Foto: divulgação

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A Fazenda Projeto Água possui quatro lagos artificiais e um natural e 32 nascentes de água catalogadas

O projeto foi o primeiro de Petrópolis e o segundo do Rio de Janeiro a implantar um jardim sensorial

Único no estado a incluir o paladar, o jardim conta com diferentes espécies de árvores frutíferas


A audição é estimulada pelo som da água que jorra da pequena fonte

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Para aguçar o olfato, paladar, tato e audição, os visitantes do jardim são vendados durante o percurso

Na horta é possível conhecer os processos de cultivo orgânico e o sistema de irrigação por gotejamento

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Como parte do aprendizado, as crianças realizam trabalhos de plantio e colheita na horta

O projeto também reserva um espaço especial para os colaboradores e amigos da empresa mantenedora da fazenda

As árvores do Pomar dos Pioneiros recebem placas indicativas com os nomes dos funcionários que realizaram seu plantio

O minhocário desenvolvido pela voluntária Carolina Rodrigues, que presta consultoria agrícola ao projeto, faz parte do circuito dos visitantes e garante a produção de húmus da fazenda

O palestrante André Rívola, da ONG Floresta Brasil, é um dos mais novos parceiros do programa de educação ambiental

Representantes da terceira idade que integram o grupo 60+ participaram, em fevereiro de 2015, do plantio de abacateiros na fazenda


A estrutura local inclui edificações integradas à natureza e destinadas a centro de estudos com biblioteca, sala de leitura, auditório, alojamentos, área de apoio, cozinha de processamento de frutas e laboratório voltado para pesquisas na área ambiental

Participantes do grupo 60+ em plena atividade


A sede da ONG ostenta jardins e pomares impecáveis


A manga rosa é uma das espécies cultivadas no pomar da fazenda

Por todos os 215 mil m2 de extensão da propriedade, 110 mil m2 deles destinados exclusivamente ao reflorestamento, a água é utilizada de modo racional

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Crianças e jovens são o principal público-alvo do projeto de educação ambiental, que oferece gratuidade para a rede pública de ensino

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A vista privilegiada do mirante permite a apreciação de boa parte da fazenda

Fotos: Henrique Magro


Capa

Informar para não deixar esgotar

Projeto Água investe há mais de 10 anos na educação ambiental com vistas à preservação de recursos naturais

     "Sabendo usar, não vai faltar”. A frase de efeito, adotada em momentos que precedem situações iminentes de escassez de recursos, pressupõe que o comedimento em sua utilização seria, por si só, suficiente para evitar eventos como a crise hídrica que o Brasil vivencia agora. Só que não. Ou alguém imagina que a situação chegou a tal ponto – não só aqui, mas em todo o planeta - por conta de bilhões de esbanjadores contumazes que não fecham suas torneiras ao escovar os dentes ou prolongam seu tempo de banho? É claro que medidas contrárias a essas são salutares e necessárias, porém a realidade é, infelizmente, bem diferente.
     Com a percepção de que não basta somente economizar, mas, principalmente, recuperar os recursos hídricos e preservar o meio ambiente é a única saída para a grave crise, iniciativas como a ONG Projeto Água, fundada em 2004 em Petrópolis, na região de Secretário/Anápolis, vem cumprindo um papel fundamental: a conscientização da população quanto ao uso racional da água e, sobretudo, às razões que levam a tão sombrio cenário. Mas antes de direcionar o foco a este microcosmo, outras informações que levam a uma maior compreensão do panorama.
     Segundo o site americano www.data360.org, o consumo diário de água per capita no Brasil é de 187 litros. Na mesma análise figuram EUA (575), Austrália (493), Itália (386), Japão (374), México (366), Espanha (320), Noruega (301), França (287) e Peru (173). O Atlas Brasil – Abastecimento Urbano de Água, relatório coordenado pela Agência Nacional de Águas (ANA), a partir de estudos iniciados em 2005 e concluídos em 2010, traz dados importantes, que complementam esses índices.
     De acordo com o relatório, o planeta Terra teria de ser multiplicado 3,5 vezes se toda a sua população consumisse a mesma quantidade de água que os americanos e europeus; crianças de países ricos consomem de 30 a 50 vezes mais água do que as de paí­ses pobres; a retirada de água da natureza aumentou 3 vezes nos últimos 50 anos; e, por fim, a assombrosa projeção de que no ano de 2030 (daqui a apenas 15 anos!) 47% da população mundial viverá em condições de alto estresse hídrico.
     Essas e outras informações de extrema relevância foram reunidas sob o título “Líquido e Incerto” no site www1.folha.uol.com.br, em publicação recente, datada de 23 de fevereiro de 2015. Uma rápida incursão ao Google com a inserção de “crise hídrica no Brasil” no campo de pesquisa traz, em 0,22 segundos, aproximadamente 550 mil resultados, entre notícias, vídeos e imagens, de acordo com dados fornecidos pelo site. Dá para notar que nos últimos tempos – impulsionada pela chegada do fantasma da seca às grandes cidades, com medidas de racionamento de água e energia em estudo em São Paulo e no Rio de Janeiro – a mídia vem se ocupando do assunto de forma cotidiana e profunda.

