Junto à fonte, projetada para o banho das aves nativas de Petrópolis, são mantidas plantas brasileiras da coleção científica Jardins do Templo Fitogeográfico, principalmente orquídeas e bromélias. Daqui já saiu a bromélia baiana Hohenbergia carnavalii, uma planta nova para a ciência

A Hohenbergia carnavalii em única foto conhecida da planta na natureza
A coleção de plantas mantida em Petrópolis e apelidada de Templo Fitogeográfico, se distribui por réplicas de vegetações naturais do Brasil. Nesta – vegetação de restingas costeiras–, as vistosas flores vermelhas da Norantea brasiliensis dividem o espaço com diversas bromélias do gênero Neoregelia, que se abrigam sob arbustos raros como a Eugenia nítida (vulgo Pitangão)
Um dos mais importantes polos de biodiversidade periférica dos domínios da Caatinga, Grão Mogol – situada no alto Vale do Jequitinhonha, em Minas Gerais – apresenta flora de Cerrado, com traços semiáridos
Grande parte dos chapadões elevados sobre o rio Jequitinhonha, entre Minas e Bahia, encontra-se hoje tomada pelos eucaliptais que abastecem a indústria e empurram sem piedade os limites da Mata Atlântica
Na Serra Dois Irmãos, entre Pernambuco e Piauí, a paisagem é marcada pelos cladódios esculturais dos facheiros (Pilosocereus pachycladus), cactáceas arborescentes que se elevam sobre a copa da Caatinga
Pinturas rupestres com mais de uma dezena de milhares de anos, no Sítio da Pedra Furada, contam bastante sobre o ambiente em que viviam esses homens, animais já extintos, hábitos e costumes dos povos primitivos
A passarela conduz o visitante pelo Sítio da Pedra Furada, o mais importante da história da Arqueologia da Serra da Capivara, com paredes completamente cobertas por pinturas rupestres; abaixo dela, escavações onde cientistas descobriram diversas camadas de indícios humanos e até mesmo restos de gigantescos animais extintos
A barcaça atravessa o braço da Baía de Marajó, em frente a Belém, emoldurada pelo denso aningal (Montrichardia arborescens), vegetação típica das margens lamacentas do estuário amazônico
A Serra da Capivara é uma extensa superfície de aplainamento erosivo que conta muitas histórias sobre fauna, flora e também sobre o homem. revelando importantes dados sobre as vegetações do Semiárido, que nesta área guarda relações distantes com o Cerrado e a Amazônia

Fartura no Mercado Ver-o-Peso, na capital paraense; vista imperdível, mesmo para o fitogeógrafo, que encontrará de tudo ali, até mesmo um pouco da história natural da Amazônia

No Mercado, o expedicionário Orlando Graeff se prepara para devorar um tacacá, prato típico do Pará

Vista de uma vereda de buritis (Mauritia flexuosa), na zona da Mata de Cocais, próximo a Alcântara (MA)

Em Alcântara, palmeiras típicas do Semiárido chegam até à margem do oceano e produzem paisagem única, como essas palmeiras-carnaúba (Copernicia prunifera) que se debruçam sobre a praia selvagem

Algumas espécies de cactáceas do gênero Melocactus, se adaptaram às fendas ou frestas de rochas, como este Melocactus cf. zehntneri da Serra das Almas, em Crateús, no Ceará

Rio que divide os estados da Bahia e Sergipe, em pleno Semiárido. A exemplo dos rios da Caatinga, apesar de constar nos mapas oficiais, somente correm em determinadas épocas, ao sabor das chuvas torrenciais que são a marca do bioma Caatinga

A cultura do cacau, que quase desapareceu da Bahia devido à doença “vassoura-de-bruxa”, tem sido a grande responsável pela conservação das florestas da região de Ilhéus, uma vez que vai melhor sob a proteção de grandes árvores

A família botânica Cactaceae possui diversas espécies endêmicas da Caatinga, ou seja, cuja ocorrência se restringe à região. O gênero Melocactus é representativo do Semiárido, vegetando em Milagres, na Bahia, onde o solo é composto praticamente por fragmentos de rocha e areia

