Visão do futuro: um oásis de cultura, lazer, esporte, ecologia e convivência no coração de Itaipava

O planejamento para novas edificações inclui uma escola pública (à direita e ao fundo) e ampliação do Hortomercado Muncipal (à esquerda) para a incorporação de uma área de restaurantes

Com a infraestrutura verde e as conexões com estruturas ao entorno, o Rio Piabanha passa de mero coadjuvante a uma atração a mais do parque

Edifícios residenciais como resposta ao crescimento do Distrito cujo crescimento populacional é calculado em 4,5% ao ano

Fontes lúdicas, a exemplo das instaladas em parques europeus, estão incluídas no rol de atividades de lazer; à esquerda, a fachada do novo centro cultural

Maquete pelo ângulo de visão da União e Indústria.






Especial

Oásis em Itaipava

Projeto propõe a requalificação do Parque Municipal

     Motivo constante de preocupação entre moradores e frequentadores, o crescimento desordenado que há décadas vem ocorrendo nos Distritos de Petrópolis costuma despertar uma série de debates locais em torno de causas e possíveis soluções para o problema. Instituições ligadas ao meio ambiente, associações de moradores, especialistas em urbanismo, membros da imprensa, políticos e uma série de outros grupos mantêm o tema sempre em pauta, mas pouca coisa tem sido feita para, efetivamente, conter os riscos que o fenômeno é capaz de causar.
     Embora ações concretas não sejam tão frequentes quanto os debates, propostas não faltam. A da vez é um completíssimo projeto de requalificação do único espaço público de lazer em Itaipava, elaborado como projeto final do curso de graduação da arquiteta Patricia Suarez Parada na PUC-Rio. O trabalho – que prevê a “reinserção do parque no tecido urbano de Itaipava juntamente com o Rio Piabanha, como elemento fundamental para a retenção das águas das chuvas, através da requalificação e estruturação dos espaços livres” – abrange questões que vão desde a geografia local até alternativas de mobilidade e atividades para a população.
     “Escolhi o parque que frequento desde criança como tema e quando apresentei a ideia para os professores eles me orientaram a fazer um estudo completo de todo o entorno. Então, o projeto acabou tomando dimensões bem maiores”, conta a jovem arquiteta, que hoje divide o escritório Carlos Parada & Associados, em Araras, com o pai.
     Graças a esta orientação, ela foi reunindo dados muito importantes – acerca da topografia local, assim como de sua vegetação e hidrografia, além de aspectos demográficos e sociais – e que culminaram em um projeto capaz de solucionar algumas das questões mais prementes de Itaipava, como os constantes engarrafamentos na União e Indústria, por conta do grande e crescente volume de carros na estrada, e os alagamentos causados pelas chuvas.
     “O que observei foi que o distrito não oferece infraestrutura capaz de atender a população atual. A falta de pla­nejamento e infraestrutura tende a piorar com o aumento populacional e o trânsito congestionado na área é justificado pela existência de uma única via que atende toda a população do distrito de Itaipava e conecta a outros distritos. Além disso, a maior parte das residências se concentra nas partes periféricas do distrito, aumentando o número de carros.”
     No que concerne às enchentes que ocorrem periodicamente em Itaipava, o trabalho contempla um planejamento que possibilita maior permeabilidade do solo do parque, também prejudicada pelo aumento da ocupação, assim como alternativas para a absorção do excedente de água do rio Piabanha. “O projeto deve ser pensado a fim de encontrar um equilíbrio entre as construções e o meio ambiente. O plano diretor prevê para o local uma taxa mínima de 10% de área permeável, o que é insuficiente para atender a vazão das águas das chuvas. Portanto, um planejamento que possibilite que o solo seja mais permeável e ocupado de forma mais coerente com as características físicas e ambientais que a área apresenta é fundamental”, justifica.
     Como soluções para estas questões específicas, a arquiteta propõe a construção de uma infraestrutura ecológica para o parque. A nova organização considera a criação de deques, calçadas e ciclovias nas margens do rio para possibilitar novas conexões no tecido urbano, de uma via para a circulação de veículos de serviço (patrulha, bombeiro e resgate) e de um novo sistema de transporte público, como as jardineiras, além da construção de lagos que contribuam para a canalização das águas do Piabanha e ainda abriguem atividades aquáticas diversas.
     “A topografia do parque forma uma área mais baixa, onde ocorre retenção de água com as chuvas fortes. Ali existe um pequeno canal e áreas de brejo que apresentam condições precárias, como água poluída. O projeto prevê, então, a requalificação e ampliação deste canal – que apesar de não se conectar diretamente ao Rio Piabanha, recebe o fluxo de pequenos corpos d’água que descem do morro – para que possa reter a água acumulada das chuvas. Além disso, existe uma tubulação localizada no estacionamento do Shopping Vilarejo que recebe a água do Rio Piabanha naquele nível e a despeja no Parque Municipal, evitando que o nível de água aumente e cause inundações naquele trecho. Para que o parque possa receber esse volume de água a ideia é criar lagos que sirvam também para atividades e lazer no local, como uso para pedalinho, caiaque, e até mesmo como áreas de estar e contemplação” argumenta.
