A vinda de João Paulo II ao Brasil, em junho de 1980, marcava a primeira visita de um pontífice ao país. Ao desfilar de Papa-móvel pelas ruas das 14 cidades por onde passou, reunia milhares de fiéis que entoavam a canção A bênção, João de Deus, composta especialmente para a ocasião por Péricles de Barros (Foto: Agencia Estado)

Em 1981, os EUA realizavam o primeiro voo do ônibus espacial Columbia, primeiro de uma série de cinco naves reaproveitáveis, como forma de transformar os voos espaciais em lançamentos rotineiros e economicamente mais viáveis (Foto: NASA)

O Canal Viva bateu recordes de audiência no dia em que levou ao ar o capítulo da novela Água Viva com a cena de topless protagonizada pelas atrizes Tônia Carreiro e Maria Padilha; a prática voltou a gerar polêmica recentemente, quando a atriz Cristina Flores, que era fotografada com os seios à mostra para a divulgação de uma peça, foi obrigada por policiais a vestir a camisa (Foto: Divulgação)

Bandas como a The Police estouraram nos anos 80 e contribuíram para ditar a estética vigente na moda (Foto: AP Images)

Um verão que ficou na história: o “verão da lata” (1987) é descrito em detalhes no livro lançado em 2012 pelo jornalista Wilson Aquino. Editora Barba Negra (Foto: Divulgação)

Hoje considerada uma geringonça eletrônica, o TK 85, foi lançado no Brasil em 1983; o computador funcionava acoplado a gravadores cassete e televisores comuns (Foto: Divulgação)

Pioneiro entre os jogos eletrônicos, o Atari foi responsável pela popularização dos videogames (Foto: Evan-Amos)

Lançado em 1980 pela Estrela, o Genius foi o primeiro jogo eletrônico vendido no Brasil; o objetivo era repetir sem erros a sequência de sons e cores proposta pelo brinquedo (Foto: Arquivo)

Uma verdadeira febre nos anos 80, o Cubo Mágico faz sucesso até hoje e reúne uma multidão de fãs em comunidades virtuais (Foto: Arquivo)

O Circo Voador, fundado no Arpoador em 1982, ajudou a popularizar grupos teatrais, artistas e bandas que começavam a experimentar o sucesso na década (Foto: Divulgação)

Apesar de experimentar uma fase mais romântica ao longo da década, a natureza roqueira de Rita Lee – na foto, no Rock in Rio 1985 - influenciava todos os artistas e grupos musicais dedicados ao gênero que então começavam a se formar (Foto: Divulgação)

Os adesivos “Eu vou” e “Eu fui” integravam o gigantesco plano de marketing da agencia Artplan, realizadora do Rock in Rio (Foto: Arquivo)

O “enlatado” Profissão Perigo, um clássico da época estrelado por Richard Dean Anderson, teve sete temporadas e mostrava o gênio do improviso McGyver realizando proezas inimagináveis como desarmar um míssil com clipes de papel (Foto: Divulgação)

A “rainha dos baixinhos” Xuxa estreou como apresentadora infantil no programa Clube da Criança, da extinta Rede Manchete, que viria a lançar também Angélica e as séries japonesas de grande sucesso Jaspion e Changeman (Foto: Cristina Granato (Reprodução))

O filme Menino do Rio, lançado em 1981 e protagonizado por André de Biase, retratava a juventude carioca do início da década e ajudou a produzir sucessos ao reunir atrações musicais do momento (Foto: Divulgação)

Participante da mostra Como vai você, Geração 80?, o escultor Marcelo Lago mantém em Petrópolis seu ateliê e um grande acervo de obras próprias, como a que integra a série Memória, sonhos e reflexões, exposta em individual realizada no Paço Imperial no Rio de Janeiro, em 2005 (Foto: Henrique Magro)

Na mostra realizada na Escola de Artes Visuais do Parque Lage, em 1984, Marcelo expôs duas obras da série Grafismo no Plano (Foto: Divulgação)

