A Igreja Matriz, construída quase totalmente com pedras retiradas do Rio Preto, se impõe do alto da principal rua de São José das Três Ilhas, e impressiona pela magnitude

Em todo o percurso do Caminho Novo encontram-se totens e alguns letreiros explicativos, como este na via de Secretário para Inconfidência que apresenta o mapa da Estrada Real

O muro de arrimo de pedra com uma mina d’água hoje desativada, localizado antes da chegada à Inconfidência, na altura da localidade de Fagundes, servia de ponto de descanso onde os tropeiros e seus cavalos bebiam água

Uma rápida parada no caminho para Sebollas: João Braga de Andrade, proprietário da Montanha Expedições, posa ao lado do jeep que pilotava, transportando a nossa equipe

Logo na entrada da Fazenda das Ruínas, o que restou da construção que um dia abrigou a Venda da Gaiafa – estabelecimento fundamental para que os viajantes se abastecessem de alimentos e água

A antiga praça de Inconfidência ainda mantém em bom estado o bebedouro que servia aos tropeiros de passagem pela Freguesia de Sebollas

Hoje, uma grande praça com áreas de lazer repouso construída nas proximidades da Igreja Matriz de Santana, oferece entretenimento aos moradores do Distrito

Bem próximo à Igreja, localiza-se um grande pátio que dá acesso ao Museu Sacro Histórico de Tiradentes, onde estão reunidas imagens sacras do século XVIII, farda militar do século XIX e documentos, entre outras peças, além de ossos atribuídos ao Mártir da Inconfidência, que residiu por um período na Freguesia de Sebollas

A Igreja Matriz de Santana é uma construção de 1858 e, embora bem preservada, seu interior foi quase totalmente modificado, restando muito poucos elementos originais da época

Saindo de Inconfidência em direção à Queima-Sangue, os tropeiros tinham a Fazenda Rancho Queimado como um ponto de parada

Por todo o Caminho Novo encontram-se capelas de fazenda como a da Rancho Queimado

No Centro de Queima Sangue, sede do 2º Distrito de Paraíba do Sul, viajantes encontram, segundo o Guia para Caminhantes da Estrada Real, um lugar ideal para descanso, assim como faziam os tropeiros da época do Império

Foto: João B. de Andrade
Santo Antônio da Encruzilhada é um dos simpáticos lugarejos localizados no caminho para Monte Serrat

Foto: João B. de Andrade
Em Salutaris, com acesso pela mesma estrada, um bom ponto de parada para excursionistas é o Parque das Águas Minerais Salutaris, com suas fontes de água alcalina, magnesiana e ferruginosa; além de matar a sede, ali é possível também utilizar gratuitamente os bem cuidados sanitários e áreas de lazer e descanso

A chegada a Monte Serrat (Comendador Levy Gasparian – RJ), distrito limítrofe ao município mineiro de Simão Pereira, é brindada pela bela vista da Pedra do Paraibuna

A paisagem de Monte Serrat, com o Registro Régio do Paraibuna (Simão Pereira - MG) ao fundo, é uma das mais bonitas de todo o percurso

Em péssimo estado de conservação, O Registro do Paraibuna, merecia mais atenção das autoridades competentes

Na Estrada que liga Monte Serrat a Rio das Flores, uma parada para registrar a sede de uma típica residência dos Barões do Café, hoje também em estado de abandono

A Fazenda da Prosperidade, uma das poucas com sede restaurada, no caminho de terra para São José das Três Ilhas

Volta ao passado: a Av. Antônio Bernardino de Barros, com seu casario colonial conservado graças aos esforços da comunidade, parece surgir como por encanto ao fim da estrada que leva a São José das Três Ilhas; a impressão é de que o tempo parou por ali

Ao redor da Matriz, encontram-se cinco construções como esta, conhecidas como passos, que representam 14 etapas da Paixão de Cristo ao longo da Via Crucis

O bebedouro para os tropeiros, fabricado no Rio de Janeiro no século XIX, ainda jorra e reforça a impressão de uma visita a tempos remotos desta comunidade de Belmiro Braga





O estilo arquitetônico das casas (com a pintura estalando de nova!) e o calçamento pé-de-moleque da rua principal de S.J. das Três Ilhas fazem lembrar o também mineiro e histórico município de Tiradentes

