foto: Mariana Ferraz
Munidos de câmeras ou binóculos, os diferentes grupos de praticantes de birdwatching perseguem objetivos distintos: eternizar os encontros através de fotos ou ampliar suas life lists

A Bandeirinha (Chlorophonia cyanea) recebeu seu nome popular em homenagem à bandeira do Brasil, cujas cores ostenta em sua plumagem

Tangarazinho (Licura militaris)

Saíra-lagarta (Tangara desmaresti)

Saíra-amarela (Tangara cayana)

Tangará (Chiroxiphia caudata)

Borralhara-assobiadora (Mackenziaena leachii)

foto: Mariana Ferraz
Saíra-amarela (Tangara cayana)

foto: Mariana Ferraz
A Pousada Paraí­so realiza dois workshops anuais de observação e fotografias de aves. No primeiro plano (agachados) o fotógrafo João Quental e o empresário Bernardo Lacombe

Os anfitriões Bernardo Lacombe (ao volante) e João Quental (no banco do carona), com um animado grupo de observadores

Jacuaçú (Penelope obscura) flagrado com seu filhote pelas lentes de Raymundo Meirelles

Choquinha-de-dorso-vermelho (Drimophila ochropyga)

João-porca (Lochimias nematura)

Beija-flor-de-fronte-violeta (Thalurania glaucopis)

Gavião-miúdo (Accipeter striatus)

Teque-teque (Todirostrum poliocephalum)

Tiriba-de-testa-vermelha (Pynthura frontalis)

