O curioso relógio da marca alemã Junkers, da década de 30, funciona por choque de inércia e tem corda para oito dias

Os cucos fabricados em Santa Catarina, nos anos 1960, são réplicas dos fabricados na Floresta Negra, região alemã de grande tradição na relojoaria

Os Schatz, da década de 40, são peças extremamente delicadas: qualquer movimento, por mais sutil que seja, pode comprometer seu funcionamento

De origem desconhecida, esta réplica de cuco dos anos 1960 chama a atenção pelos detalhes


A réplica de um Loart, de origem francesa, é datada de 1920


A cada hora e ¼ de hora, o Contex, de origem suíça e data de fabricação desconhecida, emite sons de pássaros

Os relógios modelo 8, de origem norte-americana, são um Ingraham com despertador, fabricado em 1873 (à esquerda), e um Ansonia de 1880

O acervo de Newton inclui ainda o passímetro e o cronometro suíços (ambos à esquerda), um Perfection francês de 1886 (ao centro e abaixo) e outras peças de bolso como os relógios das marcas Omega e Cyma, todas datadas dos anos 1930

O relógio de mesa Europa, com calendário manual, é uma peça alemã da década de 50







O Projetor Bell & Howell estilo “capelinha”, fabricado em 1953, tem alto falante incorporado, porém destacável do corpo do gabinete, e foi inteiramente restaurado por Henrique

Com o mesmo estilo, o projetor de 1949 está na família do fotógrafo desde 1958 e funciona perfeitamente

Em estilo mais “moderno”, datado de 1958, o projetor Bell & Howell, com alto falante fixo incorporado ao gabinete foi um presente recebido do amigo Jorgito Bouças, também fotógrafo e, na descrição de Henrique, “exímio ‘piloto’ do Drone Imperial”

Filmadora russa Kpachoropck-3, 16mm, fabricada em 1981; a Bell & Howell 16 mm de 1939, muito usada pelas forças armadas norte-americanas durante a segunda guerra mundial; e a Bell & Howell 8mm, produzida em meados dos anos 1970. Todas em perfeito funcionamento

O mais novo “xodó” do fotógrafo – um gravador de rolo AKAI, com amplificador e alto falantes incorporados – foi presente do amigo Vitor Adrião

Um must nos anos 1970, as caixas acústicas YANG, de fabricação nacional, foram inteiramente reformadas por Henrique


À esquerda, na parte superior da estante, o antigo Gravador de rolo Sony 260 estéreo, de 1967, com amplificador e alto falantes incorporados, foi adquirido em 1968 na extinta loja Josias Studio, em Copacabana, no Rio de Janeiro - um parque de diversões para os aficionados por som -, atualmente instalada no Jardim Paulista em S.Paulo. Abaixo, dois gravadores cassete “Tape Deck” Sony, de 1981; um moderno CD player da Gradiente; e na parte inferior, sintonizador e amplificador Gradiente estéreo de 1975. À direita, dois gravadores de rolo “Tape Deck” AKAI de 1970 e toca discos Gradiente dos anos 1990

Muito usado pelos maiores harmonicistas norte americanos nos anos 40 e 50 – “Big” Walter Norton e “Sonny Boy” William­son, entre muitos outros –, o amplificador valvulado MASCO, de 1947, chegou totalmente sucateado às mãos do fotógrafo, que o restaurou mantendo todas as características originais

De fabricação suíça, o toca discos Lenco (modelo L-75), de 1967, que imprime de 16 a 78 rotações, foi também restaurado pelo colecionador, que, inclusive, confeccionou a caixa de madeira









Movido a 12 válvulas, o amplificador de potência tem a vantagem de reproduzir um som mais puro e “aveludado”, que se aproxima mais do som natural dos instrumentos ou da voz, e é uma peça-chave do equipamento de Vitor. Além de conectado ao leitor de CD, recebe sinal do pré-amplificador ligado ao toca-discos, ao sintonizador, aos leitores de cassetes e ainda ao gravador de rolo

Para manter o toca discos (que imprime rotações de 33 1/3 ou 45) tinindo, todo o cuidado é pouco: no centro do LP, a pesada peça de alumínio, que serve para evitar vibrações ou deslizamentos do disco de vinil dando-lhe mais estabilidade, possui um sistema de bolha que permite a verificação do nivelamento correto, necessário ao bom funcionamento do equipamento; o pequeno braço prateado, atrás do braço principal, tem um pequeno rolo e uma escova de limpeza que, ao se deslocarem sobre o disco, vão limpando seus sulcos de possíveis impurezas

