A instalação Reds, composta por 15 peças em vidro, está em uma residência particular em Inhotim (MG)

Foto: Miguel Rio Branco

A obra Voyage Fogu fez parte de uma exposição no Museu de Arte Contemporânea de Tóquio em 2008

Foto: Miguel Rio Branco

A foto Banho Garotire, de 1983,foi feita na aldeia Kayapós, no sul do Pará

Foto: Miguel Rio Branco

A composição Camélias e Elefante





Arte por toda parte: as obras de Miguel estão em todos os cantos da casa, onde funciona também seu ateliê

Fotos: Henrique Magro

Na sala da casa / ateliê, com a filha Clara e as cadelas Café e Cacau

Foto: Henrique Magro

O arquivo de fotos e vídeos tem merecido atenção especial do artista, que aproveita esses materiais, muitos deles ainda inéditos, para compor suas obras em progresso

Foto: Miguel Rio Branco

Écume des Jours, obra fotográfica em painel com 180 x 80cm

Foto: Miguel Rio Branco

A instalação áudio visual (sem título), de 1983, foi apresentada na Bienal de São Paulo e atualmente está exposta no Museu de Inhotim (MG), no pavilhão que leva o nome do autor

Foto: Henrique Magro

A tela, ainda sem nome, é um dos trabalhos a que o artista vem se dedicando atualmente









Especial

Miguel Rio Branco


Inquietação artística traduzida nas obras em constante renovação

     Para quem acredita que artistas são donos de personalidades excêntricas, e até um pouco controvertidas, podemos afirmar: em parte, é verdade. Pelo menos foi o que as conversações iniciais para a entrevista e a sessão de fotos que culminariam neste perfil do multifacetado Miguel Rio Branco levaram a crer. Mas, ledo engano. Sua aparente pouca propensão em oferecer informações sobre si mesmo e seu trabalho, assim como em se deixar fotografar, foi se transformando em uma surpreendente disposição para a conversa, para mostrar suas obras e para as fotos, logo à chegada da equipe.
     Simplicidade – atributo que não está registrado no extenso currículo do internacionalmente reconhecido e premiado pintor, fotógrafo, diretor de fotografia, cineasta e criador de instalações multimídia – é algo que dificilmente passaria longe de alguém que já morou em grandes centros da Europa e da América do Norte e que, há cerca de dois anos, escolheu um recanto no meio da mata de Araras para viver e produzir. Pois foi neste misto de lar e ateliê que nos recebeu e se deixou fotografar ao lado da filha mais nova Clara e das cadelas da raça Dachshund Café e Cacau.
     Mas a coerência entre o atual estilo de vida e a inspiração para parte de sua obra, especialmente a fotográfica, fica nítida logo em um de seus primeiros comentários. “Os grandes centros estão em queda livre total; o convívio entre as pessoas, os aspectos culturais e, especialmente, a educação vivem em plena decadência. De certo modo, esta visão crítica está refletida no meu trabalho. Um deles, especificamente – uma mostra no MIS, em São Paulo, no ano passado, que derivou do projeto de um livro chamado Mal de Cidade, com imagens feitas nos anos 90 - está ligado realmente a uma rejeição às cidades”.
     Trabalhos que se desdobram em novos projetos são uma constante na produção de Miguel. Embora já tenha programada uma grande exposição individual em Estocolmo para este ano – que vai reunir fotos e instalações de acervos espalhados pelo mundo afora, além de alguns vídeos - e outros projetos estejam em andamento (filmes, livros e quadros, por exemplo) –, ele faz questão de não separar uns dos outros. “Não tenho muito essa coisa de dar ênfase a este ou àquele projeto. Tudo se resume a um todo, ligado à própria vida cotidiana. Meu projeto mesmo é arrumar a casa continuamente e organizar meu arquivo de vídeos e fotografias, que são arquivos vivos, ou seja, rendem outros trabalhos.”
     À primeira vista, esta concepção – em que todas as obras estão sempre em andamento e nenhum projeto pode se resumir a algo terminado ou definitivo - pode até parecer meio confusa; mas, ao contrário, está repleta de simplicidade. A própria interpretação do artista sobre a criação facilita o entendimento. “A criação atinge todos os níveis da vida. Cultivar árvores e plantas, criar bichos ou obras de arte, no fundo, são a mesma coisa; tudo está ligado à criação.”
     Atualmente, a atenção do artista está voltada principalmente para a produção em espaços abertos, trabalhos construtivos realizados em conjunto com arquitetos e integrados à natureza. “O que está me interessando mais agora em termos de produção artística são os jardins. Um aprendizado, experiências que venho acumulando para projetos ou instalações que possam ser realizados em áreas externas, usando plantas e pedras.”
     A motivação por este segmento específico não o impede de dar continuidade às diferentes obras em progresso a que se dedica de forma simultânea. Uma tela já iniciada, que se mistura à mobília da casa e a outras várias peças “concluídas”, também recebe a atenção esporádica de Miguel: “de vez em quando vou lá e trabalho nela”. Um documentário sobre Eduardo Brito e Cunha, que mantém um extenso arquivo sobre a vida e a obra do pai - o caricaturista, chargista, ilustrador e designer J. Carlos - também está na pauta do dia do artista.
     Se o sobrenome denuncia a ascendência aristocrática de Miguel - seu bisavô paterno é o Barão do Rio Branco -, o ramo materno provê a veia artística: José Carlos de Brito e Cunha, ou J. Carlos – que também fez esculturas, foi autor de teatro de revista e letrista de samba - é seu avô.
     Assim como a polivalência, a uberdade e a qualidade artística da produção são características marcantes em Miguel. Desde o início da carreira, em 1964, com a exposição Pinturas e Desenhos, em Berna, Suiça, seus trabalhos já mereceram mais de 90 mostras individuais e cerca de 120 coletivas, nos quatro cantos do planeta. Foi também agraciado com uma série de prêmios por trabalhos em fotografia, fotografia de cinema e direção de vídeos, entre outros. É de forma simples que ele descreve a inquietação que o leva a tantas diferentes vertentes no campo das artes: “tenho necessidade de me expressar, mas, sobretudo, de ter liberdade; não quero ficar preso a uma fórmula comercialmente bem sucedida, procuro sempre dar novos saltos e procurar a satisfação através da renovação”.

Voltar Próxima matéria


Estações de Itaipava © Todos os direitos reservados