     Ao redor do rio, ela sugere a instalação de um parque linear, com calçada, ciclovia, pista de skate e patins, quiosques e espaços de estar e contemplação, sempre com a utilização de materiais permeáveis para os calçamentos. Em determinados locais, pontos de acesso à água são também seriam planejados para propiciar um maior contato das pessoas com o Rio Piabanha. Áreas de reserva, para a reconstrução da vegetação nativa, e novas áreas de lazer, também mereceram a atenção de Patrícia.
     “Com o crescimento de Itaipava as matas estão sendo devastadas, causando prejuízos à fauna local. Ao se preservar e reconstruir a vegetação (Ombrófila densa) seria possível proteger algumas das mais de 200 espécies de aves e outros animais silvestres que vivem nas matas de Petrópolis. É espantoso ver que a cidade representa aproximadamente 1,95% da Mata Atlântica e atualmente só possui 50% da vegetação nativa”, lamenta.
     Ainda que o parque represente uma parcela pequena da cidade, o planejamento que visa à proteção e à preservação de espécies nativas pode ser de grande contribuição a seu equilíbrio ambiental. No detalhamento deste aspecto, a arquiteta listou, inclusive, algumas espécies nativas da região para o replantio no parque; as sugestões incluem Acacia Amarela, Quaresmeira, Ipê Amarelo, Angico Branco, Canafístula, Aroeira Mansa, Pata de Vaca e Pau-Ferro.
     Atualmente, a área de 150.000m² do parque engloba diferentes instalações – subprefeitura, sala de leitura, central de informações, quadras de esporte, horta, parque infantil, estrutura para exposições agropecuárias, ciclovia, equipamentos para atividades físicas – no entanto, Patrícia considera os espaços de pouca qualidade e em condições precárias. Como forma de contornar a situação, ela propõe uma maior integração das atividades, inclusive com as existentes no entorno, e a criação de novos espaços de convívio, lazer e contemplação.
     Localizado ao lado do Parque Municipal, o Hortomercado, hoje um espaço tradicional, foi inaugurado em 1989, com o objetivo de estreitar a relação entre produtores e consumidores locais. Além de vender produtos agrícolas, abriga uma feira de artesanato no estacionamento, utilizado não apenas pelos consumidores, mas também pelos usuários do parque. A integração do caráter tradicional do horto com as atividades do parque, qualificando esses espaços de convívio e encontro é o que propõe a arquiteta.
     “Ao criar praças na frente de acesso da via União e Indústria gera-se um espaço de transição entre a frente urbana e o parque. Ali, onde já estão o Fórum, a feira de artesanato e o mercado, que poderia ser ampliado para abrigar também restaurantes, é possível instalar um centro cultural, com eventos diversos e inclusive, atividades noturnas; e uma escola pública para atender à demanda originada pelo adensamento populacional neste eixo central de Itaipava, que conta hoje com quatro instituições públicas de ensino.”
     Atualmente, além de feiras agropecuárias, o parque abriga shows, exposições e outros acontecimentos que reúnem um grande número de pessoas em espaço destinado a este fim. Também para este ambiente, Patrícia elaborou melhorias: em uma área de 20.000 m², o espaço seria moldado e equipado de acordo com as necessidades – palcos de shows, apoio para agropecuária, picadeiro, mobiliário e demais apetrechos ficariam à disposição para a utilização nos eventos; fora dessas ocasiões, livre para piqueniques ou outras atividades.
     Outras melhorias são propostas para a promoção de esportes e de recreação infantil. Sala com equipamentos multiuso de ginástica, bloco de apoio com salas para atividades e banheiros, quadras poliesportivas cobertas e ao ar livre são alguns exemplos das propostas para atividades físicas. Para os pequenos, implantação de elementos lúdicos distribuídos ao longo do parque e conexão com os demais espaços, permitindo maior vivência das crianças na área.
     Os acessos, hoje restritos à portaria principal e a três portões de serviço situados nos fundos, seriam também otimizados. A frente do parque tem como borda o eixo comercial da União e Indústria; os fundos, a Fazenda Bella Vista e áreas verdes, com acesso pela Estrada Mineira, que também conecta o espaço a áreas residenciais. Com a implantação de nova entrada voltada para esta via, e ainda a circulação de transporte público por ela, os ganhos seriam não apenas relacionados à facilidade de acesso, mas também à diminuição do fluxo de automóveis na estrada principal.
     Como resposta ao crescimento da área, a arquiteta propõe ainda a construção de edifícios, criando uma nova frente urbana voltada para o parque. “A área, caracterizada por fundos de lotes e barreira visual, ganharia vitalidade ao possuir comércio no térreo e residencial nos demais pavimentos; no total, seriam seis pavimentos residenciais com vista para o parque”, argumenta.
     Com o crescimento populacional de Itaipava calculado em 4,5% ao ano e base na população de 18.862 habitantes, registrada em 2014, Patrícia chegou à estimativa da população para as próximas décadas. Em 2024, o número passaria a 27.350 habitantes; em 2034, somariam 39.657; em 2044, 57.502. As previsões dispensam maiores esclarecimentos sobre a necessidade de providências imediatas e propostas não faltam.

Patrícia Suarez Parada: (24) 2225.0200
cadaconst@gmail.com


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