A Vinícola Inconfidência produz variedades europeias que atualmente são processadas na incubadora da Epamig


A área da propriedade destinada ao plantio soma 2,5 hectares

Entre as uvas tintas, o vinhedo inclui as variedades Cabernet Sauvignon, Cabernet franc, Syrah e Merlot

Os vinhos brancos da Vinícola Inconfidência são produzidos a partir das uvas Sauvignot blanc e Viognier

O fotógrafo Paulo Santos, proprietário e chef do Matilda Restaurante, que há anos visita o vinhedo, colaborando na colheita do período outono/inverno 2016
Foto: Beth Levacov


A vinícola já conta com um estoque razoável para a comercialização, que deve ser iniciada em setembro deste ano


A safra 2015 dos vinhos Sauvignon Blanc e Cabernet franc tiveram produções limitadas a 400 e 900 garrafas
Foto: divulgação

Fotos: Henrique Magro


Capa

Em se plantando, tudo dá!



     Usada por Pero Vaz de Caminha para amenizar a decepção causada pela aparente falta de ouro e prata na Terra de Santa Cruz, a expressão contida na primeira carta enviada ao rei de Portugal depois do descobrimento não poderia ser mais adequada ao território brasileiro. É verdade que o escrivão da frota de Cabral se precipitou e cometeu um grande engano ao reportar a falta de minerais preciosos, mas isso é outra história ...
     Todo este introito é para reforçar a imensa capacidade de nossas terras para as mais diversas culturas e anunciar, não sem uma boa dose de orgulho, que na região serrana do Rio de Janeiro a expressão ganha ainda mais significado e: sim, temos nossa própria vinícola!
     Localizado em Sebollas (Paraíba do Sul), bem ao lado de Secretário (Petrópolis) e distante apenas 20 km de Itaipava, encontra-se o primeiro produtor de vinhos do estado. E não se trata de uma tentativa tímida, ou projeto experimental, de cultivo das frutas para a produção da bebida. A Vinícola Inconfidência, do engenheiro José Cláudio Aranha, produz com sucesso, há três anos, seis diferentes tipos de uva para a produção de vinhos finos (elaborados a partir de variedades europeias, espécie Vitis vinífera) de alta qualidade.
     A área de plantio soma 2,5 hectares e é dividida entre o cultivo das uvas Cabernet franc, Cabernet Sauvignon, Merlot, Syrah, Sauvignot blanc e Viognier, esta última introduzida bem recentemente.
     Por enquanto, a vinificação é realizada em Minas, com o apoio da Epamig (Empresa de Pesquisa Agropecuária de Minas Gerais), que reúne pequenos produtores em uma espécie de incubadora, no Campo Experimental de Caldas, referência em pesquisas de cultivo de uva para a produção de vinhos de mesa, finos e sucos. Mas o projeto não se resume apenas ao cultivo das uvas em Sebollas.
     O produtor já tem planos para a instalação dos galpões que irão abrigar não só o maquinário para a realização do processo de vinificação de forma integral, mas também loja e ambiente para a degustação da bebida no próprio vinhedo. O prognóstico é de que os espaços para comercialização e experimentação do produto no local comecem a funcionar a partir de 2017 e, embora o projeto ainda não esteja completo, a vinícola já está aberta à visitação com agendamento prévio.
     “Estamos nos preparando para a realização de todo o ciclo de vitivinicultura (desde a plantação até a rotulagem das garrafas) aqui, mas ainda vai demorar um pouco para a implantação completa da estrutura. O prazo estimado para o funcionamento pleno da vinícola é de cerca de 10 anos, a contar da plantação das primeiras mudas, e os planos incluem a vinificação de pelo menos 30% da produção já em 2019 e produção total no ano seguinte”, prevê Aranha.
     Os primeiros passos para o ingresso do engenheiro carioca neste mercado foram dados em 2008, com a realização de pesquisas e a troca de informações com especialistas da área. A partir daí, o processo incluiu o estudo e correção do solo da área da propriedade destinada ao plantio (onde antes havia apenas pasto), além de aspectos burocráticos para licenciamentos, compra das plantas, testes, treinamento de pessoal e uma série de outros procedimentos necessários, até que em 2010 foram plantadas as primeiras mudas.