Em 1988, as meninas do vôlei brasileiro tiveram destaque, abrindo as portas do esporte para as gerações futuras; o impulso aconteceu nas Olimpíadas de Seul (1988), quando o time chegou a um inédito 6º lugar na competição. Na foto, comemorando o bicampeonato olímpico em Londres 2012 (Foto: Divulgação)

O step, que começou a ganhar força no final dos anos 80, é uma das atividades que nasceu da ginástica aeróbica, muito popular nas academias na época (Foto: Arquivo)

Na rua 16 de Março, no Centro de Petrópolis, o Mauricio era um dos lugares mais badalados da cidade; as batidas e os frutos do mar eram as especialidades servidas aos clientes, sempre sob o olhar atento do proprietário (de gravata, atrás do balcão), que emprestou seu próprio nome ao bar (Foto: Arquivo Maurício)

O DJ Feijão, figura muito querida dos frequentadores, animava as noites do Arco da Velha (Foto: Divulgação)

O Shopping Itaipava foi o primeiro a abrir as portas na região; hoje, depois de reformas que levaram à sua modernização, continua a ser uma referência entre os centros comerciais que se multiplicaram pela Estrada União e Indústria (Foto: Henrique Magro)

O Farfarello, em Itaipava, foi inaugurado em 1985 na casa onde funcionava a Cerâmica do Moinho; nesta época, com a atividade artesanal ainda em alta na cidade, o turismo local começava a se beneficiar também com a abertura de novos restaurantes, como o de especialidades italianas que se mantém em funcionamento até hoje (Foto: Divulgação)

A Praça da Estação, em Nogueira, onde funcionou o Pizza Train, era o ponto de encontro dos jovens que frequentavam a pizzaria e a boate Arco da Velha, que atravessou toda a década de 80 (Foto: Henrique Magro)

Reprodução das imagens: Henrique Magro


Capa

De volta aos 80 - A Missão

Resgate de uma época inesquecível

     Há exatos 34 anos, iniciava-se o período que no Brasil ficou conhecido como a “década perdida”. Mas, apesar do termo pouco auspicioso, cunhado em referência ao registro de baixíssimos níveis de crescimento da economia do país, foi nesta época também que grandes eventos, nos mais diferentes segmentos da sociedade, ocorreram aqui e no resto do mundo. No Brasil tivemos, entre 1º de janeiro de 1980 e 31 de dezembro de 1989, a primeira visita de um pontífice ao país, com a vinda de João Paulo II em 1980; os primeiros passos rumo ao retorno à democracia, com o fim da ditadura militar em 1985; a instauração do Plano Cruzado em 1986; a promulgação, em 1988, da oitava constituição, que vigora até hoje; além de vários outros fatos marcantes.
     Em âmbito mundial, a eclosão da guerra Irã-Iraque em 1980, que se estenderia até 1988; o assassinato, em dezembro de 1980, do ídolo John Lennon, um então porta-voz da paz universal; o primeiro voo do ônibus espacial Columbia, em 1981; o lançamento, em janeiro de 1983, do computador Macintosh pela Apple; a implantação do plano de reestruturação econômica (perestroika) e política (glasnost) da União Soviética, pelo então líder Mikhail Gorbachev, em 1985; a queda do Muro de Berlim, em 1989; e por aí vai.
     Mas na vida cotidiana, pode-se dizer que de perdida a década não teve nada; especialmente aqui em nossas terras tupiniquins. Não é a toa que experimentamos agora uma espécie de revival desta época em que a cultura pop explodiu na mídia, com a proliferação de cadernos culturais nos periódicos e o aumento considerável das produções de áudio visual que buscavam novas linguagens. Está aí a reprise da novela Água Viva (Gilberto Braga, 1980), pelo Canal Viva, e novas produções com referências à época para comprovar o saudosismo daqueles tempos que paira no ar. Para quem não viveu a década do entretenimento – como talvez, e merecidamente, seja lembrada por muitos – esta é, inclusive, uma das boas formas de se saber o que, em termos de comportamento, se passava no Rio de Janeiro e, rapidamente, se espalhava por todo o país. Como bom cronista de seu tempo, o autor se inspirava em cenas da vida real para retratar aquele cotidiano.

