Getúlio Vargas, em um de seus costumeiros passeios pela Av. Koeler; ao fundo, Gregório Fortunato, guarda costas do presidente, que teria sido o mandante do disparo contra Carlos Lacerda, mas que atingiu e matou o Major Rubens Vaz. Lacerda ficou apenas levemente ferido de raspão. O atentado, conhecido como “O Crime da Rua Tonelero”, ocorreu em 5 de agosto de 1954

Além da coleção de filmes, o acervo reúne documentos como o certificado de censura para o cinejornal Revista da Tela

O presidente Juscelino Kubitscheck, que mantinha laços de amizade com Cesar Nunes, durante a inauguração do obelisco de Petrópolis, em 1957, no centenário da fundação da cidade

As atrizes de Hollywood Linda Darnell e Zsa Zsa Gabor, no baile de carnaval do Hotel Quitandinha, em 1954, foram duas entre as muitas celebridades internacionais registradas pelas câmeras da produtora

O burburinho causado pela visita do então galã e cantor Jerry Adriani a Petrópolis, nos anos 1970, para show de aniversário da Radio Imperial, na Praça Paulo Carneiro, é um dos exemplos de cine reportagem do acervo

O casal Elza Soares e Mané Garrincha, no antigo Bar Bom Beurê, na Rua 16 de março, também não conseguiu escapar das lentes em sua estada na cidade

Esportes inusitados como o Autobol entravam também na pauta da produtora; na foto, o clássico Fla x Flu, em campo não identificado

Assim como os filmes, os cinejornais também eram divulgados em cartazes nas portas dos cinemas; neste exemplar caprichado, o anúncio da inauguração de Brasília, evento que teve cobertura intensa de Cesar Nunes (Foto: divulgação)

Além de transportar os equipamentos de áudio para a gravação das matérias, a Kombi do departamento de som da produtora fazia anúncios pela cidade (Foto: divulgação)

A polêmica demolição do Palácio Monroe, sede do antigo Senado Federal no Rio de Janeiro, nos anos 1970, teve cobertura completa pela produtora

Lucio Schmitt, cinegrafista da Produções Cinematográficas Cesar Nunes, hoje trabalha como taxista no Rio de Janeiro e já gravou depoimentos para o documentário Petropolis – Uma joia entre montanhas

Mesmo que em condições precárias de armazenamento, equipamentos e filmes do acervo apresentam bom estado de conservação e podem ser utilizados em exibições

Marcio Nunes, herdeiro do acervo, e Alexandre Pena, diretor do documentário, realizam um importante trabalho para a preservação das obras cinematográficas; entre suas iniciativas, o pedido de classificação do acervo pelo IPHAN como patrimônio imaterial da cidade de Petrópolis



Reprodução das imagens: Henrique Magro


Capa

Breve em um cinema perto de você

A história recente de Petrópolis é contada em imagens raras do acervo Cesar Nunes