EXEMPLO HISTÓRICO
     Entretanto, as preocupações com o tema remontam a épocas bem mais longínquas. Muito antes da crise se estabelecer da forma como hoje se apresenta, com outrora inimagináveis secas atingindo grandes centros do sudeste do país, no século XIX o imperador D. Pedro II já vislumbrava os perigos da irresponsabilidade ambiental, esta sim a grande vilã e protagonista da enxurrada de notícias tão pouco auspiciosas. O exemplo histórico, apesar de emblemático, não foi capaz de gerar a consciência necessária para que os atuais níveis de escassez fossem evitados.
     Em 1843, uma crise no abastecimento de água fez com que a cidade do Rio de Janeiro experimentasse um período de seca. Embora a consciência ambiental não fosse tema corriqueiro na época, o problema foi, de forma precisa, associado ao desmatamento da Floresta da Tijuca, então ocupada por fazendas dedicadas à cultura do café. Com a temperatura amena e umidade ideal do solo, além da profusão de rios e fontes, o lugar foi considerado ideal para este tipo de plantio.
     Os cafezais acabaram por dominar o Maciço da Tijuca e as árvores tombaram. As terras eram consumidas à exaustão e quando se encontravam totalmente empobrecidas novas áreas iam sendo desmatadas para que o plantio recomeçasse. Não demorou muito até que a falta d’água na cidade, que crescia e consumia cada vez mais, fosse associada ao desmatamento e o imperador – seguindo o exemplo de seu avô, D. João VI, que já havia tomado iniciativa semelhante para a proteção das bacias do Rio Carioca – baixou um decreto em prol da recuperação e da conservação da floresta, ordenando o plantio de mudas nas nascentes e margens dos rios.
     A incumbência foi dada ao Major Manuel Gomes Archer, que, em um período de 13 anos, realizou a desapropriação de terras e o replantio de cerca de 100 mil mudas de árvores nativas da Mata Atlântica. A recuperação da mata seguiu até 1888, comandada, a partir de 1874, pelo segundo administrador da Floresta, o Barão  d’Escragnolle. Foi o Barão quem introduziu ali a primeira área de lazer com a construção do Lago das Fadas, concebido pelo paisagista francês Augusto Glaziou e que passou recentemente por um processo de restauração, com o projeto concluído em janeiro de 2013.
     Infelizmente, nem todos se espelham nos exemplos históricos; caso contrário, muitas matas ainda estariam preservadas e o fantasma da seca não voltaria a rondar regiões notoriamente abundantes em água como acontece agora com o Vale do Paraíba. O rio Paraíba do Sul – que corta os estados de São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro ao longo de 1.137 quilômetros de extensão – é o mais importante de nosso estado, responsável pelo abastecimento de 11 milhões de fluminenses, e registrou em janeiro deste ano uma situação de escassez 25% mais grave do que a verificada em janeiro de 1953, quando, até então, os índices mais críticos de crise haviam sido identificados.
     Se levarmos em conta que com o fim do verão o período oficial de estiagem acaba de ser iniciado, as expectativas de que o panorama seja revertido chegam praticamente ao volume morto, para usar uma expressão corrente nos dias de hoje.
     Felizmente, ainda que o trabalho realizado seja comparável ao de formiguinhas, há aqueles que, com iniciativas independentes, se preocupam em proteger os recursos naturais e atuam como multiplicadores ao disseminar conhecimentos.