VERÃO COM GRIFE
     A inclusão no roteiro do folhetim de um movimento característico da juventude bronzeada da Zona Sul que causou “buchicho”, para usar um termo corrente na época, serve de exemplo. Como forma de expressar a liberdade feminina conquistada a partir dos anos 60 e 70, as jovens frequentadoras da praia de Ipanema tentaram lançar por aqui a moda do topless. Naquele verão de 1980, o ato libertário causou incidentes isolados, com muitas reações contrárias e também em sua defesa, mas não pegou; nem na vida real nem na novela. O que permaneceu mesmo foi o hábito de batizar a calorenta estação com referências a fatos marcantes. Anos depois do “verão do topless”, o “verão da lata” (1987) deu muito o que falar. E ainda dá.
     Lançadas ao mar pelo navio panamenho Solana Star, como tentativa de sua tripulação evitar um iminente flagrante, milhares de latas de alumínio que continham cerca de um quilo de maconha cada, chegaram às praias do Rio e algumas delas foram recolhidas por banhistas apreciadores da erva. O evento inusitado gerou uma série de piadas, músicas e até poesias; mas, mais do que inspirar artistas, foi responsável por cunhar a gíria “da lata” para designar algo que fosse bom. Em 2012, o jornalista Wilson Aquino lançou o livro Verão da Lata: O verão que ninguém esqueceu, em que narra a história em detalhes, com farta documentação. Realmente, um verão que dificilmente cairá no esquecimento.

MODAS E MANIAS
     Memorável é também a moda dos 80’s, marcada essencialmente pelo exagero. Ainda que o visual hippie dos 70’s tenha conseguido uma sobrevida no início da década seguinte, o estilo de artistas e bandas de distintos gêneros musicais que faziam sucesso mundial na época foi o que realmente ditou a estética das diferentes tribos que se formaram ao longo daqueles dez anos. Personalidades como Michael Jackson, Madonna, Cindy Lauper, Prince e integrantes de grupos como The Police, Culture Club, Simply Red e A-Ha, só para citar alguns, eram os ídolos que inspiravam os modelitos. E tome ombreiras gigantescas, maquiagens excessivas, cabelos volumosos e repicados; isso sem falar nas cores em tons neon e nos materiais plásticos e metalizados, que celebravam a estética futurista daqueles tempos em que se começava a experimentar a evolução tecnológica de forma um pouco mais consistente.
     Entre outras inovações que chegavam aqui, o com­putador TK 85, lançado no Brasil em 1983. Hoje considerada quase como um utensílio pré-histórico, a máquina funcionava com um gravador cassete como memória adicional e era ligada a um televisor comum. Também os jogos eletrônicos – quem não se lembra do Genius, lançado em 1980, e do Atari, de 1983? – começavam a virar febre e a gerar game maníacos entre representantes de todas as faixas etárias. Mas, indiscutivelmente, o brinquedo que viria se transformar no ícone da época (a despeito de ter sido inventado em 1974, pelo Húngaro Ernõ Rubik), e que não se valia de qualquer meio eletrônico para arregimentar uma legião de fãs ao redor do mundo, foi o Cubo de Rubik, mais conhecido como Cubo Mágico. O quebra-cabeça tridimensional, com seis faces coloridas subdivididas em nove quadrados, chegou ao Brasil em 1981 e até hoje faz enorme sucesso, chegando mesmo a reunir apreciadores em torno de campeonatos e comunidades virtuais!

