Experiência inigualável: nascer do sol visto do Morro Açu, a 2.216m de altitude


A Cachoeira das Andorinhas, a dez minutos do Véu da Noiva, tem queda de 15 metros e poço


O Poço dos Primatas faz valer a esticada até o Circuito das Bromélias


A Cachoeira Véu da Noiva é uma queda de 40m; na primavera, com o fim da estiagem, é possível apreciá-la com bom volume de água

No Alto da Ventania, primeira trilha aberta para acesso ao Morro Açu, há locais onde se pode acampar; ali o montanhista e fotógrafo Waldyr Neto ministra aulas práticas de fotografia

Privilégio para quem tem fôlego: Morro Açu ao entardecer

Quando o sol se põe, o espetáculo fica ainda mais grandioso no Açu



Para se chegar aos Portais de Hércules é preciso pernoitar no Açu, mas a recompensa é poder ter a vista de um dos mais belos e isolados mirantes da Serra dos Órgãos

Fotos: Waldyr Neto




Mexa-se!

Caminhos do PARNASO



     Se, influenciado pela magnitude das imagens, você leu “paraíso”, não está de todo equivocado. As trilhas do terceiro parque mais antigo do Brasil, criado por Decreto-Lei de 1939, o Parque Nacional da Serra dos Órgãos (PARNASO), levam a locais onde não é difícil se imaginar bem mais perto do céu. A começar pela beleza da Serra, assim batizada pelos portugueses pela semelhança de suas montanhas com os tubos do instrumento musical, este é um programa inesquecível. E o melhor de tudo é que está ao alcance de todos, não é preciso ser montanhista ou praticante assíduo de atividades físicas.
     O que não faltam são bons motivos para a aventura. Seja para exercitar-se, para apreciar as ricas fauna e flora locais ou para registrar em fotos as incríveis paisagens, as trilhas do PARNASO, uma área protegida que pode ser percorrida com toda a segurança (algo tão raro hoje em dia!), estão entre as mais bacanas do Rio de Janeiro. Durante a primavera, quando se verificam níveis não muito altos de chuva e as cachoeiras voltam a apresentar bom volume de água, depois do período mais seco do inverno, a visita ao parque pode ser ainda mais divertida. Com as temperaturas agradáveis desta temporada, fica difícil resistir aos banhos nos diversos poços e cachoeiras espalhados pelos caminhos.
     Além da hidrografia e geologia locais, a flora e a fauna desta porção de Mata Atlântica são um espetáculo à parte. Localizado na região fitoecológica fluminense classificada como Floresta Ombrófila Densa, o Parque apresenta um grande volume de chuvas, um dos fatores decisivos para a exuberância de sua vegetação, assim como para a diversidade das espécies que abriga, inclusive algumas exclusivas desse ecossistema. Entre as mais de 2,8 mil espécies regis­tradas, destacam-se 369 espécies de orquídeas e mais de 100 de bromélias.
     Os mesmos atributos são verificados na fauna do PARNASO. A grande diversidade de habitats, proporcionada pela variação no clima, nos tipos de solo, formações geológicas e diferenciadas formações vegetacionais, explica a grande pluralidade de espécies locais. Já foram registradas ali 462 espécies de aves, 105 de mamíferos, 102 de anfíbios, 81 de répteis, 6 de peixes e mais de 500 de invertebrados. O parque pro­tege 120 espécies de animais ameaçados de extinção, com destaque para o Muriqui (Brachyteles arachnoides), o maior primata das Américas.
     Para se conhecer pelo menos parte desses caminhos e observar tamanha diversidade, basta uma pequena dose de disposição; para ir um pouco mais além, aí sim é recomendável certa experiência. Mas o fundamental mesmo é o respeito à natureza e às regras desta Unidade de Conservação Federal de Proteção Integral, subordinada ao Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio). No site da instituição (www.icmbio.gov.br) estão relacionadas todas elas, além de dicas úteis para os excursionistas e informações sobre ingressos, horários permitidos para a entrada, estacionamento e outras.
