Foto: Hamilton Corrêa

Helena e Joaquim em cena no espetáculo teatral O Enigma do Piolho Real, que promove a integração com o público através da resolução de enigmas propostos

Os instrumentos fabricados por Joaquim são confeccionados a partir de molas de relógios, caixas de frutas, cascas de coco, pés de geladeira, pedaços de conduíte, rolhas e outros

Foto: divulgação

DNA artístico: Ana, a filha do casal, também participa dos espetáculos e ajuda na manutenção dos elementos cênicos





Os bonecos e todos os elementos usados em cena para “cantar” histórias do folclore e do cotidiano brasileiros são produzidos pela família com materiais reaproveitados

A produção de discos, CDs e livros também faz parte das atividades desenvolvidas pelo Showcante que Encante

A criação de instrumentos próprios nasceu das pesquisas de Joaquim sobre aqueles desenvolvidos e utilizados em diferentes regiões; como a rabeca do norte de Minas Gerais, originada das produzidas no oriente, e a sanfona “oito baixos” nordestina. No canto esquerdo, o tambor quadrado (inspirado nas caixas de Folias), confeccionado pelo pesquisador.


Especial

Cantadores de história



     O título resume de forma muito sucinta o trabalho desenvolvido por Joaquim de Paula e Helena Villela, artistas, e, especialmente criadores, multimídia, que vieram aportar por estas bandas nos idos de 1998. Também dá aquela vontade, que de vez em quando acomete jornalistas, de que o texto não tenha limitações de espaço ou de percepção. Há muito para se contar dessa história, que deveria ser consumida pelos leitores com fundo musical e sonoplastia.
     Em uma tentativa de síntese, o rol de atividades desenvolvidas pelo casal, que há 12 anos se instalou em Itaipava, inclui: criação, montagem e apresentação de espetáculos cênicos e musicais; fabricação de instrumentos musicais, bonecos, cenários e elementos cênicos; organização de cursos e oficinas; produção e edição artesanal de livros; e gravações de discos com histórias musicadas e composições próprias. Isso tudo com o propósito de difundir o folclore nacional e fatos cotidianos da vida brasileira.
     Em 25 anos de trabalho, o grupo Showcante que Encante – hoje formado pela dupla e com eventuais participações de artistas convidados – já realizou cerca de 4 mil apresentações, valendo-se de diferentes mídias, para divulgar a cultura genuinamente nacional. Com participações em feiras de livro, salas de leitura, encontros e atividades específicas para teatros, escolas, praças públicas, congressos, programas de rádio e TV, por exemplo, já percorreu mais de 200 cidades de 17 estados desse “Brasilzão”.
     As histórias contadas e cantadas pelo Showcante que Encante são baseadas, principalmente, no repertório mineiro, tanto folclórico quanto familiar, ouvido por Joaquim na infância vivida em Montes Claros, município localizado na região norte de Minas Gerais. Como exemplo, as registradas no primeiro livro de sua autoria, A história do capitão (1995), que narra sua versão para as “marujadas de Minas” e inclui partituras de canções.

Os cantadores
     A responsabilidade ambiental é outra forte característica do grupo. Os bonecos, assim como os demais elementos utilizados nas apresentações, são produzidos pelo casal com o reaproveitamento dos mais prosaicos materiais, reunidos de sobras de equipamentos e utensílios domésticos. Além de ecologicamente corretos, os objetos são feitos com encaixes, de modo a facilitar seu transporte e a reposição de peças eventualmente danificadas.
     “A idéia é que haja sempre interação, inclusive através do manuseio dos elementos cênicos, por isso precisamos que as peças sejam de fácil reposição. É muito legal poder matar a vontade das crianças de pegar nos bonecos e nos instrumentos e brincar com eles depois das apresentações. Com isso, temos recompensas, como o episódio em que um rapaz que, muitos anos depois de assistir a um dos espetáculos e se encantar com uma rabeca, nos encontrou em um evento e fez questão de dizer que estava estudando violino”, conta Helena.
     Ela e a filha do casal - Ana, de 12 anos, que também faz participações esporádicas nas apresentações desde os 5 – são as responsáveis pela manutenção dos objetos. Além de atuar em cena, Helena também fica encarregada das tarefas administrativas do grupo. Joaquim - pesquisador, professor, instrumentista e, sobretudo, um estudioso da música e dos sons – é o responsável pelo fabrico dos instrumentos, também confeccionados com materiais reaproveitados. “Todo instrumento tem uma lógica de funcionamento e quem tem alguma noção dessa lógica é capaz de construir seu próprio instrumento. Alguns, como o violino, cujas origens remontam ao antigo Oriente Médio, alcançaram um grau de sistematização que levaram à forma como hoje os conhecemos; outros tiveram diferentes evoluções em diversas regiões do mundo. Isso faz parte de um processo cultural de 3 mil anos e meus estudos na área partiram justamente desse ponto: analisar a evolução histórica para fazer uso dela na produção do meu próprio som”, explica Joaquim.
     O professor, que se formou em matemática e acabou aplicando os conhecimentos da ciência na construção dos instrumentos musicais, é quem compõe as canções e escreve os livros produzidos pela trupe. Já são oito publicações e três CDs lançados. As obras, divididas entre literárias e de cunho pedagógico, são editadas em produção independente e dirigidas a crianças e a professores ou profissionais da área de pedagogia. Os discos, para qualquer um já teve infância.

