Ilustração do Vapor Alagoas, embarcação do imperador em sua última grande viagem: a ida para exílio



No alto e acima: os registros de viagem, à tinta ou a lápis, foram feitos em cadernetas com tamanhos que variam entre 6.5 X 10 cm e 9.0 x15 cm

No Espírito Santo, d.Pedro II conheceu e retratou os índios Puris, encontro que rendeu ainda um glossário com termos do idioma da tribo

Entre os desenhos que comprovam os dotes artísticos do imperador, imagem do Morro de São Paulo (BA), produzida em 1859

Além das cadernetas, folhas de papel avulsas foram utilizadas pelo imperador para o registro dos relatos de viagem

Prestação de contas: relatórios de despesas assinados pela Mordomia Imperial também estão entre os documentos do conjunto

Em visita a Nova Iorque, em abril de 1876, o imperador foi homenageado com uma apresentação de gala na Academia de Música da cidade

Paisagem de Penedo (AL) desenhada por d. Pedro II em 1859

Livros com assinaturas de visitantes ao imperador durante as viagens também fazem parte do conjunto documental

Conjunto formado por 871 documentos, entre diários, anotações avulsas, desenhos, programas de teatro, recortes de jornal e outras peças que tratam das viagens do imperador pelo Brasil e pelo mundo

Imagens: Arquivo Histórico do Museu Imperial/IBRAM/MinC

Especial

Memórias de um cidadão do mundo



     Na escola aprendemos que Dom Pedro II – nascido Pedro de Alcântara João Carlos Leopoldo Salvador Bibiano Francisco Xavier de Paula Leocádio Miguel Gabriel Rafael Gonzaga, em 2 dezembro de 1825, no Rio de Janeiro –, segundo e último imperador do Brasil, foi um incentivador das artes e dos conhecimentos científicos e ainda que as atividades de cunho político não estavam entre suas preferências. Nas aulas de História também nos foi ensinado que o sétimo filho de d. Pedro I e da arquiduquesa Dona Leopoldina da Áustria foi levado ao trono com apenas 15 anos de idade, ao ter, precocemente, sua maioridade declarada para que pudesse suceder ao pai, que abdicara em seu favor para retomar a coroa de Portugal quando o jovem mal acabara de completar os seis anos de idade.
     O período de desenvolvimento registrado em seu reinado – foi nessa época que a cultura teve grande valorização e foram introduzidas aqui novidades como a abertura da primeira estrada de rodagem (a União e Indústria), a primeira locomotiva a vapor, o telefone e o selo postal – também ocuparam as páginas dos livros, cadernos e provas de nossa juventude. Embora sejam muitos os registros que nos permitam conhecer essa efervescente fase da história brasileira e algumas características de seu maior protagonista, nenhum deles é capaz de retratar com tamanha fidelidade a personalidade do homem por trás do personagem histórico quanto o conjunto documental referente às viagens do imperador d. Pedro II pelo Brasil e pelo mundo, organizado pelo Museu Imperial de Petrópolis.
     O conjunto - que acaba de receber a nominação para o Registro Nacional do Comitê do Programa Memória do Mundo concedida pela Unesco com o objetivo de identificar documentos e/ou conjuntos documentais com valor de patrimônio documental da humanidade – é fruto do trabalho desenvolvido por toda a equipe da instituição, coordenada pela historiadora e arquivista Neibe Cristina Machado da Costa. São 871 documentos sobre as viagens do imperador, inclusive diários pessoais registrados em 43 cadernetas e ainda em folhas de papel avulsas.
     Parte do material doado em 1948 ao Arquivo Histórico do Museu por d. Pedro Gastão de Orleans e Bragança, o conteúdo das 43 cadernetas já havia sido reunido no livro Diário do Imperador, organizado pela historiadora Begonha Bediaga e publicado, também em CD- ROM, pelo Museu em 1999. Mas o que se conseguiu aglomerar na nova empreitada é algo que vai mais além. Junto aos 47 diários, em que d. Pedro II registra, em textos e desenhos, suas impressões acerca dos mais variados temas, estão na coleção itinerários de viagens, correspondências, registros de visitas e contatos do imperador, relatórios de despesas da mordomia imperial, jornais e outros periódicos, panfletos, programas, saudações e homenagens, convites, desenhos e gravuras.
     Os documentos trazem impressões detalhadas de d. Pedro II e apresentam um painel sobre o século XIX e suas transformações, revelando aspectos da evolução do pensamento, das descobertas científicas, da diversidade cultural e das paixões políticas, permitindo a análise das relações diplomáticas entre o Brasil e países de diferentes continentes. Uma forma para a compreensão do que foi o Brasil no século XIX, sob a ótica do monarca, que inclui desenhos - como o do Morro de São Paulo, na Bahia, ou os dos índios Puris, do Espírito Santo - que demonstram seu talento para as artes.
     Entre os registros do imperador acerca do Brasil, produzidos durante viagem realizada do Rio de Janeiro à Paraíba, não faltam passagens engraçadas como a ocorrida em Sergipe: Cadeia toda esburacada com dois guardas quase em fraldas de camisa que se puseram a correr atrás do único preso que saiu da prisão para me ver. [VOL. 4 - Viagem do RJ à Paraíba (Sergipe), 1859]. Ou mesmo seus cuidados em relação à unidade da nação: Visitei todas as povoações de alguma importância do rio de S. Francisco, ou antes, quase todas as povoações que margeiam o rio, e assim evitei quaisquer conseqüências de rivalidade que já se iam criando entre elas. [VOL. 2 - Viagem do RJ à Paraíba (Bahia), 1859].
     Também acerca do ensino, suas preocupações ficam visíveis: Passei pelo cemitério que é cercado de muro de pedra e cal, como não sucede ao do Penedo, e fui às aulas: a de meninos, que tem 77 matriculados e 40 a 50 de freqüência, e a de meninas, com 54 de matrícula e 19 a 20 tantas de freqüência; não me satisfez, lendo as meninas gazetas; só as dos meninos dividiram bem. [VOL. 2 - Viagem do RJ à Paraíba, 1859]. A instrução pública vai mal na província [Minas Gerais] julgando muito precisa a criação dum colégio à semelhança do de  Pedro 2º na capital. Pouca cultura e mesmo criação. [VOL. 9, 1862].
     Nas viagens internacionais, anotações que demonstram o orgulho pelas coisas brasileiras: Na vinda examinei aqui as oficinas centrais desta estrada de ferro. São muito importantes; porém não tão bonitas como as da estrada de ferro do Rio. [VOL. 17 - Segunda viagem ao exterior (EUA), 1876]. Já no exílio – considerado no conjunto documental como “a última grande viagem do imperador” – notas emocionadas sobre a morte da imperatriz: 1 ¾  Não sei como escrevo. Morreu haverá ½ hora a imperatriz, essa santa. Tinha ido à Academia das Belas Artes e ao sair foi chamar-me o Rebelo que a imperatriz tinha tido uma síncope. Já achei o prior da freguesia que lhe acudira com os ofícios extremos da Igreja. Ninguém imagina a minha aflição. Somente choro a felicidade perdida de 46 anos. [VOL. 29 - Viagem do exílio, 1889]
     Com a nominação concedida pela Unesco, esses e os mais variados registros (veja quadro com trechos de outras anotações dos diários) que integram o conjunto documental deverão ser conhecidos por um grande número de pessoas, de acordo com a coordenadora do projeto. “Agora é quase que uma obrigação nossa disponibilizar esses documentos de todas as formas possíveis. Vamos produzir, além de cadernos técnicos, uma série de catálogos educativos e uma edição revista e ampliada da obra já publicada, além de organizar uma grande exposição interativa, possivelmente em 2012 ou 2013. A titulação recebida pelo Museu foi um grande incentivo, já que a proposta da Unesco é que as instituições não só preservem, mas também divulguem esses patrimônios”, afirma a historiadora.
     De posse da titulação nacional, a equipe do Museu parte agora para novo empreendimento: a inscrição do conjunto documental para a obtenção do registro internacional, concedido também pela Unesco, o que pode garantir a nominação do dossiê que engloba documentos textuais e iconográficos como parte integrante do Programa Memória da Humanidade. A inscrição acontecerá agora em 2011 e os resultados serão anunciados no ano seguinte. “Vamos iniciar um trabalho de pesquisa mais minucioso para reunir outros documentos relativos às viagens de d. Pedro II. Esperamos ampliar o conjunto, anexando outras peças que comprovem suas visitas a diferentes países, mesmo que não sejam registros produzidos pelo próprio imperador” afirma a historiadora.
     O material reunido até o momento já está disponível para consulta de estudantes, pesquisadores e do público em geral, por meio de solicitação ao arquivo do Museu Imperial. E em 2012, vale sua torcida para esta titulação tão importante para a cidade que o imperador descrevia em seus diários como “a minha Petrópolis” e para toda a memória nacional.