Fotos: Orlando Graeff


Capa

Formas e cores

das paisagens brasileiras analisadas em sua organicidade

     Partindo de Petrópolis, cidade que adotou como lar desde 1992 e onde cultiva uma diversificada coleção de plantas denominada Jardins do Templo Fitogeográfico, o carioca Orlando Graeff, engenheiro agrônomo, paisagista e naturalista independente, rodou 13,4 mil Km em busca de algo que ultrapassa os conhecimentos científicos: uma profunda compreensão da vegetação brasileira. Com este objetivo – que implica o estudo das relações entre as plantas, o clima, a fauna e a ação do homem em diferentes regiões – Graeff empreendeu, entre abril e maio deste ano, a primeira fase do projeto Expedição Fitogeográfica 2012, realizando uma viagem de 42 dias pelos estados de Minas Gerais, Mato Grosso, Goiás, Bahia, Piauí, Maranhão, Pará, Ceará, Pernambuco, Sergipe e Espírito Santo.
     A campanha – cuja segunda e última fase será iniciada ainda em setembro deste ano, com uma viagem ao Pampa Meridional (região que compreende 63% do território do Rio Grande do Sul, além de partes do Uruguai e Argentina) – foi idealizada para que o para-botânico pudesse conferir as hipóteses de estudos que vem desenvolvendo desde 2006 e que serão publicados em livro, com previsão de finalização ainda em 2012. “Senti a necessidade de conferir in loco diversos aspectos de alguns ecossistemas que ainda suscitavam dúvidas, que careciam de dados fitogeográficos mais atualizados. Assim surgiu a iniciativa da expedição”, justifica o naturalista.
     Foi com este intuito que partiu para a averiguação presencial da região do Semiárido Nordestino (Caatinga) e da Mata de Cocais, um bioma brasileiro situado entre a Floresta Amazônica e a Caatinga, em uma área que abrange os estados Maranhão, Piauí, Pará e Tocantins, assim denominado pela grande presença de árvores deste tipo, especialmente o babaçu e a carnaúba. O caminho percorrido foi bastante amplo, mas a viagem teve uma dinâmica muito rápida, uma vez que, na prática, as atividades consistem na observação, medição e registro de paisagens e espécies em fotos e desenhos, ao contrário das expedições científicas, caracterizadas, entre outros aspectos, por coletas de espécies e observação prolongada de seus habitats.
     “Embora tenha formação como engenheiro agrônomo e já tenha presidido a Sociedade Brasileira de Bromélias, meu trabalho no campo da botânica se baseia na reflexão independente, algo que não se consegue dentro das instituições, que têm suas linhas de pesquisa estabelecidas. Optei por seguir essa linha independente e fora do ambiente acadêmico, me transformando no que se convencionou chamar de para-botânico”, explica o naturalista. Mas isso não significa que o estudo não tenha embasamento científico. Todo o trabalho de Graeff é respaldado por acadêmicos ligados a diversos órgãos importantes nas áreas de botânica, geografia e geomorfologia, como o Instituto de Pesquisas Jardim Botânico e as universidades federais e estaduais do Rio de Janeiro. “O suporte oferecido por estas instituições é, inclusive, fundamental para a obra que venho desenvolvendo. Antes de sua publicação, os originais irão passar pela revisão de cinco cientistas de diferentes áreas, que vão contribuir com seus comentários”, acrescenta.

ENTENDER, AMAR, PRESERVAR
     O livro – que terá cerca de 800 páginas, com texto, fotos e ilustrações assinadas por Graeff – vai abordar basicamente os seguintes aspectos: as vegetações existentes no Brasil, sua distribuição e sua história mais recente (referente aos últimos 2 milhões de anos). O enfoque preservacionista, segundo o autor, será conferido à obra de forma indireta. “A estrutura é voltada para a explicação dessas vegetações, que, botanicamente, têm composições e histórias únicas e apenas na aparência são similares às encontradas em outras regiões do planeta; mas, este é um dos caminhos em direção à sua conservação. A compreensão das diferenças histórica das vegetações é fundamental para o entendimento de que não pode haver uma classificação burocrática, ou seja, apenas por sua aparência, quando se pensa em preservação. É preciso tirar esta análise do campo superficial e trazê-la para o terreno da compreensão”, defende.
     A proposta do trabalho que o para-botânico vem realizando há seis anos é explicar as peculiaridades que tornam únicas as vegetações, não apenas das regiões que agora são o objeto de estudo da expedição de 2012, mas de todos os tipos encontrados no território brasileiro. “Uma análise superficial, realizada apenas com base na aparência, poderia levar a crer, por exemplo, que as vegetações de Petrópolis e Teresópolis são as mesmas e esta classificação burocrática, como vemos comumente nos mapas, poderia até determinar a falta de interesse na conservação de uma delas. Uma postura que pode traduzir-se em aniquilação de parte da biodiversidade brasileira”, adverte.
     De acordo com Graeff, são inúmeros os fatores que criam um ecossistema próprio e como exemplo, ele cita o Pantanal, uma região formada em sua totalidade por espécies emprestadas de outros biomas. “O entrelaçamento de diversos fatores que existe ali – inclusive pela presença do homem, um dos elementos responsáveis pela criação do bioma Pantanal – é o que determina a identidade própria daquele lugar, que turísticamente é apenas um conjunto de paisagens.”
     As características únicas de cada uma das vegetações pesquisadas vão estar detalhadas no livro e as informações serão, segundo o au­tor, “totalmente democratizadas, com uma linguagem acessível a qualquer pessoa”. Nesse sentido, pode-se dizer que a obra tem, sim, um cunho preservacionista muito forte e nem tão indireto assim. Ao difundir estes dados de forma que inclusive os leigos possam compreender e assimilar os conceitos da fitogeografia examinada de forma sistêmica, o naturalista certamente estará contribuindo para a conscientização geral em torno da importância da conservação das espécies e dos diferentes biomas em que se inserem. Em suas palavras: “não se pode amar aquilo que não se entende.”