     Com a consultoria de um grande conhecedor das trilhas de Petrópolis – o montanhista Waldyr Neto, também fotógrafo e responsável pelas belas imagens que ilustram esta matéria, além de autor, em parceria com Ernesto Viveiros de Castro, do livro Parque Nacional da Serra dos Órgãos – Guia de trilhas, montanhas e cachoeiras –, mostramos diferentes trilhas, com distintos graus de dificuldade, localizadas na Sede Petrópolis. O Circuito do Véu da Noiva (no setor Bonfim) e o Alto da Ventania (no setor Caxambu), ambos de baixa dificuldade; o Morro Açu (no setor de mesmo nome), que exige maior experiência do excursionista, e, de quebra, para quem se dispõe a acampar e pernoitar ali, uma atração a mais: os Portais de Hércules, à cerca de duas horas de caminhada a partir deste ponto.
     A portaria da Sede Petrópolis do PARNASO fica no Bairro do Bonfim, em Corrêas. O acesso principal é feito pela BR-040, que liga o Rio de Janeiro a Juiz de Fora. Do centro de Petrópolis até à portaria, o acesso é através da Estrada União e Indústria, que margeia o Rio Quitandinha. Deve-se tomar o acesso do Distrito de Corrêas e a partir dali seguir as indicações do Bairro Bonfim. O acesso é feito por estrada de terra e trechos ruins de asfalto e paralelepípedo, porém com boa sinalização. A portaria do parque é a última construção na área mais alta do bairro.
     A trilha do Circuito do Véu da Noiva começa bem na portaria da sede e o percurso até a cachoeira de mesmo nome, com 40m de queda, pode durar de uma a duas horas. O grau de dificuldade técnica é baixo, a caminhada é feita quase que inteiramente por trilha com apenas alguns trechos isolados de travessia por pedras de rio e um único de subida forte. No percurso encontra-se acesso ao Circuito das Bromélias, bem curtinho e com boa quantidade de poços ideais para banhos (não se esqueça de levar uma roupa apropriada), como o Poço dos Primatas.
     Também no caminho para a grande queda d’água é possível fazer um pequeno desvio para conhecer a Gruta do Presidente – local onde Getúlio Vargas fazia paradas para descanso na subida a cavalo até o Morro Açu. A abertura do caminho pelo Vale do Bonfim para ser percorrido em montaria foi, inclusive, atribuída ao ex-presidente e no local ainda permanecem elementos da época, como calçamento, estacas e cabos.
     “Neste ponto, a travessia do rio é tranquila, mas, depois de chuvas fortes, pode se tornar complicada ou até impossível. É muito importante ter atenção às mudanças de tempo para não ser apanhado de surpresa”, adverte Waldyr. O especialista recomenda também uma visita à Cachoeira das Andorinhas, bem próxima ao Véu da Noiva, e ainda uma incursão ao Sumidouro, no percurso de volta: “basta pegar uma trilha bem curta, que chega ao ponto onde o rio some por entre as pedras e fica subterrâneo”.
     Outra trilha leve é o Alto da Ventania, que proporciona ótima caminhada pela região rural do Caxambu e por onde, originalmente, na época do Império, chegava-se ao Açu, por trilha aberta a mando da Princesa Isabel. Ali se encontra um cume amplo, com muitas lajes de pedra e linda vista do maciço oeste da Serra dos Órgãos. O ponto de partida é a Igreja de Santa Isabel, no bairro do Caxambu, em Petrópolis, bem perto do Centro. A partir da igreja, é preciso rodar cerca de 1 Km de carro para atingir o início da trilha. A caminhada tem classificação leve, com duração de uma a duas horas de subida e baixa dificuldade técnica. A distância aproximada é de 2,8 Km e o ponto mais alto fica a 1.560m de altitude.
     “O Alto da Ventania não é propriamente uma montanha e sim um amplo platô na parte norte da Travessia Cobiçado-Ventania. A paisagem é marcada pela vegetação baixa – um capim que varia de um tom dourado ao avermelhado, dependendo da época do ano. O topo tem lajes de pedra confortáveis e algumas cristas que valem a exploração”, indica Waldyr, que costuma levar grupos ali para as aulas práticas de fotografia que ministra com regularidade.
     Para aventureiros com disposição, o programa é subir até o Morro Açu – “uma das montanhas mais queridas dos montanhistas de Petrópolis”, segundo o especialista. Ao optar por esta excursão, é preciso que haja no grupo pelo menos um praticante de montanhismo experiente, uma vez que a orientação é de média dificuldade, com trilha indefinida nas lajes de pedra do ponto conhecido como Chapadão.
