Pontapé inicial: a marcação correta do sentido do corte para o shape é fundamental para um bom resultado final
Foto: divulgação


A confecção do headstock (ou cabeça,onde as cordas do instrumento são fixadas por tarraxas)é realizada por meio de cortes em curva, feitos com serra copo
Foto: divulgação

Xodó do luthier, Lucy, sendo confeccionada com corpo em muiracatiara e freijó. A tupia é a ferramenta utilizada para fazer as cavidades na madeira e dar um acabamento boleado

Como retoque final, Luiz Felipe realiza o alinhamento e o nivelamento dos trastes

Rosie, uma citação à canção Wholelotta Rosie, do AC/DC, é o trabalho mais recente; toda em cedro e com escala em ipê, é semelhante à SG da Gibson, modelo preferido do guitarrista Angus Young

Reaproveitar, recondicionar e repaginar instrumentos são também uma paixão do luthier, queconstruiu um baixo a partir de sobras da matéria prima de Lucy ecomo braço aproveitado de um antigo baixo Magnus

O gosto pela experimentação fica evidente na oficina de Luiz Felipe, que costuma testar diversos modelos de captadores, ferragens e outros elementos: “cada modelo combina com um determinado componente”, justifica

Em projeto original da Gibson, medidas, shape e esquema padrão da Gibson Les Paul, a preferida da maioria dos guitarristas


Fotos: Henrique Magro

Hobby

Oficina de som



     Colecionar é fácil, mas produzir o próprio objeto de interesse para elevá-lo à categoria de relíquia exige muito mais. Habilidade, talento e criatividade são alguns dos predicados necessários aos que resolvem encarar a empreitada. Em se tratando de um luthier, devem-se juntar a estas qualidades o perfeccionismo e, sobretudo, o domínio dos instrumentos em todas as suas minúcias.
     A paixão pela música, especialmente pelo rock’n’roll e suas eletrizantes guitarras, foi o que impulsionou o carioca de Copacabana, radicado em Petrópolis desde 1979, Luiz Felipe de Oliveira, mesmo sem qualquer experiência adquirida em cursos ou na aprendizagem formal do ofício com profissionais, a montar em sua casa um espaço para a fabricação artesanal do instrumento.
     “Nasci na década de 60, quando o rock estava explodindo, e sempre gostei de guitarra; fiz aulas, tocava e cheguei até a ter uma banda de garagem com amigos. Com o passar do tempo, entretanto, descobri que apreciava mais ainda a parte estética do instrumento do que propriamente seu som”, conta.
     Curioso por natureza, desde criança Luiz Felipe tinha o hábito de desmontar aparelhos para ver como funcionavam e nutria especial interesse por trabalhos realizados em madeira. Com as tendências e o entusiasmo aliados, não deu outra; a união da fome com a vontade de comer foi, há sete anos, o impulso para que fabricasse seu primeiro instrumento: uma guitarra de pequenas dimensões para o filho, então com três anos de idade.
     Como bom autoditada, o hoje experiente luthier foi buscar em pesquisas na internet, e na troca de informações com amigos e profissionais, o conhecimento técnico que faltava para iniciar sua produção. Depois da mini guitarra dada como presente de Natal ao pimpolho, não parou mais. A intenção era fazer cursos para que pudesse aperfeiçoar a prática, mas a inexistência de escolas do gênero no Rio de Janeiro alteraram os planos.
     O afã, contudo, permaneceu intacto. Os passos seguintes foram a conquista de conhecimentos acerca de matérias necessárias ao ofício, como a eletrônica, e a busca por fabricantes e comerciantes de diferentes componentes adequados às características acústicas que pretendia extrair de cada instrumento. “Nessas pesquisas descobri, entre uma série de outros detalhes importantes, que cada tipo de madeira propicia um timbre diferente, que o número de bobinas presentes no captador (dispositivo que capta vibrações mecânicas das cordas e as converte em sinais elétricos) também alteram o tipo de som e por aí vai”, enumera.
     Ao mesmo tempo em que as pesquisas contribuíram para o aperfeiçoamento de aspectos técnicos, a prática serviu para lapidar preferências. Na falta do mogno – utilizado por grandes fabricantes como a Gibson em suas guitarras e ideal para o instrumento por seu timbre característico e ressonância sonora, mas com exploração e venda proibidas no Brasil desde 2001 –, as madeiras a que dá primazia para a construção do corpo das guitarras são o cedro e o freijó: “fáceis de encontrar e mais maleáveis”, justifica.
     Para o braço, utilizam-se barras maciças e rígidas, com grande resistência à tração, e, de modo geral de um tipo de madeira diferente nas utilizadas no corpo. O luthier costuma valer-se também da reciclagem, garimpando móveis ou outros objetos em desuso e aproveitando aqueles em que vislumbra a possibilidade de transformação em suas guitarras e baixos.
     Antes da escolha dos materiais, no entanto, outra etapa de uma série deve ser cumprida: o desenho ou shape, para usar uma linguagem mais rock’n’roll. Uma vez definido o modelo (na Internet encontra-se uma imensa variedade de opções de gabaritos já prontos, inclusive com medidas e orientações sobre a parte eletrônica e tamanho real para impressão), inicia-se o trabalho de marcenaria.
     “A primeira coisa é beneficiar a madeira para a construção do corpo, depois cortar no formato do shape escolhido e fazer as escavações na peça nos locais onde entrarão os componentes, de acordo com suas medidas exatas; depois, a primeira montagem para realizar medições, a instalação da parte eletrônica e, por fim, a regulagem”, explica o luthier, de forma bem resumida.Dependendo do nível de sofisticação do instrumento, o processo todo pode levar de um mês a um ano.
     Em razão de um mercado ainda incipiente de confecção de guitarras artesanais no Brasil – especialmente no Rio de Janeiro, uma vez que os cursos profissionalizantes e a maioria dos profissionais se concentram em São Paulo – ele ainda exerce o ofício como um hobby. Mas a intenção é que em um futuro próximo possa se dedicar exclusivamente à oficina. Da coleção de 12 instrumentos até hoje fabricados ali dois já foram vendidos e Luiz Felipe aceita encomendas para guitarras e baixos personalizados, além de serviços de conserto para terceiros.
     Assim como os grandes guitarristas do mundo do rock, ele também cultiva o hábito de nomear seus instrumentos. A primeira guitarra que confeccionou foi batizada de The Jack em homenagem à música homônima do AC/DC. Seguindo a mesma linha, vieram Lucy, uma celebração à canção Lucy in the Sky with Diamonds, dos Beatles, e Flash, para festejar o hit Jumpping Jack Flash, do Rolling Stones,sua banda favorita. Aumenta que isso aí é rock’n’roll!
Luiz Felipe de Oliveira:
(24) 98816.1195
(24) 98852.6306

oliveirafelipel@hotmail.com



Voltar Próxima matéria


Estações de Itaipava © Todos os direitos reservados