Nos últimos anos, o interior da Matriz vem passando por testes que buscam os elementos originais da pintura – uma das etapas previstas no processo de restauração

O carinho da comunidade com a Igreja Matriz, e sua consciência acerca da necessidade de preservação deste patrimônio histórico, pode ser percebido pelos cuidados que dispensam à toda área ao redor da construção

Abençoada por Deus e bonita por natureza: de uma das janelas do segundo pavimento da Igreja, a vista do Pátio de entrada com os contornos suaves dos morros de São José das Três Ilhas ao fundo

Fotos: Henrique Magro


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Passeio pela história

Caminhos que tem muito para contar

     Aliar atividades culturais às de lazer pode ser mais do que unir o útil ao agradável, a prática pode também se traduzir em gratas surpresas. Foi justamente o que aconteceu à equipe da Estações de Itaipava ao realizar um passeio até São José das Três Ilhas, localidade pertencente ao município de Belmiro Braga (MG), passando por municípios fluminenses e mineiros vizinhos a Petrópolis e que também guardam lembranças da rica história de nosso país. Para quem acredita que a vida interiorana – com todos os predicados que lhe são inerentes: tranquilidade, ar puro, janelas e portas sempre abertas, população amistosa e sempre disposta a dois bons dedinhos de prosa e por aí vai – está muito distante, nos cafundós desse Brasilzão, informamos: ela está bem aqui pertinho e foi o atrativo extra da nossa expedição.
     Com um pouco de disposição, partindo de Itaipava, dá para conhecer em um único dia distritos ou localidades que integram municípios dos estados do Rio de Janeiro e de Minas Gerais que fazem parte do Caminho Novo da Estrada Real ou que, pelo menos, sofreram sua influência direta. E o melhor: que não se transformaram (pelo menos não ainda) em agitados centros turísticos. Para chegar a nosso destino final, paramos em Inconfidência e Queima-Sangue, em Paraíba do Sul (RJ), e ainda no município mineiro de Simão Pereira.
     Rodamos de carro um dia inteiro, por um percurso repleto de fazendas históricas e paisagens bucólicas, alternando estradas de asfalto e de terra. Cansativo, mas compensador. Com alguns dias e muita disposição a mais, é também possível percorrer o mesmo caminho de bicicleta ou a pé – o que costumam fazer os companheiros que tivemos nesta jornada João Braga de Andrade, proprietário da Montanha Expedições, empresa localizada em Araras e especializada em jeep tour e cicloturismo, e Amauri Telles de Menezes, andarilho, condutor de turismo e pesquisador informal da história da Estrada Real. Muito gentil e alegremente, como bons aventureiros que são, ambos nos guiaram por es­sas paragens contando detalhes interessantes de cada etapa.
     Nosso roteiro histórico foi iniciado por Inconfidência, 3º distrito de Paraíba do Sul e antiga Freguesia de Santana de Sebollas, a cerca de 30 quilômetros do Parque Municipal de Petrópolis, em Itaipava, com acesso por estrada que sai de Secretário, no distrito petropolitano de Pedro do Rio. Um dos trechos mais ricos em história de todo o circuito, o distrito sul-paraibano mantém o Museu Sacro Histórico de Tiradentes, inaugurado em 1972. A instituição guarda em seu acervo ossos atribuídos ao mártir e que teriam sido descobertos em escavações realizadas um ano antes na antiga Capela de Santana de Sebollas, seguindo orientações de documentos antigos, especialmente o Livro Tombo (registro redigido pelos párocos para lançamento de atos e fatos significativos, acontecimentos históricos e procedimentos administrativos de maior relevância) da Igreja de Santana.
     “Não se pode afirmar com toda a certeza que os ossos encontrados são realmente de Tiradentes, pois não foram realizados testes para a comprovação. Mas em sua sentença de morte consta que após o esquartejamento do corpo, a cabeça deveria ser levada para Ouro Preto e o corpo separado em quatro partes que deveriam ser distribuídas ao longo do Caminho Novo”, explicou Amauri.
     Mesmo sem a comprovação científica, fato é (e diversos registros históricos evidenciam a importância do lugar na vida do alferes) que a Freguesia de Santana de Sebollas era parte integrante do Caminho Novo (concluído em 1707 para o trânsito das tropas entre o centro do Rio de Janeiro à cidade mineira de Ouro Preto) e residência de Tiradentes enquanto comandou um destacamento da patrulha da via. Registros do site do distrito (www.sebollas.com.br) dão conta ainda de que foi ali que o quarto superior esquerdo do corpo do mártir foi exibido, em um ato oficial para sua desonra, e dias depois sepultado pelo padre sob o altar-mor da antiga capela do povoado. Consta também que este teria sido o único sepultamento digno a que teve direito.
     O acervo do museu é composto ainda de peças descritas como de propriedade de Tiradentes: uma pequena coroa de prata e uma imagem sacra que teriam sido doadas por ele à capela e uma maleta e objetos para trabalhos odontológicos dados à dona da Fazenda Sebollas, Dona Ana Mariana Barbosa. Também se encontram ali imagens sacras (século XVIII), alfaias, farda militar (século XIX) e documentos.
     No caminho que separa Inconfidência – ou, como muitos preferem, Sebollas – de Queima-Sangue (localidade assim conhecida por ser uma parada na jornada pelo Caminho Novo onde os tropeiros cauterizavam as eventuais feridas sofridas pelos animais durante a jornada), em estrada de asfalto também localizam-se fazendas e marcos históricos. Um deles é a Fazenda Rancho Queimado, construída em 1840, que servia como ponto de parada dos tropeiros.