DO MACRO AO MICRO E VICE E VERSA
     Colecionador de plantas desde a adolescência, o também bromeleólogo e paisagista Graeff teve, por volta do ano de 2009, a primeira oportunidade de construir em sua própria casa um conjunto de espaços que denominou Os Jardins do Templo Fitogeográfico – uma amostra minimalista deste grande universo que é seu objeto de estudo e paixão incondicional. “Plantei as es­pécies da coleção diretamente em jardins projetados especificamente para abrigá-las. A partir de conhecimentos e experiências sobre os habitats dessas plantas, que eu visitara Brasil afora, foi possível dar vida a réplicas de algumas dessas paisagens botânicas, onde essas plantas cresciam, nos diversos ecossistemas do país”, conta.
     Estes jardins, assim como a floresta que replantou em uma área desmatada aos fundos da propriedade inserida em um grande condomínio residencial de Itaipava, são também para o pesquisador uma fonte inesgotável de aprendizado e base para reflexões para o conhecimento das paisagens do Brasil. “Da janela de meu escritório, observo como orquídeas e bromélias se desenvolvem em meio a massas de arbustos e árvores de nossa flora. Percorrendo diariamente a floresta replantada sobre uma encosta árida, desvendo as relações entre as plantas nativas da coleção, também presentes ali, e suas árvores-suporte ou sobre os diversos substratos que a nossa mata oferece”, descreve.
     Para ele, não apenas seu próprio “templo paisagístico”, mas toda a cidade tem uma certa aura mística que proporciona as condições ideais para o desenvolvimento de estudos e elaboração de teorias no setor. “Existe uma determinada conjunção astral que faz com que muitos pensadores nesta área de meio ambiente encontrem em Petrópolis uma atmosfera muito propícia a seus propósitos; a cidade tem uma relação íntima com a filosofia ambiental. Eu, por exemplo, posso até revisar alguns escritos em outros lugares, mas não consigo criar nenhum texto fora daqui, onde posso também testar as hipóteses e princípios que formulo ou estudo.”

DIÁRIO DE BORDO
     As considerações que resultaram dos longos anos de estudos do para-botânico só poderão ser conhecidas pelos interessados no tema quando do lançamento do livro, mas suas impressões acerca dos mais diferentes aspectos dos lugares visitados já podem ser conferidas através de artigos publicados no blog criado especificamente para o relato dessas vivências. Ali, Graeff foi relatando, como em um diário de bordo, as experiências que teve nesses 42 dias em que empreendeu a primeira etapa da Expedição Fitogeográfica 2012.
     Disparidades explícitas entre o comportamento de populações de diferentes estados igualmente castigados pela mais severa seca que já assolou o Nordeste do país nos últimos 47 anos – “incrível como no Ceará as pessoas não perdem a dignidade mesmo diante de tantas adversidades naturais, ao passo que em outros estados estas mesmas condições deixam a miséria estampada nos rostos e atitudes dos cidadãos”, comenta – estão entre as observações do viajante.
     Também imagens incríveis de paisagens, espécimes vegetais e cenas cotidianas – como as registradas no Mercado Ver-o-Peso, em Belém do Pará, ou ainda registros remotos da presença dos primeiros seres humanos no continente americano, em pinturas rupestres na Serra da Capivara, no Piauí – entre muitas outras, estão reunidas no blog, que oferece um saboroso aperitivo desta incursão do naturalista ao semiárido brasileiro. Enquanto não sai a obra completa, com a descrição atualíssima da inigualável fitogeografia deste “Brasilzão” cheio de formas e cores, já dá para sentir um gostinho...

Expedição Fitogeográfica 2012 http://expedicaofitogeografica2012.blogspot.com.br

Voltar Próxima matéria


Estações de Itaipava © Todos os direitos reservados