Fotos: João Quental


Capa

Olhar atento para o céu
Não basta apreciar, é preciso conservar



     Teque-teque, Bandeirinha, Jacuaçú, Borralhara-assobiadora e outros nomes incomuns co­mo estes podem parecer bem estranhos. Mas talvez você já tenha se deparado com indivíduos de algumas dessas espécies que integram a fauna de aves brasileiras – em um número que ultrapassa os 1,8 mil registros, de acordo com a lista atualizada em 2011 pelo Comitê Brasileiro de Registros Ornitológicos - CBRO.
     E não há como não notar a beleza de sua plu­magem e a sonoridade de seu canto, especialmente quando se encontram em liberdade, em seu habitat natural. Para apreciar e identificar o maior número possível de aves nessas condições, pessoas se reúnem em torno de uma atividade que vem crescendo a cada dia: a observação de aves ou, na versão internacional, birdwatching.
     Não existem requisitos obrigatórios para a prática. Qualquer um munido de um binóculo pode, em qualquer lugar do mundo e a qualquer momento, se dedicar à observação de aves. Mas, no Brasil, a atividade realizada de forma organizada, embalada pela crescente e bem vinda onda de preservação ambiental, vem ganhando novos adeptos e transformando um hobby antes adotado por poucos em novo filão turístico e econômico.
     A Avistar - feira anual realizada em São Paulo desde 2006 e que inclui o mais importante concurso de fotografia de aves da América Latina – registrou em sua primeira edição cerca de 20 expositores e aproximadamente 1000 visitantes, além de 2,5 mil inscrições para o concurso. Em 2011, foram 43 expositores de 13 segmentos (incluindo hotéis e pousadas, secretarias de turismo, órgãos de fomento, ONG’s e outros), 12 mil visitantes e 7,2 mil fotos inscritas. Números que não deixam dúvidas quanto ao aumento do interesse pela prática e sua expansão no segmento turístico.
     “De modo geral, a observação tem crescido muito. Cada vez mais brasileiros estão indo a campo para observar e isso tem impacto muito positivo na conservação, no turismo sustentável e em diversas áreas correlatas, como as de equipamentos fotográficos, binóculos etc. Um aspecto muito importante é que a observação começa em casa, no bebedouro de beija-flores, no comedouro para as maritacas, e também nos parques da cidade. Essa forma de lazer tem que ser incentivada e reconhecida como observação, pois é ai que surge o observador do futuro. Esse é o principal objetivo do Avistar, divulgar e incentivar a observação em todo país”, afirma Guto Carvalho, coordenador da Avistar 2011, realizada no mês de maio.
     Acompanhando a evolução dos eventos, a literatura, nas formas virtual e física, traz hoje também grande sortimento para os interessados no tema. O número de sites dedicados ao birdwatching é bem grande e a quantidade de informações disseminadas, sem limites; em alguns deles é possível até ouvir diferentes can­tos ou sonorização emitida pelas aves. Os lançamentos de títulos nacionais têm sido mais fre­ quentes nos últimos anos e as obras, em sua maioria com o objetivo de facilitar a identificação das espécies, funcionam como eficientes guias de campo – ferramenta indispensável para que os observadores possam reconhecer as aves que encontram pelo caminho.
     Também imprescindíveis para os que saem a campo em busca desse contato estreito com nossos amigos emplumados são os apetrechos. Os binóculos – hoje já se encontram disponíveis no mercado aparelhos sofisticados que incluem até sistemas de lentes que corrigem problemas como a miopia – são os principais. Mas os que se dedicam à observação com afinco levam sempre consigo o “caderno de campo”, essencial para que sejam registrados aspectos relevantes como detalhes de morfologia, comportamento, local, data e hora do avistamento de cada espécie e mesmo desenhos delas. Este último item, em caso do praticante se limitar à observação e não se municiar de equipamento fotográfico, como muitos vêm fazendo atualmente, graças à proliferação de workshops específicos voltados para o tema.
     A presença de um guia que conheça as peculiaridades locais é também de extrema importância para o sucesso e a segurança da excursão. Ele é quem poderá indicar os melhores pontos de observação, a frequência das diferentes espécies no local e os eventuais perigos (presença de animais peçonhentos, trechos escorregadios, etc.) das trilhas.
     Outro ponto fundamental é o conhecimento acerca das normas de conduta de um birdwatcher. Sim, elas existem e são essenciais para que a interferência humana não cause prejuízo ao ecossistema visitado. A Sociedade Portuguesa para o Estudo das Aves lista dez normas básicas de conduta, que incluem diferentes aspectos como o bem estar das aves, a boa imagem da atividade, a contribuição para a conservação do habitat, cautela na divulgação das informações sobre os objetos de observação e respeito a outros membros do grupo, entre outros.
Aves do paraíso     
De posse destas informações básicas, você pode se considerar pronto para dar os primeiros passos na atividade e contribuir para a preservação da nossa fauna. A boa notícia é que aqui na região serrana já existem investimentos do segmento turístico nela. A Pousada Paraíso – localizada no Taquaril (no distrito petropolitano de Pedro do Rio), ao pé da majestosa Pedra do Elefante – inclui pacotes para a observação de aves e realiza anualmente dois workshops de fotografia e observação.     
