Fotos: Henrique Magro

Especial

Prazer de garimpar



     Encontrar peças de mobiliário ou decoração que não frequentam os catálogos contemporâneos e que se encaixam perfeitamente em um ambiente de casa não é algo que se consiga com facilidade. E pode mesmo parecer algo prosaico para muitos, mas para apreciadores de antiguidades – que valorizam, sobretudo, a história contida nessas peças, a despeito de algum pequeno defeito que possam apresentar – o achado traduz-se em enorme prazer.
     Se você, caro leitor, é uma dessas pessoas, saiba que em Itaipava, mais precisamente ao longo da Estrada União e Indústria, reúnem-se excelentes antiquários com grandes acervos, em que se pode garimpar desde miudezas e artefatos insólitos até obras de arte e artigos de valor histórico, com ou sem qualquer imperfeição – o que irá influenciar significativamente em seu preço. De acordo com Waldir Kohn, proprietário da Marquesa de Itaipava, um dos mais tradicionais da região, “conjuntos incompletos, como um aparelho de jantar, por exemplo, podem também ter seu valor real diminuído em cerca de 20%”.
     E aqui é bom que se faça uma observação: nem tudo o que está em um antiquário é caro; atualmente, é possível encontrar opções para todos os bolsos. O proprietário do Espaço de Artes Miguel Salles, conta que atualmente adota um sistema de giro rápido através de leilões, em que estão presentes tanto peças especiais quanto objetos simples e utilitários. “A ideia é dar uma sensação de naturalidade e mostrar que aqueles acervos saíram, de fato, de uma casa, onde existia uma vida”, define Miguel Salles Filho.
     Os leilões organizados periodicamente pela maioria dos proprietários – que encontraram nesse segmento outra forma de atrair um maior número de novos clientes para as lojas, além de reunir antigos compradores para conhecer as novidades que chegam com frequência – são, inclusive, uma boa oportunidade para a aquisição de peças de maior valor. “A vantagem é que nessas ocasiões o lance inicial estabelecido para uma peça pode ser de 50% do valor da base”, informa a leiloeira e proprietária do Petit Garage Maria Pia Athayde. Com um pouco de sorte, se não houver ninguém mais na disputa, dá para fazer um ótimo negócio.
     Por essas e outras, ainda que o universo das antiguidades não seja a sua praia, uma incursão às coleções da Marquesa de Itaipava, do Espaço de Artes Miguel Salles e da Petit Garage, tradicionais antiquários da região, com larga experiência no mercado e acervos bastante ecléticos, pode mudar radicalmente este conceito.


MARQUESA DE ITAIPAVA

     Há quase 20 anos estabelecida em Itaipava, a Marquesa, ocupa desde meados de 2012 um imóvel próprio, onde reúne um acervo de peças oriundas de todas as partes do mundo e de diferentes períodos formado pelo proprietário Waldir Kohn, que atuou durante muitos anos como avaliador da Caixa Econômica Federal. A coleção atual tem um número estimado em cerca de mil peças, distribuídas em dois pavimentos em uma área de aproximadamente de 200 m2.

Marquesa de Itaipava: Estrada União e Indústria, 12.580 – Itaipava
(24) 2222.60269
99965.4289
99226.7103
marquesadeitaipava@hotmail.com



Mobiliário de época e arte sacra estão entre os destaques do acervo da Marquesa de Itaipava

O conjunto Beranger ou “Pernambucano” (ao centro) – composto de um sofá, duas poltronas e seis cadeiras em jacarandá com verniz de boneca de época e assentos de palhinha também originais – pertenceu a Antônio de Souza Leão, o Barão de Morenos. De acordo com Waldir, conjuntos como este, completos e em perfeito estado de conservação, são uma raridade e normalmente encontrados apenas em poucas coleções, como a do Museu do Estado de Pernambuco (MEPE), em Recife

Peças em prata e vidro vindas da Inglaterra, França e Portugal também integram o acervo da Marquesa. O antiquário destaca o tinteiro inglês do século XIX (no canto inferior direito) como uma das raridades da coleção

A escultura em bronze do século XIX , do artista italiano Sirio Tofanari, que representa uma cena de ataque de um cão a um javali, é outro objeto relevante do acervo da loja

Outra curiosidade são os ornamentos árabes, que Waldir continua pesquisando e acredita serem adereços utilizados na dança do ventre






Ainda sem a ficha técnica completa, o cachimbo africano (possivelmente produzido em Camarões no século XVIII) em bronze e marfim, é uma das peças curiosas à venda na Marquesa; o proprietário, que realiza constantemente pesquisas sobre as peças adquiridas pela loja, explica que, muitas vezes, elas chegam às suas mãos sem uma descrição pormenorizada quanto a origens e datas e demandam estudos posteriores
ESPAÇO DE ARTES MIGUEL SALLES

     A família Salles acaba de completar 100 anos no mercado de artes e antiguidades e atualmente o antiquário Miguel Salles Filho mantém lojas em Itaipava e São Paulo. Ele entrou no ramo em 1994, quando abriu seu primeiro antiquário aqui, em uma loja bem mais modesta, em frente ao Parque Municipal. Tempos depois, mudou-se para outro ponto, no Castelinho de Itaipava, e hoje, em um espaço de 900m2 na União e Indústria, na altura de Nogueira, reúne uma coleção que inclui desde pequenas peças utilitárias até automóveis antigos e obras raras e bem antigas, como um Buda do século XV.