     No que concerne à classificação, a caminhada é considerada semi-pesada, mas eleva-se à pesada quando se leva uma mochila cargueira com os apetrechos necessários para um acampamento. A duração da subida com mochila leve é de duas horas e meia a cinco horas; enquanto a opção pela cargueira demanda um período de tempo que varia de cinco a oito horas. A distância até o cume, onde se atinge 2.216m de altitude, é de 8Km.
     O acesso à montanha é por uma longa trilha, que passa por um vale com várias cachoeiras e riachos, seguido de um trecho com subidas fortes. No Chapadão, além das lajes que elevam a dificuldade da travessia, encontra-se vegetação típica dos Campos de Altitude. No topo destaca-se a formação rochosa camada Castelos do Açu, com blocos de granito onde existem passagens e abrigos naturais.
     Para esta expedição avaliada por Waldyr como “clássica”, o montanhista oferece uma série de sugestões. “Para os que quiserem subir com mochila leve, a dica é iniciar a jornada cedo; o caixa da portaria (a mesma utilizada para o Circuito do Véu da Noiva) abre às 8h, mas com a compra antecipada do ingresso é possível entrar a partir das 6h. Também é recomendável que se leve um bom lanche e um cantil, que pode ser abastecido com água em diferentes pontos da trilha. Os itens imprescindíveis, sempre, são lanterna e agasalhos.” Se a subida for para acampamento, ele propõe a tradicional caminhada noturna, desde que no grupo haja alguém que conheça bem o caminho, especialmente nas lajes do Chapadão. Para esta excursão a dica é montar uma mochila média (com lanche reforçado, agasalhos, isolante térmico e saco de dormir) e subir com calma para ver o sol nascer no Açu. “O passeio fica legal e não é necessário levar barraca, fogareiro, panelas ou outros equipamentos pesados. Com esses itens, dá para ficar lá até pouco depois da hora do almoço e descer tranquilamente”, recomenda. Com o ingresso antecipado em mãos, pode-se entrar na trilha até às 22h, mas é sempre bom conferir as regras atualizadas por telefone ou no site do ICMBio.
     A cereja do bolo fica reservada àqueles que se aventuram a dormir na montanha. Além da vista privilegiada do nascer do sol, com um pouquinho mais de disposição, chega-se, em uma hora e meia a duas horas, a um dos mais belos e isolados mirantes da Serra dos Órgãos: os Portais de Hércules.
     Pela descrição de Waldyr – publicada em seu Guia de trilhas, cachoeiras e montanhas, que inclui roteiros detalhados, mapas explicativos e croquis das vias clássicas de escalada –, percebe-se que a grandiosidade do lugar não está apenas no nome. “Uma ponta de rocha se projetando no abismo como a proa de um navio. De cada lado um profundo vale com imponentes paredões. Logo na frente o cume escarpado da Coroa do Frade. Como pano de fundo a linda sequência de picos do conjunto principal da Serra dos Órgãos. A pouco mais de uma hora de caminhada do Morro Açu está o lugar conhecido como Portais de Hércules. Um lugar lindo e isolado.”
     Antes que a empolgação prevaleça sobre a prudência, e não seria de forma alguma algo insólito diante de tão belas imagens, é preciso lembrar que estes dois últimos roteiros – ao contrário do Circuito do Véu da Noiva e do Alto da Ventania, que podem ser percorridos por grupos inexperientes mesmo com a companhia de crianças – exigem muito mais do que simples animação, preparo físico e mapas disponíveis em publicações especializadas. Até para pessoas com conhecimentos de montanhismo é fundamental o acompanhamento de guia com experiência no local para que o passeio transcorra sem percalços ou mesmo acidentes mais sérios. Outra recomendação importante, desta vez em benefício do ecossistema visitado, é a adoção de regras de conduta consciente, que visam à geração de mínimo impacto e à consequente conservação das áreas protegidas.

Fontes:
Waldyr Neto:
waldyr@compuland.com.br
http://amagiadamontanha.blogspot.com.br
www.flickr.com/photos/waldyrneto

  Parque Nacional da Serra dos Órgãos – Guia de trilhas, montanhas e cachoeiras (2009)
www.icmbio.gov.br/parnaserradosorgaos


Voltar Próxima matéria


Estações de Itaipava © Todos os direitos reservados