lem­bra Alice, que prepara agora a conversão desta e de outras obras para Blu-ray (disco óptico de última geração para vídeo de alta definição), com vistas ao lançamento de uma coleção no fim deste ano.

     Estouro de bilheteria
     Depois de muitos outros filmes, em 1936, surge o grande sucesso Alô! Alô! Carnaval!. A direção era assinada por Adhemar Gonzaga e os cenários desenhados por J.Carlos, responsável também pela criação, um ano depois, da logomarca da Cinédia. Como a televisão ainda não existia, o musical foi uma forma de apresentar ao público brasileiro os grandes cantores da época. As atrações musicais incluíam Francisco Alves, Mario Reis, Bando da Lua e as irmãs Aurora e Carmem Miranda, além de outros consagrados artistas do rádio.
     No mesmo ano, mais um êxito: Bonequinha de Seda, superprodução dirigida por Oduvaldo Vianna. Desta vez, mais dois avanços técnicos para o cinema brasileiro são implementados pela produtora: a utilização de uma grua para acompanhar com a câmera a estrela prin­cipal Gilda de Abreu cantando enquanto sobe uma escada e o uso da “projeção por transparência”, técnica aplicada para inserir imagens pré-filmadas de cenas de rua no vi­dro traseiro de um carro. Sucesso estrondoso de público e de crítica, o filme rendeu a Gonzaga o seguinte bilhete do então presidente Getúlio Vargas: “Assistindo à Bonequinha de Seda, sinto-me compensado pe­lo esforço que fiz amparando o cinema nacional.”
     Se não chegou a fazer tanto sucesso assim, a obra mais representativa que viria em seguida, Berlim na Batucada (1944), foi um marco no que diz respeito à crítica social, feita com muita música e humor. Foi com esse filme, cujo argumento é de autoria de Herivelto Martins, que o diretor Luiz de Barros mostrou a influência da guerra no cinema brasileiro. Lançado no auge da II Guerra Mundial, teve seu título inspirado pelos bombardeios da Força Área Brasileira sobre a capital alemã e também apresentou novidades técnicas como a trucagem que permitiu o diálogo entre quatro personagens interpretados pelo mesmo artista: o humorista Silvino Neto. A herdeira da empresa depõe sobre esse período. “A Cinédia sempre foi prejudicada pela guerra, mesmo depois do fim dos conflitos. Não havia produtos químicos para revelações em laboratório; filmes virgens para se fazer cópias, pois quando conseguíamos importar alguns, eles eram abertos na alfândega e acabavam velados; e mesmo transporte para que se enviassem cópias para a exibição em outras partes do país. Enfim, toda sorte de problemas.”

     Divisor de águas
     Com o fim da guerra, que terminara no ano anterior, mas ainda sofrendo com suas consequências a Cinédia lança, em 1946, aquela que seria sua principal produção e um divisor de águas no cinema nacional. A esta obra foi atribuída a capacidade de sintetizar a história de pioneirismo protagonizada por personalidades como Adhemar Gonzaga e tantas outras que participaram a­tivamente dos primórdios da atividade cinematográfica brasileira. O Ébrio - com argumento e música de Vicente Celestino, que também assumiu o papel principal, e direção de sua mulher Gilda de Abreu – chegava às telas para desbancar as produções estrangeiras, algo até então incomum.
     O sucesso foi tão clamoroso que levou entusiastas a comparar a produtora nacional com a gigante americana Paramount Pictures, que lançara por aqui na mesma época o filme Farrapo Humano, também abordando o alcoolismo, que havia acabado de conquistar o Oscar. Mesmo com o prêmio mais importante do cinema mundial na bagagem, a bilheteria da produção americana ficou aquém da registrada pela brasileira. Com O Ébrio, a produtora teve sua consagração definitiva.

     Desce a cortina
     A época de ouro da Cinédia terminava com o fim dos anos 40. Em 1951 os estúdios de São Cristóvão foram fechados e no ano seguinte a empresa se mudou para São Paulo, onde permaneceu até 1955. Neste mesmo ano, Gonzaga produziu e dirigiu seu único filme em terras paulistas, Carnaval em Lá Maior, que trazia artistas exclusivos da Rádio e TV Record, entre eles Adoniran Barbosa, e foi realizado em co-produção com a companhia pau­lista Maristela.
     De volta ao Rio, em 1956, a empresa começa a construir seus novos estúdios na chácara de Jacarepaguá. Ali, montou três estúdios, camarins, salas de montagem e produção, filmoteca, escritórios, res­taurantes e áreas de lazer para a produção de longas-metragens, programas de televisão, novelas e comerciais. Nessa fase, Gonzaga dirigiu e realizou um único filme com produção integral de sua companhia, Salário Mínimo (1970), que teve a participação de Alice Gonzaga como assistente de produção.
     Entretanto, antes que o FIM aparecesse na tela, lançou, em 1981, em sistema de co-produção com a Schwartz Empreendimentos e Participação, o filme Consórcio de Intrigas, dirigido por Miguel Borges.

Fontes: Instituto para a Preservação da Memória do Cinema Brasileiro (IPMCB); 50 Anos de Cinédia (Alice Gonzaga, Editora Record-1987); Gonzaga por ele mesmo (Alice Gonzaga e Carlos Aquino, Editora Record-1989); decadade50.blogspot.com

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