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Todos os ambientes internos da sede – como o hall de entrada (4), o jardim de inverno (1), a sala do piano (3) e a varanda localizada na parte inferior do prédio (2) – retratam o modo de vida dos barões do café, com mobiliário e peças de época. Alguns elementos são originais da Fazenda União e de propriedades vizinhas; outros foram garimpados em antiquários pela atual proprietária



Na “Sala dos Barões”, são servidos, sob encomenda prévia, banquetes que reproduzem com toda a pompa e circunstância aqueles organizados no século XIX

A suíte D. Joaquina, assim como todos os dez quartos disponíveis para hóspedes na sede da fazenda, tem mobiliá­rio de época

O salão de estar localizado no porão não segue a decoração característica do século XIX, porém mantém elementos originais da construção



As suítes localizadas na antiga senzala têm uma bela vista para o lago, um atrativo extra para quem opta por estas acomodações

A loja que hoje comercializa produtos fabricados na região reproduz os antigos armazéns de secos e molhados frequentados pelos tropeiros que passavam pela região do Vale do Café

O memorial afro é uma das atrações da pousada e enaltece a importância dos escravos para a atividade cafeeira

No refeitório com fogão à lenha, também localizado na antiga senzala, são servidas refeições para grandes grupos



A sala de Jogos (no alto) e o salão de eventos, construído onde originalmente ficava a tulha da fazenda, foram prédios introduzidos pelo arquiteto João Reis, responsável pela transformação da propriedade em pousada



A cavalariça abriga um grande salão de estar, além de baias para cavalos próprios e também para aqueles trazidos pelos hóspedes que preferem montar seus próprios animais