A HORA E A VEZ DO BESTEIROL
     O cenário cultural, com todas as suas diferentes manifestações, experimentava uma efervescência até antes nunca vista. Nas artes cênicas, a consagração de grupos teatrais com linguagem inovadora, a exemplo do Asdrúbal trouxe o trombone, fundado em 1974 pelo diretor Hamilton Vaz Pereira e pelos atores Luis Fernando Guimarães e Regina Casé, que viria a se transformar em um dos maiores representantes do Teatro Besteirol. O movimento, desprovido de preconceitos, tinha como principais características o humor anárquico e a falta de engajamento com a cultura dita erudita e foi uma das gratas novidades lançadas na década de 80. Na mesma época, assistia-se também à fundação de grupos performáticos, que mesclavam, de forma totalmente inabitual, circo, teatro, dança e música como O Manhas e Manias e a Intrépida Trupe.
     Em comum, a apresentação de seus espetáculos, em momentos distintos, no Circo Voador, outro marco importante da cultura nacional, que ergueria sua lona pela primeira vez em 15 de janeiro de 1982, por iniciativa do produtor Perfeito Fortuna. O circo começou suas atividades na Praia do Arpoador, onde permaneceu por apenas três meses; depois mudou-se para a Lapa, quando iniciou a parceria com a Fluminense FM, primeira rádio carioca a dedicar sua programação exclusivamente ao rock, no projeto Rock Voador. Em 1996, o Circo teve sua licença cassada e ficou inativo até 2004, quando foi reerguido no mesmo local e lá permanece até hoje. O espaço cultural sempre teve grande importância por, desde seus primórdios, abrigar shows de artistas consagrados e também de bandas em início de carreira. Entre os novatos que se apresentaram sob sua lona, Barão Vermelho, Blitz, Paralamas do Sucesso, Legião Urbana, Capital Inicial, Kid Abelha & os abóboras selvagens e muitos outros que formariam a nata do Rock Brasil.

BRASIL NO MAPA DO SHOW BUSINESS
     Tanto a rádio quanto as bandas nacionais dedicadas ao gênero tiveram seu papel no que viria a ser o maior festival de rock já visto no Brasil. A primeira edição do Rock in Rio, em janeiro de 1985, foi um divisor de águas na indústria nacional do entretenimento. Nunca antes tantas atrações de prestígio mundial tinham se reunido no Rio ou em qualquer outra cidade do país. Selecionados pelo diretor da Fluminense FM, Luiz Antonio Mello, e sua equipe, artistas do calibre de James Taylor, George Benson, Rod Stewart, Queen, Yes e muitas outras estrelas da música internacional juntaram-se a artistas brasileiros para shows memoráveis realizados durante dez dias. O mega sucesso do evento acabou por inserir o Brasil no mapa do show business internacional e outros festivais – a exemplo do Hollywood Rock, com edições em 1988 e 1990, começaram a acontecer aqui com maior frequência.
     Mas o cenário musical da década não foi montado apenas a partir de sons descolados; outros também abocanharam seu quinhão de sucesso e marcaram época. A banda de garotos porto-riquenhos Menudo era uma verdadeira febre entre crianças e adolescentes de toda a América Latina e produziu pelo menos um grande astro, Rick Martin. No Brasil, também faziam sucesso entre o público infanto-juvenil A Turma do Balão Mágico, Trem da Alegria e Abelhudos.
     Programas de TV dedicados à música pop tinham grande audiência e ajudavam a criar e a impulsionar os hits de então. Mais popular e longevo deles, o Globo de Ouro estreou no início dos anos 70 e atravessou toda a década de 80 apresentando a cada edição os dez primeiros colocados nas paradas de sucesso. Aqueles que exibiam videoclipes, como o FM TV e o Clip clip, também tiveram seu espaço, mas os festivais televisionados pela Rede Globo, de 1980 a 1985, como se diria naqueles dias, “arrebentavam a boca do balão”. Foram quatro edições: Festival MPB-80 , Festival MPB-Shell 81, MPB-Shell 82 e Festival dos Festivais, em 1985.
     Mas nem só de música, novelas e programas de auditório – outras atrações bastante populares desde que começaram a ser produzidas por aqui, bem antes dos anos 80 – vivia a televisão naqueles tempos. Programas voltados para os jovens, como Armação Ilimitada (de 1985 a 1988), com ritmo de videoclipe e linguagem que se assemelhava aos gibis; e humorísticos, a exemplo da TV Pirata (de 1988 a 1990), com seu humor escrachado, estabeleciam um novo padrão para os formatos e faziam enorme sucesso. Os “enlatados” americanos exibidos pela Globo também garantiam seus pontinhos no ibope. Alguns dos mais bacanas eram A gata e o rato (de 1986 a 1990), com Bruce Willis e Cybill Shepherd atuando como detetives particulares, e Profissão perigo, em que o gênio do improviso MacGyver realizava proezas como tapar um buraco no radiador do carro com um ovo frito (!).