     Na etapa seguinte, saindo de Queima-Sangue, atravessamos, por estrada vicinal e nem sempre em boas condições para o tráfego de automóveis sem os recursos de um 4x4, os lugarejos de Santo Antônio da Encruzilhada e Salutaris, onde se localiza um bem cuidado parque. “O ideal é que turistas sejam sempre acompanhados por um guia experiente, seja qual for o percurso e o meio de transporte; no caso de veículos motorizados, é importante que tenham condições de enfrentar atoleiros e outros percalços que possam surgir pelo caminho”, aconselha João.
     Depois de percorrer pouco mais de 32 quilômetros nesta estrada, que passa pelo Centro de Paraíba do Sul, chegamos a Monte Serrat, localidade do município de Comendador Levy Gasparian (RJ), que faz limite, por uma ponte sobre o rio Paraibuna, com a cidade de Simão Pereira (MG). Ali se encontra, infelizmente em péssimo estado de conservação, a bela construção de pedra que abrigou o Registro Régio do Paraibuna. Os Registros, espécies de postos alfandegários situados nas divisas estaduais, eram pontos de fiscalização estabelecidos pela Coroa no interior do território brasileiro e que tinham a função de verificar a legitimidade das transações comerciais e dos documentos pessoais dos viajantes, além da autoridade para cobrar os tributos referentes às mercadorias comercializadas entre as províncias, pedágios e outros itens. Tinham ainda poder para deter aqueles que não satisfizessem às exigências legais.
     Com um misto de admiração pela beleza arquitetônica do Registro e perplexidade pelo total abandono a que foi relegada esta construção de tamanha importância histórica, seguimos via­gem pela estrada asfaltada que liga Monte Serrat ao município de Rio das Flores (RJ). Dali, na altura da localidade de Três Ilhas, atravessamos uma pequena ponte, para percorrer 9 Km em estrada de terra ladeada por propriedades rurais e que conduz ao distrito mineiro de São José das Três Ilhas. Durante esta nova eta pa, breves paradas para admirar entradas e sedes das antigas fazendas de café da região que um dia representaram o esteio da economia nacional.
     A chegada a nosso destino final foi de total deslumbramento. A rua principal, Av. Antônio Bernardino de Barros, parece surgir do nada ao fim da estrada de terra e lembra bastante aquelas localizadas no Centro Histórico de Tiradentes (MG), especialmente pelo pé-de-moleque que a reveste e pelo casario em estilo colonial, tombado pelo Patrimônio Histórico Estadual de Minas Gerais e muitíssimo bem conservado pelos moradores. Isso sem falar na aura de encantamento que envolve a atmosfera dali. Encantadora também é a Igreja Matriz, uma enorme construção em estilo neorromânico cuja pedra fundamental foi lançada em 1878, dez anos antes da abolição da escravatura no Brasil.
     Com as obras custeadas pelos barões do café da região, a igreja, construída quase totalmente com pedras (a parte superior das três torres foi terminada com tijolos) retiradas do Rio Preto, que corre ali mesmo, começou a ser erigida por escravos e terminada por operários livres, o que acabou gerando controvérsias a respeito da finalização com diferentes materiais.
     De acordo com Geraldo Guedes Coimbra – antigo morador do local que integra o conselho paroquial da Matriz, um dos responsáveis por sua conservação e ainda cicerone oficial para os que a visitam, existem duas versões. “Muitos atribuem a substituição das pedras na construção ao término da mão de obra escrava, mas essas pequenas partes no alto das torres foram construídas em tijolos para que ficassem mais leves. O projeto original previa, inclusive, a construção de quatro e não de três torres frontais, mas chegou-se à conclusão de que o peso não seria suportado, tanto é que existem rachaduras que apareceram pouco depois do término da construção”.
     Certo é, como prosseguiu explicando Geraldo, que a abolição também acabou por ocasionar a falta de recursos para o término da construção, uma vez que seu principal patrocinador, o Barão de São José Del Rey – Antônio José Bernardino de Barros, filho de Antônio Bernardino de Barros, fundador do lugar – foi à falência com o fim da escravidão. Atualmente, um projeto para a completa restauração da Matriz, orçado em aproximadamente R$ 4 milhões, está em vias de se concretizar, dependendo, é claro, da liberação da verba pelos patrocinadores, entre eles o grupo Votorantim.
     Enquanto isso, os cerca de 200 moradores do Distrito – que chegou a contabilizar 3,5 mil habitantes no início do século XX, no auge do ciclo do café – se mobilizam, gerando ações que visam ao turismo, para manter viva a história do lugar. Entre elas, a manutenção dos prédios históricos, festivais de música e apresentações do coral da igreja, composto por 20 pessoas. “O maior coral do mundo, se pensarmos proporcionalmente ao número de moradores”, comentou, com bom humor, o “guardião da matriz” e um dos coordenadores dos projetos mantidos com recursos, agora repassados diretamente à comunidade, da Lei Robin Hood, de âmbito estadual, criada para incentivar o investimento em áreas como educação, saúde, agricultura, patrimônio cultural e preservação do meio ambiente.
     Em São José das Três Ilhas ainda é assim: todos participam do que é importante para a comunidade e se orgulham ao relatar em detalhes as características de seu universo. Basta puxar uma prosa despretensiosa com qualquer morador que encontrar pela rua para comprovar a afirmativa. Mais do que servir para revelar sítios históricos e paisagens magníficas, o passeio impressionou por proporcionar o contato com costumes que pareciam ter sobrevivido apenas nos mais recônditos lugarejos do país. E encontramos esse estilo de vida bem aqui pertinho. Não tem preço.