Espaço de Artes Miguel Salles:
Estrada União e Indústria, 7.555 Nogueira
(24) 2222.0374
2222.0113
2221.9048
98812.6300
www.miguelsalles.com.br
contato@miguelsalles.com.br

Foto: Lucien Prouvot

Um dos destaques do acervo é o Ford 1928, em perfeito estado de funcionamento. O automóvel veio de um colecionador do Rio de Janeiro, que consumiu anos em seu restauro e o dirigiu pela subida da serra para que chegasse ao Espaço Miguel Salles

A escultura do anjo adorador, de origem hispano-americana, datada do século XVII, e oratório mineiro D. João V, do século XVIII, fizeram parte do grande leilão comemorativo ao centenário da família Salles no ramo de antiguidades, realizado em maio de 2015

Outra peça que merece grande destaque é o Buda esculpido em bronze, da dinastia chinesa Ming, sentado sobre estrutura de madeira e com espaldar entalhado. A peça é considerada preciosa não apenas por seu período (século XV), mas também por sua procedência e origem de aquisição na Casa Francesa, em 1936

A escultura do Leão, obra do século XIX do francês Fratin, em bronze e mármore, pertenceu à família Guinle e é considerada uma peça clássica do colecionismo brasileiro adotado em meados do século XX

Peças menores, porém não menos importantes, como o brasão vindo de uma coleção de São Paulo também integram a coleção






A guitarra Lucille, como o rei do blues B.B. King batizava todos os seus instrumentos, foi colocada em exposição na loja em homenagem ao músico, falecido em maio deste ano. A peça, que tem dedicatória a Miguel Salles, foi adquirida por ele em 2004, em um leilão beneficente realizado em prol da instituição Cruz Verde, na casa de shows paulistana Bourbon Street


PETIT GARAGE

     No antiquário de Maria Pia Athayde os clientes são recebidos logo na chegada por uma obra inusitada: a escultura “Paraíso tropical”, de autoria do artista Edgar Moura Brasil e que integrou a Cow Parade realizada no Rio de Janeiro em 2007. Pela recepção já se pode notar que nem só de peças de séculos passados vive o mercado atual dos antiquários, ainda que estas sejam realmente o foco do negócio. Periodicamente, também como forma de atualizar o acervo, a proprietária organiza no espaço – onde, claro, mantém ainda uma série de peças antigas de grande relevância – leilões em que ela mesma apregoa os lotes.

Petit Garage:
Estrada União e Indústria, 14.999 – Itaipava
(24) 2222.6879
2232.1261
99994.6493
(21) 99871.5188
www.petitgarage.com.br
mariapia@mariapia.lel.br



Na variada coleção do Petit Garage, destacam-se peças importantes como o lustre russo para seis velas em cristal e corpo em bronze, do século XIX, e o grande espelho veneziano francês (com 2,00 X 1,80 cm), do século XIX, localizados ao fundo, no centro da foto

Peças antigas e modernas, sempre de qualidade e bom gosto, dividem o espaço na loja da antiquária e leiloeira Maria Pia

O relógio carrilhão, de manufatura Lehan, do final do século XVIII, tem mostrador em metal com pinturas à mão e caixa em madeira nobre. A peça que integra o acervo está entre as 30 que existem no mundo e outra igual pode ser vista no Museu Imperial

A arca asiática (final do século XVIII/início do XIX), em sândalo, é lavrada em figuras orientais de marfim, madrepérola e osso, e era utilizada para guardar quimonos para que as vestes estivessem sempre perfumadas pela madeira

A escultura grega em madeira representa uma figura mitológica e é datada do século XIX. A obra, que pertenceu a um embaixador brasileiro, é formada por um bode de duas cabeças para exprimir que é necessário seguir em frente sem abandonar o passado Foto: Lucien Prouvot






O tapete Aubusson, do século XVII, que representa uma cena de membros da corte no jardim, mede 1,65 x 0,95cm e é considerado por Maria Pia uma das peças mais importantes de seu acervo


Voltar Próxima matéria


Estações de Itaipava © Todos os direitos reservados