Foto: SoniaRO

Foto: SoniaRO
SoniaRO

Álvaro Goulart

Eliane Sciamarella – Conjunto com 6 xícaras

Foto: Ivo Ferreira
Ivo Ferreira – Peças inspiradas em instrumentos musicais indígenas

Foto: Ivo Ferreira
Regina Duarte

Sylvio Flores

Arthur Bosísio

Patrícia de Souza

Maria Luiza Lacerda

Lydia Sebastiany

Jane Maia Weinberg

Jean Ruffier

Na mostra que celebrou a criação do coletivo Arte Cerâmica em Petrópolis: Maria Luiza Lacerda, Álvaro Goulart, SoniaRO, Lydia Sebastiany, Arthur Bosísio, Patrícia de Souza, Sylvio Flores, Ivo Ferreira, Jean Ruffier e Regina Duarte

Fotos: Henrique Magro


Especial

Tudo junto e misturado

Artistas formam coletivo para o fomento da arte cerâmica em Petrópolis

     Houve uma época, pelos idos da década de 1970, em que Petrópolis era conhecida por sua prolífera produção de objetos moldados em argila e chegou a receber a alcunha de “cidade da cerâmica”. Por toda a União e Indústria, em especial no trecho que abrange o Distrito de Itaipava, espalhavam-se lojas de todos os portes dedicadas à comercialização desses produtos. Agora, assistimos ao que parecem ser os primeiros sinais de um movimento de retomada desta fértil manufatura.
     Inspirados pela tradição da produção de cerâmica na cidade e pelo exemplo do município paulista de Cunha, maior centro ceramista do país, 12 artistas radicados aqui formaram o primeiro coletivo petropolitano, o Arte Cerâmica em Petrópolis, dedicado a esta modalidade artística. O objetivo primordial é valorizar e desenvolver a atividade localmente para tornar a cidade uma referência no estado do Rio de Janeiro; mas as aspirações vão ainda além.
     “Não é um grupo voltado para o próprio umbigo, seus próprios ateliês e produção; o que queremos é a inserção social através da cerâmica”, avalia Álvaro Goulart, que – junto com Arthur Bosísio, Eliane Sciamarella, Ivo Ferreira, Jane Maia Weinberg, Jean Ruffier, Lydia Sebastiany, Maria Luiza Lacerda, Patrícia de Souza, Regina Duarte, SoniaRO e Sylvio Flores – integra o coletivo.
     Na prática, os artistas se propõem a realizar oficinas para alunos de escolas públicas e membros de comunidades carentes da região; buscar parcerias nos âmbitos público e privado, para um maior fomento da atividade; promover congressos, seminários e outros eventos; e ainda promover a exposição e a comercialização da produção local. As ações, de acordo com as diretrizes do coletivo, servem todas ao mesmo propósito: “retomar e fortalecer a tradição ceramista de Petrópolis e fazer da cidade polo reconhecido de produção de cerâmica artística, que se constitua em forte atrativo turístico e fator de geração de trabalho, emprego e renda”.
     SoniaRO, que costuma reunir para modelagem e queima de peças filhos de amigos e de trabalhadores das redondezas de seu ateliê, em Pedro do Rio, acredita que existem potenciais artistas ainda não descobertos entre esses jovens. “Notamos que há um interesse muito grande por parte deles, que normalmente ficam maravilhados com todo o processo de fabrico das peças, e muitas vezes percebemos que estes meninos e meninas têm dons artísticos, mas não sabem como desenvolvê-los”.
     Para os convênios que pretendem firmar, os artistas do coletivo se espelharam na cidade de Cunha, que recebe incentivos da Prefeitura através de programas desenvolvidos especificamente para a produção da arte cerâmica e onde foi fundado o ICCC (Instituto Cultural da Cerâmica de Cunha) para a pro­moção de intercâmbios com outros centros e ins­tituições educacionais voltados para a pesquisa nas áreas da cerâmica artística e artesanal. “Não que­remos ser iguais, mas sim seguir o exemplo desta experiência inédita e bem sucedida”, declara Álvaro.
     Sob este aspecto, é importante sublinhar que copiar os vizinhos paulistas seria mesmo impossível; especialmente pelas características geográficas da serra fluminense, algo que contribuiu para a idealização do Arte Cerâmica em Petrópolis. Ivo Ferreira, um dos principais artífices da ideia explica: “a vontade de materialização do grupo já existia no subconsciente de todos e há tempos já conversamos sobre a necessidade de juntar os ceramistas, uma vez que aqui existe uma grande tendência à dispersão pela distância que separa os ateliês; hoje, felizmente, chegamos à formação de um grupo bem coeso e animado”.
     A tarefa não é fácil. Para começar, é necessária uma total interação entre os membros da coletividade; mas, pelo entrosamento que demonstram, parece que o dever de casa básico foi realizado a contento. Patrícia de Souza sintetiza bem o espírito da equipe e a importância de sua formação. “É a primeira vez que me sinto realmente uma ceramista, porque estou integrada a um grupo de pessoas que realizam a mesma atividade, cada um com a sua diversidade, com a sua arte, mas com muita harmonia; isso vai ser muito bom para mostrar que aqui tem um bom trabalho de cerâmica, com diferentes interferências e perspectivas”.
     São estas diferenças que dão frescor à nova onda ceramista que se pretende criar na cidade. Se no passado as peças produzidas e comercializadas aqui tinham caráter mais comercial do que artístico – a grande maioria das lojas oferecia objetos utilitários como pratos, jarras, sopeiras e outros tantos que ain­da são encontrados nas grandes fábricas especializa­das e que deram início ao movimento de então –, ho­je a proposta é privilegiar a arte presente nas peças. Ainda que praticamente todos os membros do grupo incluam utilitários entre suas obras. “Temos também uma produção voltada para este segmento, mas com intervenções artísticas, em que as peças não se repetem. Além disso, a proposta de abrir os ateliês para que as pessoas comecem a conhecer e a entender o processo todo”, observa Regina Duarte.
     As visitas programadas que já existiam em alguns ateliês mesmo antes da fundação do coletivo (o que aconteceu em outubro deste ano e foi celebrada com uma mostra dos artistas no Espaço Cerâmica Contemporânea Brasileira, em Itaipava) são apenas parte da programação de eventos. Mas a divulgação do processo de fabrico das peças para o público leigo é um dos principais propósitos do Arte Cerâmica em Petrópolis.
     “O valor deste trabalho só começa a ficar claro para as pessoas quando elas passam a conhecer todo o processo, que exige do artista, inclusive, um grande entendimento de elementos da física e da química. E para acumular este conhecimento são fundamentais pesquisas e experimentos constantes, além da troca permanente de informações entre os ceramistas”, afirma Lydia Sebastiany. Para Jane Maia Weinberg, o intercâmbio é vital: “a troca de experiências nutre os artistas e influencia diretamente em suas produções individuais.”
     Para o bem de toda a criação artística da cidade e de seus apreciadores, que venham mais coletivos!

Para contatos com os artistas:
www.arteceramicaempetropolis.com.br


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