Fontes: Guia da Estrada Real Para Caminhantes (Raphael Olivé – Editora Estrada Real – 1999)
www.rotaestradareal.com.br
www.sebollas.com.br
www.paraibanet.com.br

Agradecimentos especiais:
João Braga de Andrade :
(24) 2225-2069 | 9266-8150
contato@montanhaexpedicoes.com.br
Amauri Antonio Telles de Menezes


PARA REPOR AS ENERGIAS
Como ninguém é de ferro, uma parada para almoço ou lanche é sempre providencial; se a viagem se estender por mais de um dia, uma cama confortável é item imprescindível. Confira algumas opções.
Para comer:
Bistrô da Valéria
Rua Visconde de São Bernardo, Praça da Feira – Centro de Secretário (Petrópolis-RJ)
(24) 2228-1445
www.bistrodavaleria.com.br

Contemporâneo
Praça Garcia Paes Leme 13, Centro (Paraíba do Sul/RJ)
(24) 2263-2592
www.contemporaneorb.com.br

Restaurante Sinhá (com reserva antecipada de dois dias) - Av. Antônio Bernardino de Barros, 239 – São José das Três Ilhas (Belmiro Braga/MG) - (24) 9297-6497 | (32) 3276-1504


Para comer e pernoitar:
Hotel Fazenda Santa Helena (Simão Pereira/MG)
(24)2254-2121 | (32) 3799-2618
www.hotelfazendasantahelena.com


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