Da esquerda para a direita: pequena balança que serve para determinar o peso da agulha quando apoiada no LP; braço prateado com o rolete vermelho e a escova de limpeza; escova de veludo para a limpeza manual dos discos; cápsula magnética e agulha (está coberta para proteção); pequena escova para limpar a agulha; placa de vinil transparente com duas grades desenhadas para verificar se a cápsula está alinhada de modo a permitir que a agulha entre nos sulcos do LP da maneira correta; placa de veludo vermelho para limpeza manual do LP; e a peça de estabilidade que, aplicada no pino central do prato do toca discos e sobre o LP, não permite vibrações ou deslizamentos

O equipamento completo de Vitor inclui (da esquerda para a direita e de baixo para cima): sintonizador, leitor de CD, pré-amplificador, amplificador de potencia e toca discos. Ao fundo, caixas de som BES, da década de 70, que estão ligadas ao amplificador valvulado; na ponta do móvel caixas Sony, da década de 80, ligadas ao receiver. Na parte inferior do móvel, parte da coleção de LP’s, que, de acordo com o ex-piloto, “está ainda muito no princípio, mas já conta com alguns belíssimos exemplares”












A eclética coleção de Joaquim privilegia a MPB e reúne LP’s dos mais variados artistas e movimentos musicais



As salas por onde o acervo está distribuído parecem verdadeiras lojas; as estantes permitem a apreciação dos exemplares um a um, trazendo de volta aquela adorável (e quase desconhecida pelas novas gerações) sensação de escolher as bolachas que seriam levadas para casa

Em meio a uma grande diversidade musical encontram-se várias raridades (como estes discos de 45 rotações), que o colecionador faz questão de manter impecáveis: além dos discos propriamente ditos, as capas também recebem cuidados especiais e, quando necessário, passam por processos de restauração


A coleção é tão grande – e a aquisição de novos exemplares, tão frequente –, que por todos os ambientes esbarra-se com pilhas de discos ainda não dispostos nos espaços preparados especialmente para eles

Fotos: Henrique Magro


Capa

De volta para o futuro

Saudosistas mantém o passado vivo em suas coleções

     O que podem ter em comum um veterinário, um fotógrafo, um piloto de aviões e um empresário com interesses e estilos de vida distintos? Aparentemente, nada. No caso dos personagens que ilustram esta reportagem, contudo, o saudosismo e o apego por diferentes equipamentos e peças representativas de épocas diversas, que fazem com que tragam para o presente a memória de um tempo em que a alta tecnologia era apenas um ponto distante no futuro, são o centro de convergência.
     Outra característica comum é a admiração por formas antigas de manufatura de máquinas e acessórios que possibilitam a qualquer pessoa que acumule conhecimentos básicos de mecânica e eletrônica um entretenimento extra. Garimpar componentes para, pessoalmente, recuperar, restaurar e consertar seus aparelhos e fazer com que fiquem em perfeito estado de funcionamento é para eles a maior diversão!
     É esta peculiaridade que faz com que o veterinário Newton Maciel armazene uma grande coleção de relógios antigos, o fotógrafo e diretor da Estações de Itaipava Henrique Magro reúna uma série equipamentos de cinema e música, o ex-piloto da força aérea portuguesa Vitor Adrião acumule aparelhos de som valvulados e discos e o empresário aposentado Joaquim Agante tenha montado uma impressionante coleção de discos de vinil.