UMA “TV DO ANO 2000” COM A CARA DOS 80’S Embora a programação e as produções originais da TV Globo, com seu indiscutível padrão de qualidade, estivessem sempre na liderança (e, por isso, sejam as mais lembradas quando se fala da história da TV aberta no país) em 1983, surgiria, com a proposta de oferecer programação voltada para o público das classes A e B e amparada por equipamentos importados de última geração, uma emissora capaz de fazer frente a sua liderança. Com o slogan “A TV do ano 2000” e posicionamento jovem e moderno, entrava no ar no dia 5 de junho, um domingo, a Rede Manchete.
     Logo de cara, a nova emissora mostrava a que vinha. Na noite de sua estreia, com a exibição da mega produção de ficção científica, então inédita no Brasil, Contatos Imediatos do 3º Grau (Steven Spielberg, 1977), atingiu 29 pontos de audiência e ultrapassou a principal concorrente. Em 1984, conseguiria o mesmo feito, com a transmissão ao vivo do Desfile das Escolas de Samba do Rio de Janeiro, na inauguração do Sambódromo. Em tempo: naquele ano, o primeiro em que os desfiles foram realizados em dois dias, e o único a ter vencedoras em cada dia de apresentação, a Portela sagrou-se a campeã do domingo, com o enredo “Contos de Areia”; e a Mangueira a da segunda-feira, com “Yes, nós temos Braguinha”. Na contagem geral dos pontos, no entanto, a vitória como “supercampeã” coube à verde e rosa.
     A Manchete conseguiria ainda grandes feitos no jornalismo e na teledramaturgia. Na cobertura das manifestações do movimento Diretas Já (1983-1984) a emissora superou todas as concorrentes ao dedicar o maior número de horas de programação aos comícios e passeatas realizados em todo o país. As novelas Carmen (1987), com a atriz Lucélia Santos contratada a peso de ouro, e Pantanal (no início de 1990), primorosa obra do autor Benedito Ruy Barbosa com direção de Jayme Monjardim, tiveram índices surpreendentes e foram um marco do final da década.Na geração de fenômenos entre o público infanto-juvenil a emissora também foi inovadora. O Clube da Criança (1983 a 1988) inaugurou um formato diferente de programas infantis e lançou duas grandes estrelas: Xuxa, que permaneceria no comando da atração até 1986, e Angélica, que posteriormente assumiria seu lugar. O programa lançaria ainda mais um fenômeno: os seriados japoneses Jaspion e Changeman, do gênero tokusatsu, da expressão tokushu satsuei ou filme de efeitos especiais.