Fotos: Henrique Magro

Off Itaipava

Herança do café

Fazenda investe em turismo que privilegia a rica história do produto no estado

     A fase áurea do ciclo do café no Rio de Janeiro e o cotidiano de seus personagens em riqueza de detalhes é a proposta de um projeto em andamento na Fazenda União, em Rio das Flores, pequeno município do sul fluminense, localizado no Vale do Café e a apenas cerca de 100 km de distância de Itaipava. Os investimentos no setor de turismo, que há alguns anos começaram a ganhar força na região, integrada ainda por mais 12 cidades e repleta de fazendas históricas, foi o que impulsionou a transformação da construção do século XIX em uma pousada temática.
     Hóspedes e visitantes têm seus passaportes carimbados para uma viagem no tempo ao cruzar as portas do casarão construído em 1836 e que teve entre seus proprietários o Visconde de Rio Preto. Embora todas as suas características originais não estejam mantidas – intervenções arquitetônicas foram feitas ao longo dos anos em diferentes reformas –, os trabalhos de restauração realizados ali, a grande quantidade de mobiliário e objetos de época, alguns deles garimpados em antiquários pela atual proprietária, a empresária Claudia Deville, e eventos especiais garantem o clima.
     Em um passeio pelo interior da casa, o modo de vida dos barões do café vai se revelando pela divisão dos ambientes, na disposição dos cômodos, em pinturas nas paredes e ainda em outros diferentes elementos que sobreviveram às intervenções. Mesmo as técnicas de construção da época podem ser apreciadas através de uma providencial abertura, emoldurada por madeira e vidro, que deixa aparente um trecho da alvenaria de pau-a-pique.
     O arquiteto João Reis – proprietário anterior e responsável pela restauração das construções que integram a Fazenda União, assim como por sua transformação em pousada – ainda realiza obras no local e, eventualmente, faz as vezes de guia, explicando o significado de elementos arquitetônicos e objetos que compõem este roteiro histórico.
     “A Fazenda União representa o colonial brasileiro simples; existem outras fazendas mais suntuosas na região, mas muitas delas acabaram sendo descaracterizadas pelas sucessivas reformas. A União guarda ainda muito de seus elementos originais, embora algumas características na construção demonstrem bem influências de estilos de três épocas diferentes”, explica o arquiteto.
     Sempre que possível, é ele mesmo quem leva os visitantes por um tour no interior do casarão, contextualizando e explicando a utilização de cada objeto – alguns bem prosaicos como cuspideiras (recipientes dispostos nas salas para receber resíduos de fumo mascado) de louça, xícaras com protetores para bigodes, mesas especiais para doces (dotadas de sulcos com água na superfície do tampo de mármore para evitar a invasão de formigas) – e outras comodidades habituais nas casas abastadas do século XIX. Um dos projetos em andamento sob a supervisão do arquiteto é a reunião destas peças pouco comuns em um ambiente a ser batizado como “Sala de Curiosidades”.
     Um dos entusiastas e fomentadores do turismo na região, João anuncia também uma parceria que acaba de ser firmada com a Universidade Estácio de Sá para a gestão do turismo no Vale do Café. “Pela primeira vez, vamos ter profissionais gabaritados para gerir e capacitar todos os envolvidos neste roteiro que é um tipo de turismo único no Brasil, mas que ainda carece muito de profissionalização”, comenta.
     Hoje, além de já contar com uma boa estrutura para hospedagem, a fazenda passa por um projeto para a inclusão de novos espaços de lazer. Estão em construção uma piscina, saunas seca e a vapor e um SPA cuja proposta é disponibilizar tratamentos estéticos com cosméticos à base de café, desenvolvidos por uma empresa do setor. Uma capela, que inclui parte de um altar original de época, também está em fase final de construção.
     Já estão em funcionamento um enorme salão equipado para grandes eventos (casamentos, convenções e outros) erguido no local onde ficava a tulha (espaço destinado ao armazenamento dos produtos produzidos ali para venda e/ou consumo); disponibilização (sem custos adicionais para hóspedes) de 12 cavalos da raça manga-larga para passeios e ainda baias para abrigar animais trazidos de fora; e um memorial afro, com peças originais e reproduções, que divide o espaço da antiga senzala com uma loja que reproduz os armazéns de secos e molhados destinados aos tropeiros, um bar, um espaço para refeições com fogão à lenha e ainda acomodações para hóspedes.
     Na senzala são seis suites, com decoração de estilo rústico assinada por Chicô Gouveia. A estas acomodações se somam outras dez, instaladas na casa sede e decoradas com mobiliário de época. Todos os quartos têm em comum travesseiros e edredons de plumas de ganso, enxoval de algodão egípcio e utensílios do mundo moderno como televisão LCD de 32 polegadas, cofre digital e minibar.
     A gastronomia, um dos grandes atrativos do lugar, também privilegia o café – ali são confeccionados com o produto doces, licores, molhos e outros quitutes, que podem ser servidos em refeições que reproduzem fielmente os banquetes oferecidos pelos barões. Embora o material de pesquisa sobre a culinária da época seja escasso, a consultora gastronômica Rosalina Monteiro dos Reis conseguiu, com famílias sediadas há muito tempo na região, reunir algumas receitas de pratos servidos no dia a dia das fazendas, e ainda nos banquetes, e fez adaptações nas receitas, muitas delas bastante simples, para uma gastronomia mais requintada, mas também com nuances históricas, já que, assim como todos os aspectos da vida dos barões do café, sofre forte influência francesa.
     Aqueles que desejarem a experiência com toda a pompa e circunstância (luz de velas, violinos, laços brancos etc.) devem agendar o ágape previamente, pois a regalia não faz parte dos pacotes básicos de hospedagem ou visitação. Outros adicionais interessantes – como a apresentação de um grupo afro que mostra os hábitos dos escravos e de seus ancestrais africanos enquanto é servido um coquetel com elementos típicos da cultura negra da época, como a cachaça e o pastel de angu – contribuem para a atmosfera histórica da visita também podem ser requisitados na hora da reserva. A Fazenda União celebra ainda outro momento histórico através da gastronomia: a passagem de Alberto Santos Dumont por Rio das Flores. Foi neste município que se realizou o batismo do Pai da Aviação, que tinha a culinária entre seus hobbies, e um banquete com pratos de um cardápio elaborado pelo próprio também pode ser encomendado.
     O Vale do Café é, com certeza, um tipo único de turismo e está bem pertinho daqui e a Fazenda União, onde um dos períodos mais interessantes do Brasil colonial pode ser visto e sentido em seus detalhes cotidianos, é um bom ponto de partida para este roteiro histórico.
Fazenda União
Est. do Abarracamento, Km 3,5 - Abarracamento - Rio das Flores
(24) 2458-1701 / 9915-1210
www.fazendauniao.com.br

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