Quanto tempo o tempo tem?
     Na casa de Newton Maciel, um dos mais antigos veterinários em exercício em Itaipava, o som onipresente é o tic-tac dos cerca de 20 relógios espalhados pelas paredes e móveis de todos os ambientes. Mas o acervo é ainda maior; além desses, outros 18 estão em conserto e mais uma série de relógios de pulso (inclusive um dos primeiros automáticos a ser fabricado), e ainda de algibeira (ou de bolso), encontra-se distribuída pelas gavetas da casa.
     O interesse pelos aparelhos surgiu quando, ainda adolescente, aos 14 anos, frequentava, com assiduidade, a relojoaria do pai de um amigo, que funcionava Rua Frei Rogério, no Centro de Petrópolis. A partir da observação do trabalho realizado ali, Newton começou a aprender sobre a engrenagem dos aparelhos e se encantou por essa mecânica de precisão. “A forma com que os profissionais trabalhavam na oficina era fantástica; e as ferramentas, como um torno tocado a pedal, que, provavelmente, naquela época, há quase 60 anos, já era centenário, incríveis”, lembra.
     Hoje - além de colecionar relógios de todos os tipos, procedências, marcas e épocas –, o veterinário mantém uma pequena oficina para consertar e restaurar e até mesmo produzir pequenas peças, como rodas e engrenagens, para manter os itens de seu acervo em funcionamento. Um dos mais antigos e raros, um modelo 8 Ingraham com despertador, fabricado pela empresa norte-americana E. Ingraham & Co, data de 1873.
     Para deixar esta e outras raridades em perfeito funcionamento, ele costuma dedicar meses de trabalho, em um processo que inclui, além do conserto em si, a garimpagem em antiquários e em sites especializados na Internet. A importação de peças, com o intuito de deixar os relógios com o máximo possível de características originais, também acontece vez por outra. “Alguns me chegam às mãos em um estado tão ruim que nem é possível determinar a marca, a origem ou a data de fabricação”, lamenta.
     Mesmo com todas as dificuldades, ele não deixa de se empenhar na busca de componentes para dar vida nova aos aparelhos. O afinco pode ser explicado pela admiração de Newton pelas coisas bem feitas: “antigamente tudo era realizado com base na perfeição e não no imediatismo”, observa o veterinário, que, além de apreciar antiguidades (outros objetos que coleciona são lampiões), é dono de excelente humor. Ao ser questionado sobre sua pontualidade, costuma lançar mão de um também antigo ditado popular: “casa de ferreiro, espeto de pau”.

















































































Flash back em plano geral
     O dito pode ser também aplicado ao economista e fotógrafo Henrique Magro, que coleciona não câmeras fotográficas, como seria natural, mas equipamentos antigos de cinema - uma paixão que cultiva desde a infância –, além de aparelhos de som. Assim como Newton, ele vai além do mero acúmulo das máquinas: seu tempo livre é dedicado ao conserto, restauro e reforma dos itens do acervo relacionado às duas manifestações de arte.
     A formação como cinéfilo foi iniciada por volta dos cinco anos de idade, época em que começou a frequentar as salas de cinema do Rio de Janeiro acompanhado do pai. “O primeiro filme de que me lembro ter gostado bastante foi Aí vem o barão (uma produção de 1951, com Oscarito, Grande Otelo e José Lewgoy) que, coincidentemente, foi quase todo filmado no Castelo de Itaipava, e a que assisti, pelo menos, três vezes ”, recorda.
     Outro episódio marcante foi sua aparição, ao lado do então presidente Juscelino Kubitschek, em um cinejornal, o que o levou pela primeira vez a uma cabine de projeção. “Como o filme que sucedia o jornal era impróprio para menores, meu pai conseguiu com a gerência do cinema Roxy que eu assistisse dali; depois conseguimos uma cópia do jornal, que infelizmente, acabou se perdendo”, lamenta.
     Nos anos que se seguiram, a paixão pela telona só aumentou e em todas as oportunidades que teve frequentou as salas de exibição, além de promover sessões domiciliares para a família e amigos. Hoje, o acervo, que reúne peças datadas de 1939 a 1985, inclui sete equipamentos cinematográficos, entre filmadoras e projetores, e dez aparelhos de áudio; mas a busca por “novidades” para engrossar a lista não para. Um dos projetos do fotógrafo é montar um pequeno museu que traga para as novas gerações a noção de como era o audiovisual no passado.
     A experiência acumulada no universo da eletrônica – cuja introdução aconteceu aos 11 anos de idade, quando construiu um pequeno transmissor de rádio em uma caixa de doce cristalizado da Confeitaria Colombo –, conferiu a Henrique, mesmo sem ter frequentado cursos específicos, a habilidade de manter pessoalmente toda a parafernália em pleno funcionamento e mesmo construir alguns de seus componentes.






























































