NO ESCURINHO DO CINEMA
     Gloriosos foram também aqueles anos para a sétima arte. Filmes incríveis, de todos os gêneros, foram produzidos no período. Entretanto, a ficção científica experimentou um verdadeiro boom na década e Blade Runner (Ridley Scott, 1982), que mostrava uma aterrorizante Los Angeles, constantamente sob chuva ácida, no início do século XXI; ET, o extra-terrestre (Steven Spielberg, 1982), um dos filmes mais bem sucedidos de toda a história do cinema, com faturamento de US$ 700 milhões no ano de lançamento; e o primeiro da trilogia De volta para o futuro (Robert Zemeckis, 1985), com o criativo roteiro de Zemeckis e Bob Gale sobrepondo-se aos efeitos especiais tão explorados naquele tempo, merecem destaque.
     Entre os filmes que retratam o comportamento dos jovens daquela geração, há pérolas pescadas entre produções americanas e brasileiras. De Hollywood, simbólicos são: Flash Dance (Adrian Lyne, 1983), com coreografias e trilha sonora que davam vontade de correr para a danceteria mais próxima, e Procura-se Susan desesperadamente (Susan Seidelman, 1985), que marcava a estreia de Madonna no cinema, pouco depois do lançamento do álbum Like a virgin, e difundia para todo o mundo o curioso estilo dos modelitos da popstar. Aqui em nossas praias, os filmes que procuravam reproduzir o comportamento da juventude tinham em comum o cenário praia mesmo, além de trilhas sonoras que impulsionavam as carreiras de nomes ainda pouco conhecidos. Menino do Rio (Antonio Calmon, 1981), que acompanhava as aventuras de um grupo de surfistas e lançou o hit De repente, Califórnia (do ainda novato Lulu Santos), é o mais emblemático deles. Com a mesma fórmula – juventude + praia + música –, Bete Balanço (1984) seria o primeiro da “trilogia de rock dos anos 80”, do diretor e roteirista Lael Rodrigues, completada por Rock Estrela (1986) e Rádio Pirata (1987). As três produções eram embaladas por grandes sucessos de então.

ARTE E MOVIMENTO
     Nas artes plásticas, o que se experimentou foi um resgate dos meios artísticos tradicionais, com a revalorização da pintura e da escultura, ao mesmo tempo em que o abstracionismo e a arte conceitual se fortaleciam. A mostra Como vai você, Geração 80?, na Escola de Artes Visuais do Parque Lage, no Rio de Janeiro, em julho de 1984, foi um marco na produção dessa manifestação artística e apresentava trabalhos de artistas brasileiros que a partir daquele momento ganhariam projeção internacional. Entre vários outros nomes de peso, integravam a exposição Adriana Varejão, Beatriz Milhazes, Daniel Senise, Jorge Guinle Filho, Vick Muniz e o escultor Marcelo Lago, radicado em Petrópolis desde 1983. Atualmente, Marcelo trabalha em seu ateliê, em Corrêas, onde funciona ainda uma pequena galeria para a exposição de obras próprias e também dos trabalhos de seus alunos. Entre os anos de 1988 e 1990, ele criou e dirigiu o Atelier Livre de Petrópolis – “um espaço dinâmico de ensino, pesquisa, criação, produção e divulgação da arte contemporânea”, de acordo com suas próprias palavras –, que pretende reativar tão logo encontre parceiros para viabilizar o empreendimento.
     Sobre a arte na década de 80, o escultor pondera: “foi um momento hedonista, de redescoberta da pintura, como acontecia no neoexpressionismo alemão e na transvanguarda italiana. A maioria dos expositores da mostra de 84 tinha aulas com o Aquila e os poucos escultores eram alunos da Celeida Tostes. Naquela época, eu frequentava o Atelier de Escultura do Ingá, mas acabei participando da mostra no Parque Lage porque fazia algumas coisas por lá também; mas o bacana mesmo é que todos faziam do Parque um grande ateliê”. A cultura e o entretenimento tiveram realmente momentos muito marcantes naqueles anos; e os “agitos” (como eram denominadas as baladas), infindáveis. Manter o corpinho em forma era necessário para encarar tanta diversão nos 80’s. No universo das academias, a ginástica localizada era a atividade reinante, até a chegada da musculação e das atividades aeróbicas, que, de acordo com Murilo Guerra, profissional de Educação Física e proprietário da Academia Aeróbica, inaugurada em 1985 no Centro de Petrópolis, promoveram uma verdadeira revolução.
     “A musculação por ser uma modalidade individualizada, segura e que promovia resultados eficazes num curto espaço de tempo; a ginástica, ou dança aeróbica, por ser uma atividade que visava ao condicionamento cardiovascular e respiratório, com muita música, ritmo, expressão corporal e coreografia. A procura pela musculação vem num crescente desde aquela época. Da dança aeróbica nasceram outras atividades que estão aí até os dias atuais, como o step e a street dance”, avalia o empresário.
     Ele conta que um dos momentos marcantes em Petrópolis, foi a concentração, os treinos e os jogos amistosos da Seleção Brasileira Feminina de Voleibol na cidade, como preparação para as Olimpíadas de Seul - 1988. “Foi uma festa! Para mim, em especial, pois tive a oportunidade de conviver e dar aulas de dança aeróbica para todo o time, como parte do treinamento. Foi esta geração – que incluía, por exemplo, Ana Richa, Vera Mossa, Márcia Fú e Ana Moser – que abriu as portas para o sucesso no esporte.”Aqui, cabe salientar que, se por um lado o voleibol brasileiro teve passagem triunfal pela década - não só com as meninas, mas com o time masculino também fazendo bonito nas quadras, a exemplo da campanha que levaria a uma medalha de prata nas Olimpíadas de Los Angeles (1984) – não se pode dizer o mesmo do futebol. A seleção canarinho não teve sucesso em qualquer das duas Copas do Mundo disputadas no período. Em 82, na Espanha, e em 86, no México, classificou-se em 5º lugar.