FAZENDA PROJETO ÁGUA
      Inserida na Serra do Mar e contribuinte da Bacia do Rio Paraíba do Sul, a Fazenda é o principal instrumento de efetivação da ONG Projeto Água. Com 215 mil m2 de extensão e 110 mil m2 deles destinados exclusivamente ao reflorestamento, a Fazenda possui 32 nascentes de águas catalogadas; quatro lagos artificiais e um natural; área de lazer, horta orgânica e estufa. Ainda em fase de acabamento, centro de estudos com biblioteca, sala de leitura, auditório, alojamentos, área de apoio, cozinha de processamento de frutas e laboratório voltado para pesquisa e estudos na área ambiental completam a estrutura local.
     Com o objetivo de conscientizar a população sobre o uso racional da água, a ONG foi idealizada por Ivens Paulo Dias da Silva, sócio-diretor da empresa Carbografite Equipamentos Industriais, que adquiriu a propriedade em outubro de 2004. O projeto foi fundado há dez anos e nessa primeira década de trabalho a ONG, que promove atividades de práticas ambientais com estudantes e visitantes, já recebeu mais de 35 mil pessoas, entre elas estudantes de 320 grupos escolares e associações que reúnem representantes da terceira idade, para participação nos programas de conscientização que desenvolve: Água é Vida, Água para Todos, Reflorestamento, Horta Escola e Jardim dos Sentidos.
     A equipe do Projeto Água é composta por uma diretoria não remunerada e sete funcionários que se dedicam integralmente à administração e à manutenção da sede da ONG. Um grupo de voluntários apoia a realização dos programas desenvolvidos. Embora a principal mantenedora continue sendo a Carbografite, um grupo de empresas e profissionais liberais especializados presta serviços para valorizar o trabalho da ONG, entre eles: UAAL (web), Erigma Filmes, Carolina Rodrigues (consultoria agrícola), Mudas Katsumoto (mudas de hortaliças), Agristar (sementes), Parkpaper (Impressão de Adesivos), ARTCON (contabilidade) e Lions Club do Brasil.
     O programa Água é Vida foi criado para – por meio de palestras, dinâmicas e discussões em grupo – conscientizar crianças, jovens e adultos sobre a importância e a necessidade de preservação dos recursos hídricos. É desenvolvido dentro de escolas, com a visita de palestrantes da ONG, que já esteve presente em mais de 320 grupos escolares. Realizado na Fazenda, o programa de Reflorestamento é uma continuação do primeiro e consiste em levar crianças, jovens e adultos para plantar ali mudas de árvores nativas da Mata Atlântica, já que a educação ambiental tem sido grande aliada ao processo de mudanças comportamentais, uso e valorização dos recursos naturais. Desde o ano de sua fundação, o projeto já promoveu o plantio de 7.700 mudas de árvores nativas.
     “Nesse programa debatemos muito questões como o desmatamento e as queimadas, hábitos que infelizmente continuam sendo praticados pela população e estão diretamente ligados à diminuição de água do planeta”, explica Sylvia Reis Firmeza, diretora de comunicação e coordenadora geral do projeto.
     Como complemento dos dois programas, a Horta Escola e o Jardim dos Sentidos. Depois das palestras e do plantio das árvores, os visitantes do projeto são levados à horta orgânica para que vivenciem o processo de plantio e colheita do sistema alternativo à agricultura convencional, com as vantagens que oferece para a saúde dos indivíduos e do meio ambiente pela fertilização natural, e conheçam a irrigação por gotejamento. “Com este método o desperdício de água é de apenas 5%, ao passo que a perda gerada no sistema comumente utilizado pela agroindústria tradicional é de 55%”, ressalta a diretora do projeto.
     O jardim trabalha o estímulo dos cinco sentidos humanos: o tato, por meio da textura das plantas; a audição, com a água; a visão, aproveitando o reflexo das cores exuberantes; o olfato, com os aromas das espécies; e o paladar, com a colheita e degustação das frutas. Para Sylvia, este é um grande diferencial do projeto, uma forma diferente e muito eficaz de aproximação com a natureza. “O programa foi desenvolvido para receber grupos de deficientes visuais e todos os que queiram vivenciar uma forma diferente de estímulo aos cinco sentidos, pois os visitantes passam por todo o circuito com os olhos vendados. Este é o primeiro jardim sensorial de Petrópolis e o segundo do estado e o único que inclui o paladar no roteiro”.
     O objetivo principal do quito programa Água para Todos, que fecha o ciclo do trabalho realizado na fazenda, é divulgar informações e instruir a sociedade sobre a importância e a necessidade de preservar os recursos hídricos. Dentre as ações realizadas estão: a participação em feiras, a distribuição de material informativo e a manutenção do site do projeto na internet.
     Para enriquecer ainda mais seu conteúdo, o projeto leva para a fazenda parceiros de outras organizações. Em fevereiro de 2015, o engenheiro André Rívola, da ONG Floresta Brasil, ministrou para o grupo 60+, formado por integrantes da terceira idade da Academia da Praça de Corrêas, uma palestra sobre a importância da conservação das matas e florestas no combate à seca. Com muita objetividade e clareza, o palestrante abordou, entre muitos outros tópicos relevantes, a correlação existente entre as árvores e a capacidade de retenção da água pelo solo.
     “Além da parceria na disseminação de informações, por meio de palestras e cursos, estamos estudando novas formas de atuação conjunta com a Floresta Brasil para a produção de mudas, uma vez que a organização realiza um trabalho muito interessante nesse sentido”, avalia Sylvia. Ela acrescenta que a busca de novos parceiros para o desenvolvimento de programas é um dos principais objetivos no momento: “o que pretendemos para o futuro é união; empresas e voluntários parceiros que nos ajudem a montar novos conteúdos, formatos de palestras e atividades”.
     A Fazenda Projeto Água está aberta à visitação com agendamento prévio (escolas da rede pública e organizações sem fins lucrativos têm gratuidade garantida) e interessados na soma de esforços em prol da defesa dos recursos hídricos e do meio ambiente de modo geral não devem se acanhar. Se o momento atual é crítico, daqui a 15 anos, como alerta o relatório da Agência Nacional de Águas, a situação será de alto estresse hídrico no planeta; mas, se cada um fizer a sua parte, quem sabe o quadro não pode ser amenizado?

Fontes:
http://zh.clicrbs.com.br
www.data360.org
www1.folha.uol.com.br
www.ana.gov.br
http://agenciabrasil.ebc.com.br
Fazenda Projeto Água:
(24) 2222.9900/ramal:1197
www.projetoagua.org.br
projetoagua@projetoagua.org.br


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