     Veja outros trechos dos diários do imperador, em que d. Pedro II revela suas impressões sobre suas vocações, condições da viagem pelo Brasil, aspectos arquitetônicos das cidades que visitou, recepções pelos súditos e condições dos escravos.
     Nasci para consagrar-me às letras e às ciências, e, a ocupar posição política, preferiria a de presidente da República ou ministro à de imperador. Se ao menos meu Pai imperasse ainda estaria eu há 11 anos com assento no Senado  e teria viajado pelo mundo. [VOL. 9, 1862] A galeota encalhou antes de chegar ao desembarque, mas por fim saltei em terra – na areia, e oferecendo-me um cavalo segui nele, com as pernas encolhidas, por causa dos estribos muito curtos, até a casa da Câmara, por entre imensa gente e ao som do hino, tocado e cantado, da Independência composto na Bahia. [VOL. 2 - Viagem do RJ à Paraíba (Bahia), 1859]
    Depois vi a casa da Câmara onde há 2 retratos menos maus de meus pai e avô e um meu de quando criança. Esta casa, a que está pegada à da cadeia, ameaça ruína por estar sobre uma ribanceira apoiando-se em pedras soltas; projetaram um paredão, que ficou em princípio, apesar de despendidos, segundo disseram, 16 contos, e ter alicerces fracos. [VOL. 2 - Viagem do RJ à Paraíba (Bahia), 1859]
     Receberam com entusiasmo muito cordial e gritando um – Viva o imperador que não hei de mais vê-lo! Outro replicou – Por que não, já sabe o caminho! [VOL. 2 - Viagem do RJ à Paraíba (Bahia), 1859]
     Voltei pelo caminho do leme encontrando 12 escravos, que se queixam de ter sido levados de Sta. Cruz para o sítio do Costa pertencente a Couto Reis, onde trabalham em cafezais sobre ásperas encostas, e são obrigados a carregar sacas daquele gênero, ao mesmo tempo que não têm nenhum dia de descanso na semana e fazem serões. Os escravos logo que me aproximei do canal falso, gritavam misericórdia, dizendo que tinham fome, e lhes tiravam sábado e domingo, parecendo-me ter visto algumas das 12 escravas já referidas entre a chusma. [VOL. 7 - Fazenda de Santa Cruz, 1860]


Voltar Próxima matéria


Estações de Itaipava © Todos os direitos reservados