ENQUANTO ISSO, EM PETRÓPOLIS ...
     “O La Terrine, o Vale da Lua e o Som Petrô, festa realizada no Clube Petropolitano, eram lugares da moda. Os bares mais frequentados eram o D´Angelo e o Maurício, na Rua 16 de Março, que tinha como especialidade as batidas feitas pelo Luiz e os frutos do mar, sob o comando do proprietário. Pela proximidade com a nossa cidade, também posso citar o Rock in Rio, evento que dispensa comentários, como programas inesquecíveis da época”, lembra Murilo Guerra, que participou, em janeiro de 1990, do comercial gravado para a segunda edição do festival.
     Em Nogueira, frequentar a boate Arco da Velha e o Pizza Train, na Praça da Estação, eram programas que faziam a cabeça da juventude. A boate funcionou de 1980 a 1990 e atraia tanto moradores de Petrópolis e dos distritos quanto veranistas. O proprietário, Ney Botafogo, lembra que por volta da meia noite, a boate costumava ficar lotada e a praça ficava repleta de gente, em uma grande festa. “O ambiente era bem descontraído, a música excelente e a cerveja em lata estupidamente gelada. Foi a primeira casa noturna do município a vender cerveja em lata. O ambiente era tão bom, que o número de meninas que iam sozinhas era muito grande; no final da noite, as que quisessem, e morassem em Itaipava, tinham a kombi da boate para deixá-las em casa”, comenta.
     A partir de 1980, Itaipava começou seu período de crescimento, amparado, principalmente, pela abertura da BR-040, que substituía a Estrada União e Indústria na interligação Rio-Juiz de Fora-Belo Horizonte, e pela proliferação de restaurantes de qualidade, iniciada no final da década de 70, que elevaria o Distrito e seus arredores à categoria de polo gastronômico. As maiores facilidades de acesso propiciaram também ao lugar, então já conhecido por sua rica produção de cerâmica (uma atividade estabelecida bem antes desta época, mas que perduraria como referência ao longo dos 80’s), o interesse de investidores nos mais diferentes segmentos do turismo.
     O universo da gastronomia – que já contava com excelentes restaurantes como o Parrô do Valentim, tradicional casa de especialidades portuguesas em funcionamento até hoje; o La Belle Meunière, um dos primeiros franceses do Rio de Janeiro a subir a Serra, estabelecido por vários anos em Corrêas; a churrascaria Tarrafa’s, uma das primeiras do estado a servir em sistema de rodízio e que por quase 30 foi um point em Itaipava; e a deli Picadilly, em Corrêas, único lugar onde se encontravam produtos importados – foi dos primeiros a se desenvolver de forma consistente.
     Além de novos restaurantes que, na década de 80, iniciavam suas atividades em todos os distritos – o italiano Farfarello e o português Adega dos Frades, em Itaipava, e o Chico Veríssimo, de cozinha internacional, em Corrêas são alguns deles – multiplicavam-se também as lojas especializadas, como o Bramil (primeiro supermercado a se estabelecer aqui), e as delis, a exemplo de Ailton & Filhos (Itaipava) e Ari Delicatessen (Araras). Produtores dos mais diferentes tipos de alimentos também começavam a montar seus negócios. Um deles, Joe Aguirre, implantava, em 1982, a Trutas do Rocio, que começou como uma pequena truticultura e hoje conta com 6 tanques para abastecer a região, além de um restaurante aberto em 1990.