Brinquedos de meninos
     Nem só do hábito de garimpar equipamentos e peças na Internet ou por outros canais vivem os colecionadores; o intercâmbio desses apetrechos faz parte também de seu dia a dia. Até presentes são ofertados de forma inesperada, como a suscitada pela presente reportagem. O mais novo “brinquedinho” de Henrique Magro – um gravador de rolo AKAI, com amplificador e alto falantes incorporados – lhe foi presenteado pelo amigo Vitor Adrião enquanto trocavam informações acerca dos objetos que seriam retratados na matéria.
     O português que adotou Itaipava como lar há cerca de 13 anos, depois de morar em vários países do mundo, é também um aficionado por música e equipou o escritório de sua casa, onde mantém uma boa coleção de discos de vinil e CDs, com uma aparelhagem digna de profissionais, mesclando equipamentos antigos e outros nem tanto.
     A qualidade do som é tão alta que a música parece ser reproduzida pelo que há de mais moderno no mercado; mas, na estante confeccionada sob medida para abrigar toda a parafernália dividem o espaço um amplificador valvulado, um toca discos, um rádio transistorizado, potentes caixas de som dos anos 1970 e outros.
     Vitor adquiriu seu primeiro amplificador em 1965, ainda em Lisboa, sua cidade natal, e nas andanças que empreendeu pelo mundo – e olha que não fo­ram poucas; enquanto estava na ativa, o ex-piloto da força área portuguesa já morou em Moçambique, Cabo Verde, África do Sul, Angola e até em Omã, no oriente médio – foi amealhando outros equipamentos e engordando a coleção musical, que conta com todos os gêneros.
     “Atualmente, tenho aqui quase 300 discos de vinil, produzidos no passado e também nos dias de hoje, e aproximadamente 800 CD’s”, contabiliza, enfatizando que absolutamente todos estão em perfeito estado, sem qualquer vestígio de arranhões ou poeira. O tratamento diferenciado que provê a saúde da coleção é garantido por uma série de acessórios que inclui escovas especiais, estabilizadores para o braço do toca discos e outras ferramentas.
     Embora mantenha apenas os equipamentos de que necessita para curtir seu som com qualidade, o saudosismo também faz com que, de vez em quando, ele adquira peças representativas do passado, como um exemplar idêntico a seu primeiro amplificador que acaba de importar da França e enviar para Lisboa.






























Compasso crescente
     A paixão pela música foi também o que levou o empresário Joaquim Agante a montar uma imensa galeria de discos de vinil. Sua discoteca, que aumenta a cada dia, é de deixar até mesmo instituições especializadas no ramo de queixo caído; não só pelo número (são cerca de 85 mil!), mas também pela diversidade de gêneros, artistas e datas de lançamento dos produtos; isso sem falar nos exemplares raros.
     A ênfase, claro, é na sua predileção musical, divida entre a MPB, o Jazz e o Blues, mas há raridades entre todos os gêneros. Como exemplos, os títulos Araçá Azul (1973), de Caetano Veloso, com conteúdo experimental e que teve alto índice de devoluções, chegando mesmo a ser retirado de catálogo para ser relançado em 1987; e Azymuth, primeiro álbum da banda instrumental homônima, de diversas influências, formada nos anos 1970 pelos músicos José Roberto Beltrami, Alex Malheiros e Ivan Conti.
     Além de LPs diversos, Joaquim reúne também compactos e até peças bem antigas como as bolachas de 78 RPM. O volume é tal, que sua casa não foi suficiente para abrigar todos os itens e ele foi obrigado a montar outro espaço, com cerca de 200m2 e dividido em várias salas, apenas para manter parte da coleção.
     Como em uma grande loja especializada, os discos são acondicionados em estantes apropria­das e divididos por cada compartimento de acordo com os nomes dos artistas, pela ordem alfabé­tica. Para se orientar em meio a tantos álbuns, Jo­a­­quim monta, e atualiza regularmente, planilhas digitalizadas.
     A coleção foi iniciada nos anos 1980, mas foi na transição do vinil para o CD, sofrida no início dos 90 pelo mercado fonográfico, que o acervo começou a engrossar. “Nessa época, muitas pessoas começaram a se desfazer de seus discos e eu aproveitei para adquirir uma série deles; alguns até recebi gratuitamente, mas hoje em dia é bem mais difícil, principalmente em se tratando de raridades”, comenta.
     Joaquim não mede esforços quando se trata de ir atrás de seus objetos de desejo e tem endereços certos para procurá-los. No Rio de Janeiro, costuma frequentar a feira do vinil, organizada duas vezes por ano no bairro do Flamengo; em Juiz de Fora, a loja Museu do Disco é outro ponto certo para a garimpagem.
     Para a prática de selecionar minuciosamente as peças que enriquecem suas coleções, nossos personagens contam ainda com como uma poderosa aliada. Graças à visitas constantes a sites especializados na Internet, eles conseguem não apenas o acesso a itens raros, mas também o intercâmbio com outros colecionadores. O saudosismo pode ser grande, mas, todos concordam, a tecnologia atual é fundamental para revisitar o passado e trazê-lo de volta na forma de pequenas preciosidades.

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