O Pequeno Príncipe em papel machê, presente de um amigo


Na sala onde os aviadores se reuniam nos momentos de lazer, objetos, fotos, recortes de jornais e revistas e outras peças relembram o período de ouro da Grande Vallée

No detalhe, registros da imprensa sobre o memorial construído em Itaipava

Por toda a casa se encontram os mais variados objetos ligados ao pequeno príncipe


Entre as peças colecionadas ao longo de muitos anos está a réplica do LAT 25 fabricado pela antiga companhia francesa Latécoère

Antigo proprietário, o aviador Marcel Reine é também lembrado na propriedade que batizou como La Grande Vallée para homenagear a beleza das terras situadas entre dois vales cercados de majestosas montanhas

Ao final do tour, os visitantes são levados à fonte – restaurada em 2000, ano do centenário de Exupéry – adornada com azulejos que mostram a ilustração original do personagem criada pelo próprio autor e a inscrição de uma de suas frases famosas

Também como parte das homenagens aos 100 anos de nascimento do escritor e aviador, a pracinha em frente à fonte recebeu uma placa comemorativa

Fotos: Henrique Magro




Especial

La grande vallée

Um memorial dedicado à aviação e a um personagem da literatura que, há mais de sete décadas, encanta crianças e adultos ao redor do mundo

     Existem mais conexões entre a aviação e Petrópolis do que supõe nossa vã filosofia. A mais conhecida delas é o fato de a cidade ter sido escolhida como refúgio por Santos Dumont, que aqui passou seus últimos dias, em uma casa com projeto próprio, construída no início do século XX e posteriormente transformada em um dos museus mais visitados do Centro Histórico. Também a circunstância de ser a cidade natal do patrono da Força Aérea Brasileira, Brigadeiro Eduardo Gomes – um dos responsáveis pela criação do Correio Aéreo Militar, depois transformado em Correio Aéreo Nacional – estabelece outra relação.
     Mas o que bem poucos sabem é que existe outro forte vínculo, formado entre o Distrito de Itaipava e aviadores franceses, que, também na primeira metade do século passado, frequentavam um sítio na localidade do Ribeirão. Entre o grupo incluía-se o mundialmente prestigiado escritor Antoine Jean Baptiste Marie Roger Foscolombe de Saint-Exupéry, mais conhecido pelo último sobrenome, autor do grande sucesso da literatura infantil O pequeno príncipe, com sua primeira edição publicada nos EUA, em 1943, e texto traduzido para mais de 220 idiomas e dialetos.
     A Fazenda São José do Magé e Ribeirão foi o palco desses memoráveis encontros. Adquirida em 1912 por Augusto de La Roque, que costumava receber no local pilotos da Aéropostale, a propriedade foi, anos depois, vendida a Marcel Reine, que, assim como o celebrado escritor, integrava a companhia francesa. Em suas vindas ao Rio de Janeiro, ao invés de hospedaram-se para o descanso entre os voos na base aérea do Campo dos Afonsos, passavam temporadas na fazenda, que o então proprietário passou a denominar La Grande Vallée.
     Em 1938, o piloto foi transferido e passou a atuar em outras rotas. A fazenda foi vendida em lotes e a sede ficou com a família do atual proprietário, José Augusto Wanderley, que transformou o local em um centro que celebra, ao mesmo tempo, a memória dos pioneiros da aviação mundial, da companhia francesa, do criador do pequeno príncipe e, especialmente, do personagem.
     Aberto ao público apenas com visitas agendadas, o memorial – que integra o programa Passaporte Cultural de Petrópolis, desenvolvido pelo Segmento de Museus do Conselho Municipal de Cultura (Sistema Municipal de Museus de Petrópolis) com o apoio da Fiocruz e da Fundação de Cultura e Turismo de Petrópolis, com descontos em mais de 30 atrações turísticas e culturais da cidade – reúne uma série de fotografias, livros, documentos e objetos relacionados aos diferentes aspectos da aviação.
     Mas é o ambiente, totalmente lúdico, montado com peças de um grande acervo em tributo ao livro e a seu personagem central, que mais chama a atenção e desperta o interesse do público, principalmente o infanto-juvenil. Além de recepcionar ali turistas interessados em conhecer esse rico universo, Wanderley desenvolveu um programa de visitas guiadas específico para escolas.
     “A ideia é mostrar aos jovens os valores contidos na obra. Antes das visitas, eles leem o livro e chegam aqui com diferentes questionamentos sobre tudo o que aprenderam. Durante um tour pelos ambientes da Grande Vallée, ele apresenta os objetos e conta histórias relacionadas à vida e obra do escritor e de seu mais célebre personagem. O roteiro termina em dois monumentos erguidos na propriedade para marcar sua passagem por Itaipava. Uma fonte – restaurada em 2000, por ocasião do centenário de Saint-Exupéry (1900-1944), que ostenta um painel de azulejos com ilustração do pequeno príncipe e uma das frases significativas do livro (“O que torna belo o deserto é que ele esconde um poço nalgum lugar.”) – e uma placa comemorativa, instalada em uma praça bem em frente à fonte e que recebeu o nome de Lourival Cavalcanti Wanderley (pai do atual proprietário), que também relembra suas vindas a Petrópolis.
     A partir desse programa, outros surgiram. “O SESI (Serviço Social da Indústria), por exemplo, já me procurou para fazer também uma parceria e trazer funcionários de empresas com seus familiares para esta experiência, que não se resume ao livro, mas aborda também as relações entre a aviação da França e do Brasil, uma vez que os pilotos franceses tiveram grande influência no desenvolvimento dos profissionais brasileiros”, comenta Wanderley.
     As relações com diferentes segmentos da aviação – ele é também diretor, para o Rio de Janeiro, da AMAB (Associação Memória da Aéropostale no Brasil) – deram a ele a possibilidade de receber na Grande Vallée um grupo especial: os membros da edição 2014 do “Raid Latécoère”, um roteiro percorrido por pilotos da empresa de aviação francesa de correios com o objetivo de fazer um inventário das rotas e vestígios da antiga companhia para um dossiê de tombamento pela UNESCO.
     Wanderley participou ativamente da organização de uma excursão que o grupo de doze pilotos fez a Petrópolis, quando de sua estada no Rio de Janeiro, e que resultou em uma visita ao Museu Casa de Santos Dumont, instituição que recebeu de presente uma réplica do monoplano modelo LAT 25 fabricado pela companhia. Em agradecimento, o empreendedor recebeu também uma réplica do mesmo avião, mantida em exposição no memorial de Itaipava. Outro legado deixado pelo Raid para Petrópolis foi o reestabelecimento do intercâmbio dos dois países em torno deste segmento e que já rendeu visitas de turistas franceses à cidade, especialmente para conhecer o refúgio onde se hospedava um dos grandes ícones de sua literatura.
     Em um futuro próximo, o empreendedor pretende ainda novos voos para a Grande Vallée. Motivado pelo ingresso no programa Passaporte Cultural de Petrópolis, pelas mais recentes parcerias e ainda pelo expertise culinário de sua mulher Maria Elisa Lustosa Toledo, ele se prepara para lançar eventos gastronômicos que irão apresentar a reprodução de dois cardápios com receitas da família Saint-Exupéry. Um programa mais do que completo para os aficionados por turismo cultural!

La Grande Vallée:
Rua das Acácias, 102 – Vale do Ribeirão Grande – Itaipava
(24) 2222.1388 | (21) 99354.3179
zewanderley@gmail.com



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