     Divulgar e preservar um precioso acervo audiovisual, que reúne registros históricos da cidade entre os anos de 1940 e 1982, é o objetivo do documentário Petropolis – Uma jóia entre montanhas (com a grafia do nome da cidade assim mesmo, sem o acento). O projeto nascido da parceria entre Marcio Nunes, projetista e neto do jornalista e fundador da empresa Produções Cinematográficas Cesar Nunes, e Alexandre Pena, profissional de cinema e TV que assina a direção do longa metragem de 85 minutos, recebeu recentemente a aprovação pela Lei Rouanet e encontra-se em fase produção, com estreia prevista para 2014.
     O filme apresenta imagens colhidas ao longo de mais de setenta anos, de 1940 a 2013, e mescla trechos de obras do acervo com entrevistas realizadas nos últimos anos com integrantes da equipe da produtora – como Cid Moreira, locutor; Sílvio de Carvalho, redator; e Lucio Smitch, cinegrafista – e com personalidades retratadas nos filmes ou ligadas a Petrópolis e ainda com especialistas em conservação de audiovisual, além de cenas atuais do Centro Histórico que recriam os planos antigos registrados nas películas originais.
     Cesar Nunes foi um jornalista pioneiro – nascido em Santa Maria Madalena, na região central do Estado do Rio de Janeiro, e radicado em Petrópolis desde os 11 anos de idade – que em 1940 iniciou sua carreira na produção cinematográfica. Depois de passar pelas redações de diversos periódicos da cidade, ocupando diferentes cargos da reportagem à direção geral, teve seu primeiro contato profissional com o cinema como projecionista, em um período em que a produtora limitava-se a projetar filmes produzidos por terceiros nas praças públicas da cidade.
     Produtor da “Revista da Tela”, cine jornal com edições semanais sobre Petrópolis, Rio de Janeiro (ainda capital) e Niterói, foi também realizador de documentários, comerciais e filmes institucionais para grandes empresas, rodados em diferentes pontos do país e também no exterior. Hoje em posse de seu neto Marcio Nunes, o acervo é composto por mais de 1,8 mil filmes em película de 16 mm, acondicionados em 470 latas, além de fotografias, documentos, equipamentos e roteiros inéditos escritos por César.
     Deste total, 520 filmes são sobre Petrópolis, onde a produtora foi fundada e permaneceu por todo o tempo em que esteve em atividade. Além da sede no Edifício Cinda, no Centro, um outro escritório no Rio de Janeiro, administrado por um de seus filhos, Renato Nunes, servia de apoio às produções.
     Os números ainda impressionam, mas já foram bem mais expressivos. Depois da morte precoce de Renato, aos 34 anos, em 1989, o patriarca faleceria no ano seguinte, a família desativou os escritórios da produtora e foi obrigada a se desfazer de grande parte do acervo, já que não tinha como acondicionar um número tão grande de latas metálicas, equipamentos e outras peças. Mais de 750 latas de filmes foram vendidas por Paulo Nunes, pai de Marcio e um dos cinegrafistas da produtora, para a Associação Cultural do Arquivo Nacional (ACAN), que, posteriormente, doou as obras para o Arquivo Nacional.
     Em 2007, foram vendidos 100 filmes para a Prefeitura de Petrópolis e ainda hoje, eventualmente, Marcio é obrigado a vender exemplares isolados para poder custear a conservação do acervo – o que exige, além da doação de tempo, a utilização de produtos específicos. As dificuldades encontradas pelo herdeiro para manter adequadamente os rolos ainda preservados pela família Nunes – que hoje se encontram na garagem de sua casa, no bairro do Valparaíso, sem controle de climatização e expostos a todo tipo de agentes causadores de deteriorização – foi um dos principais incentivos para a produção do documentário. “Cheguei a pensar em vender o lote todo para alguma instituição pública ou privada, mas, em 2010, conheci o Alexandre, que apresentou a ideia de produzir o documentário como forma de viabilizar a manutenção dos filmes em condições adequadas aqui mesmo em Petrópolis, talvez até com a criação de um instituto próprio, que possibilite, de forma acessível, a consulta e a utilização dos filmes. Nosso objetivo principal é lançar uma luz sobre o acervo”, observa Marcio.
     Ainda que em condições precárias de armazenamento, os filmes e equipamentos sobrevivem ao tempo e encontram-se em bom estado, com boa qualidade para exibição. As películas estão passando agora por um processo de digitalização e ainda de decupagem para que, através de pesquisas minuciosas, sejam identificados os personagens retratados, datas e contextos em que as obras, com tempos de duração bastante variados, foram realizadas.