O responsável por ministrar as oficinas é o fotógrafo especializado João Quental – detentor da menção honrosa no concurso Avistar 2011 e premiado no mesmo evento em 2009 –, que, muito gentilmente, cedeu as fotos de aves que ilustram esta matéria. Antes de sair a campo, os participantes têm aulas teóricas, que abordam aspectos como flash, iluminação, fotometria, lentes, regulagens, playback, fluxo digital e tratamento de imagens, além dos tipos de máquina mais indicados para o birdwatching.     
Quem conduz os participantes pelas trilhas é o guia Ricardo Gagliardi. O publicitário e especialista na atividade registrou na área da pousada 208 diferentes espécies, algumas, inclusive, ameaçadas de extinção. No estado do Rio de Janeiro, segundo lista compilada este ano por Ricardo, que ingressou no Clube de Observadores de Aves do Rio de Janeiro em 1985, são 749 diferentes espécies que podem ser avistadas. As listas são atualizadas com frequência e podem ser acessadas pelos sites http://www.avistar.com.br e http://ricardo-gagliardi.sites.uol.com.br.     
A pousada, que ocupa uma área de 650 mil m2 em um vale rodeado pela Mata Atlântica, oferece três diferentes trilhas para a observação: a “trilha do cipó”, com 1,5Km e duração de 1 hora para o percurso completo; a “das nascentes”, com 2,5 Km e duração de 2 horas; e a “do jequitibá”, com aproximadamente 12 Km e de 4 a 5 horas para que seja percorrida na íntegra. Somente nesta última, que culmina na Pedra do Elefante, em uma altitude de 1,5 mil metros, é possível apreciar determinadas espécies.     
“O Sanhaçu-Frade (Stephanophorus diadematus), por exemplo, só pode ser visto ali, uma vez que esta espécie só ocorre em áreas de altitude elevada”, explica Mariana Ferraz, uma das proprietárias da pousada e que organiza, com o marido Bernardo Lacombe, os eventos ligados ao birdwatching.     
Ela conta que costuma receber os mais variados grupos interessados na atividade – desde os iniciantes até os que percorrem o mundo inteiro para observar ou fotografar as aves. “Acontece também de hospedarmos pessoas que nunca imaginaram cultivar um hobby como este e, a partir da estada aqui, começam a desenvolver o interesse pelas aves e voltam para participar de workshops e praticar o birdwatching ”, comenta.     
Os grupos de fotógrafos reúnem os praticantes em estágios mais avançados, que dominam técnicas profissionais e, habitualmente, dispensam os binóculos; utilizam-se apenas de sofisticadas câmeras, com lentes de longo alcance. Embora sejam grandes conhecedores da atividade, para eles o mais importante, segundo ela, é conseguir uma boa foto. Entre os observadores também existem categorias distintas e o objetivo maior daqueles que exercem a prática com maior regularidade, os verdadeiros aficionados, é conseguir engrossar sua life list (lista em que constam todas as espécies que já observaram e identificaram ao longo da vida).     
“Por isso também – prossegue Mariana – a im­portância da presença de guias especializados em cada região para conduzir as excursões. Eles sabem exatamente que aves podem ser avistadas em cada ponto das trilhas naquela determinada época e se utilizam de meio adequado para atraí-las”, explica. O método a que ela se refere traduz-se em um aparelho de som, do tipo MP3 ou similar, acoplado a uma caixinha de som com boa intensidade de volume, para reproduzir os diferentes cantos e vocalizações e assim trazê-las às vistas dos excursionistas.     
Outra boa notícia que trazemos é que a melhor época para a prática da observação de aves é agora, vai de agosto a novembro. Neste período, que abrange a primavera, as chances de admirar um grande número de espécies são maiores. Nas trilhas da Pousada Paraíso, de acordo com Mariana Ferraz, durante esta estação é possível travar contato com cerca de 120 espécies em um único workshop e, com sorte, visualizar espécies ameaçadas de extinção como a Choca da Taquara (Biatas nigropectus), o Azulão (Cyanocompsa brissinii) e o Curió (Sporophila angolensis).     
Algumas das características interessantes dos grupos de observadores são seu real interesse em relação ao conhecimento acerca das aves, a grande maioria se refere a elas pelo nome científico e acumula dados precisos sobre cada uma das espécies; o espírito preservacionista que os une, todo observador que se preze respeita as normas de conduta da atividade e realiza intercâmbio constante de informações com outros praticantes; e a diversidade de indivíduos que os integram, não há preconceitos ou restrições quanto à idade, raça, credo ou classe social. Basta um mínimo de disposição e uma boa dose respeito pela natureza. Se animou? Quem sabe você não passa a integrar um desses grupos e até a percorrer o mundo com um olhar mais atento para o céu?   


Fontes: Pousada Paraíso
Estrada Manoel Batista Andrade, 3515 - Taquaril - Pedro do Rio - Petrópolis
(24) 2223-3670
www.pousadaparaiso.com.br
paraiso@pousadaparaiso.com.br
Wiki Aves – www.wikiaves.com.br
Birdwatcher – www.birdwatcher.com.br
Avistar – www.avistar.com.br
Paisagem Protegida da Albufeira do Azibo – www.azibo.org


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