     Os centros de compras, tão procurados pelos turistas, também tiveram expansão no período. O Itaipava Shopping, único a funcionar por aqui nos anos 80, só começou a experimentar a concorrência em 1993, com a inauguração do Vilarejo; mas ao longo de toda a União e Indústria já se espalhavam lojas de roupas, decoração, antiguidades e muitas outras. Um movimento que deu o que falar na época foram as manifestações ocorridas em 1989 contra a instalação de um depósito de lixo no Distrito de Pedro do Rio. Na ocasião, ocorreram eventos de todos os tipos como tentativa de frear a ação pretendida pela prefeitura e as consequências que poderia trazer para a comunidade local.
     “A BR 040 foi fechada por populares e tivemos a adesão de muitos sitiantes às manifestações; entre eles, o chargista Lan, a família do jornalista Luiz Fernando Cardoso, o pessoal do Procurador do Trabalho Henrique Galvão, os filhos do Desembargador Pizarro Drummond, o grupo do seu Armando, dono de tradicional comercio local e Iara Valverde, ligada às causas do meio ambiente, que posteriormente assumiria a pasta do IBAMA em Petrópolis. Para que as pessoas pudessem se informar e também se pronunciar sobre o que estava acontecendo, montamos um estande na Praça da Estação e lançamos o jornal DIALOGO da AMAPER (Associação de Moradores e Amigos de Pedro do Rio), com notícias sobre o movimento”, conta o Juiz de Fazenda Pública Marcelo Piragibe (hoje atuando na vara de Juiz de Fora), ex-presidente da AMAPER e cuja família mantém há 40 anos um sítio na região. O resumo da ópera, de acordo com o juiz, é que a prefeitura assumiu o compromisso de transformar o projeto em uma usina de reciclagem de lixo que seria modelo para o Brasil, mas ficou nisso. “Chegou a construir um parque no local, afirmando a total recuperação da área, mas nada disto se concretizou. De qualquer forma, conseguimos barrar a instalação do depósito de lixo e, hoje, Pedro do Rio e seus arredores reúnem um grande número de pessoas que buscam qualidade de vida, inclusive muitas personalidades e artistas famosos”, conclui.
     A cidade de Petrópolis, desde sua fundação, sempre foi reduto de representantes de todas as manifestações artísticas, que vêm para cá em busca de seu charme e de seu clima capaz de inspirar as mais belas obras. Nos anos 80 não foi diferente. Na casa de sua família, na Fazenda Inglesa, o poeta Cazuza compôs, em parceria com Dé e Bebel Gilberto, uma de suas criações mais inspiradas: a canção Eu preciso dizer que te amo. Uma década perdida? Eu preciso dizer que: só para quem perdeu a oportunidade de aproveitar tudo isso ...


Fontes:
Almanaque dos anos 80 – Luiz André Alzer e Mariana Claudino (Ediouro, 2004)
http://anos80incriveis.blogspot.com.br
http://pt.wikipedia.org
http://memoriadatv.blogspot.com.br
http://redemanchete.net
www.suapesquisa.com
www.portalartes.com.br
www.aconteceempetropolis.com.br
www.guiadeitaipava.com.br
www.itaipava-rj.com.br
http://canalbis.globo.com


Voltar Próxima matéria


Estações de Itaipava © Todos os direitos reservados