     De Petrópolis, guardam imagens de acontecimentos de grande importância para a cidade e também de fatos triviais. A inauguração do Obelisco dos Colonizadores pelo então presidente Juscelino Kubitschek, por ocasião do centenário da fundação da cidade, em 1957; e o registro de corridas de automóveis no Centro e da presença do casal Elza Soares e Garrincha no antigo Bar do Maurício, na Rua 16 de Março, ambas imagens ainda sem a identificação de datas, são exemplos da variedade do material produzido pela Cesar Nunes Produções Cinematográficas.
     As muitas imagens capturadas em outras partes do Brasil mostram, por exemplo, a aglomeração de 500 mil pessoas no Largo da Carioca, no Rio de Janeiro, em 4 de outubro de 1945, para exigir o pronunciamento de Getúlio Vargas sobre sua candidatura à presidência; a chegada, em 1957, do presidente norte americano Dwight Eisenhower ao Rio, onde foi recebido pelo presidente Juscelino Kubitscheck no Arsenal da Marinha; cenas inéditas gravadas no dia da morte da cantora Carmem Miranda, em 5 de agosto de 1955; e partidas da seleção brasileira de futebol na Copa do Mundo de 1962, sediada pelo Chile. Imagens de jogos de futebol, inclusive, são destaque no acervo da produtora.
     Conhecido como o “cinegrafista das autoridades” - por seu livre trânsito com sucessivos presidentes da república, assim como governadores e prefeitos de diferentes regiões do país -, Cesar Nunes nunca teve ambições políticas e chegou a recusar cargos importantes, trocando as ofertas de posições privilegiadas nos governos, muitas vezes oferecidas, pelo direito de filmar aquilo que bem lhe aprouvesse.
     Graças a esse desprendimento, 40 anos de memória registrada em audiovisual estão à disposição de pesquisadores, jornalistas, estudantes e de todos que queiram realizar consultas. Com a produção do documentário, espera-se gerar um maior interesse pela coleção e talvez até mesmo por um patrocínio que possibilite sua conservação em condições adequadas. “Quando vi o acervo pela primeira vez, em 2010, me vi obrigado a fazer o filme e desde então estamos, eu e Marcio, juntando as peças deste grande quebra-cabeça”, afirma Alexandre Pena.
     A figura usada pelo diretor do documentário para definir o empreendimento a que ambos vem se dedicando nos últimos anos se encaixa perfeitamente. A tarefa não é nada fácil e envolve um minucioso trabalho de pesquisa na etapa da pré-produção para que se possa catalogar e destrinchar não só o material impresso nas películas – identificando datas, personagens e o contexto presente em cada um dos filmes –, mas também a rica história de seu realizador.
     “A empresa era muito grande, talvez a maior do setor na época, com grande força de produção e enorme influência política. Ao mesmo tempo, dá para perceber que o Cesar Nunes sempre foi um apaixonado por cinema; existem roteiros de ficção que não foram filmados e também documentários realizados por ele, independentemente dos contratos que mantinha com os governos do Rio, Petrópolis e Niterói, que demonstram claras influências felinianas e do grande cinema. Percebe-se nesses filmes que ele não era um mero repórter, tinha a veia poética, abordava com mão leve assuntos delicados. Fazia com paixão um cinema documental, porém autoral”, revela Alexandre.
     A ideia central do documentário é contar várias histórias a partir daquelas contadas nos filmes do acervo. O filme faz um grande mosaico sobre a população local, sobre a fundação da cidade e os dias de hoje. A Era Vargas, a ditadura militar, a história da criação de Petrópolis e mesmo a colonização do Brasil, entre muitos outros, são temas explorados em Petropolis – Uma jóia entre montanhas, uma obra essencialmente de pós-produção, com 80% das imagens colhidas entre os filmes da Cesar Nunes Produções.
     Além da produção do documentário, que terá 200 cópias em DVD para a distribuição em escolas municipais de Petrópolis, outras ações visam à preservação do acervo Cesar Nunes. O trabalho de decupagem e pesquisa imagens que vem sendo realizado por profissionais especializados irá permitir a catalogação completa dos filmes para a inserção no site dedicado à coleção – o que facilitará bastante futuras pesquisas sobre as imagens. Outra medida importante tomada por Marcio e Alexandre em prol do acervo foi a requisição, atualmente em trâmite, junto ao IPHAN - Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, para sua classificação como patrimônio imaterial da cidade de Petrópolis.
     Veja mais sobre o Acervo Cesar Nunes e o documentário Petropolis – Uma joia entre montanhas em: www.acervocesarnunes.com.br www.facebook.com/petropolis

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