As histórias
     Quem hoje está na faixa dos 40 deve se lembrar de O macaco e a velha – uma das histórias contadas na Coleção Disquinho, que trazia, em vinis compactos e supercoloridos fábulas, contos e outras narrativas produzidas por autores do mundo inteiro para crianças. O conto popular, registrado em várias adaptações, que narra as aventuras e desventuras da velha que não consegue comer suas bananas, insistentemente roubadas por um macaco, e acaba atraindo o animal com um boneco – O que eu quero é vingança! O macaco que se lixe! Vou enganar o danado com meu boneco de piche!, bradava a personagem no disquinho - é apenas uma entre as muitas histórias adaptadas, contadas e cantadas pela dupla.
     Cerca de 40 histórias e temas fazem parte do repertório apresentado através dos projetos Histórias Animadas, Espetáculo de Contadores de Histórias, Espetáculo Teatral e Espetáculo Musical - Show. Embora o tom que permeia todos os trabalhos seja o lúdico, eles não se dirigem apenas ao público infantil. Exemplos como Os políticos – que se desenrola de forma interativa, através de falas, músicas e gestos e recria o clima de um comício, onde candidatos de partidos opostos, por acaso, ocupam um mesmo espaço em uma praça – estão entre eles.

Outras histórias
     O Showcante que Encante também organiza cursos em diferentes formatos e duração variável, em função das necessidades dos diferentes públicos: profissionais e/ou estudantes interessados em conhecer e vivenciar propostas nas áreas de: leitura, folclore, alfabetização, educação geral, psicomotricidade, música, recreação, arte e lazer. As oficinas são montadas a partir de jogos de livre expressão, sem necessidade de aprofundamento teórico, e o trabalho é desenvolvido diretamente com grupos interessados em vivências que proporcionem autoconhecimento e facilidades nos relacionamentos interpessoais.
     Os Encontros de Lazer Criativo - oficinas especiais com jogos, brincadeiras e utilização de diferentes materiais para que participantes se divirtam realizando propostas em música, contação de histórias e arte - também faz parte do rol de atividades, assim como os Projetos Especiais Musicalização (Música para todos os gostos), para ensino de música; Este CD foi feito por mim, para a criação musical e/ou orientação e produção de CDs de áudio; e Orquestra de Latofones, para a iniciação musical (teórica e prática) através da construção e utilização de instrumentos construídos com sucata e diferentes materiais reciclados.

Os primeiros capítulos
     O grupo foi fundado por Joaquim e dois amigos, o ator Wagner Coelho e o também músico Renato Calaça, em 1985, no Rio de Janeiro. Em intervalos dos ensaios da peça Meu amigo pintor, de Lygia Bojunga, na época encenada do Teatro do Sesc Tijuca, eles se dedicavam à brincadeira de criar cenas baseadas em histórias, músicas folclóricas e jogos tradicionais brasileiros.
     O passatempo acabou arregimentando outros artistas – a atriz, cantora e violonista Teca Barcellos se juntou a eles - e virando o embrião do primeiro espetáculo infantil criado e produzido pelos amigos, o Showcante que Encante - que acabou batizando também a própria trupe. O trocadilho não é em vão; difícil não se encantar com as histórias cantadas.
     Animados com a receptividade positiva, partiram para nova empreitada, a criação e montagem de peças musicais voltadas para adultos, espetáculos que, junto com aqueles pensados para as crianças, renderam a gravação do primeiro disco. Em determinado momento o grupo, que chegou a reunir 18 componentes, começou a se dispersar por força da necessidade de seus integrantes de seguir outros rumos profissionais. Em 1992, Joaquim, um dos únicos a resistir, cooptou para o Showcante sua então aluna no Colégio Isa Prates, Helena Villela.
     O que veio a seguir levou a história para o gênero romance, cujo desenlace já é conhecido: casamento, gravidez, mudança para Itaipava, nascimento de Ana e formação de uma família que hoje vive integralmente da arte. Na verdade, nem é tão correto dizer que se trata de uma trupe ou família de artistas; mais adequado para os três seria o termo “movimento cultural personificado”.

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