     As matrizes foram trazidas da França por Murillo Regina, da empresa Vitácea Brasil (primeiro e único viveiro brasileiro a possuir licença para a multiplicação dos principais clones das variedades de vinhos franceses no Brasil), também localizada na cidade de Caldas, e a primeira colheita aconteceu em 2013. Neste e nos anos seguintes foram produzidos os vinhos Syrah, Sauvignon blanc e Cabernet franc, e a expectativa para este ano é que a produção alcance quatro toneladas para a vinificação de quatro diferentes variedades de uvas.
     “Deste total, esperamos ao menos 250Kg de Merlot, um feito inédito na região sudeste do Brasil, uma vez se trata de uma uva com mais dificuldade de adaptação e que exige mais cuidados”, avalia André Luiz dos Santos, gerente da vinícola. Ele explica que cada variedade tem seu tempo próprio de desenvolvimento e apenas agora um grande volume está apto a entrar na escala de produção. “Atualmente temos 8 mil plantas já produzindo e 6,6 mil ainda jovens, em processo de desenvolvimento, que devem levar cerca de três anos para chegar ao ponto de colheita”, acrescenta.
     Mesmo estando ainda no início de sua produção – com um estoque ainda pequeno de vinhos engarrafados e comercialização prevista para começar em setembro deste ano, com distribuição inicial nos restaurantes da região –, a Vinícola Inconfidência já se prepara para garantir alguns títulos de respeito no mercado. Além da classificação oficial na categoria “vinhos de inverno”, que identifica o tipo de manejo das videiras adotado ali e conhecido como “dupla poda” (veja artigo assinado pelo Dr. Frederico Novelli, técnico da Vitácea Brasil), o produtor empenha-se em conseguir o selo DOC (Denominação de Origem Controlada) – conceito usado para designar a originalidade, qualidade e características de determinados vinhos ligados a uma região específica.
     “A princípio, estamos trabalhando apenas com a Syrah para a denominação; já temos algumas plantas marcadas e recebemos visitas bimestrais de técnicos para verificação e controle. A classificação entre os vinhos de inverno, por se tratar de um novo conceito, desenvolvido pela equipe do Centro Tecnológico Uva e Vinho da EPAMIG, ainda depende da formação de um comitê específico, mas que já está sendo encaminhado pelo Murillo Regina, para a experimentação e validação”, explica Aranha.
     De acordo com relatórios da UVIBRA (União Brasileira de Vitivinicultura), localizada em Bento Ribeiro (RS), durante o ano de 2015 a produção nacional de uvas atingiu 1,4 milhão de toneladas e 40% deste total foi utilizado para a fabricação de vinhos. Os levantamentos também dão conta de que a produção anual da bebida no país chega a 333 milhões de litros; dividindo-se entre 280 milhões de vinhos comuns e 53 milhões de vinhos finos. Neste mesmo ano, o consumo nacional de vinhos finos foi estimado em 137 milhões de litros, com quase 40% deste total representado por marcas nacionais.
     Ainda segundo informações da instituição, o consumo per capta da bebida no Brasil é de 2,0 litros anuais (levando-se em conta todos os tipos de vinhos) e de 0,7 litros de vinhos finos. Outro dado relevante é que, embora já tenhamos alcançado níveis de qualidade muito bons nas produções nacionais, ainda é grande o volume de exportações, especialmente do Chile e da Argentina, que respondem por 61% dos produtos que vem de fora, com 44% e 17% respectivamente. O restante divide-se por Portugal (12%), Itália (12%), França (6%) e outros países (9%).
     O Brasil – que vem produzindo vinhos desde o início de sua colonização, com as primeiras videiras trazidas ao país em 1532 por Martim Afonso de Souza – é hoje considerado o quinto maior produtor vitivinícola do hemisfério sul. Entretanto, a julgar pelas inovações registradas em importantes áreas da ciência e da tecnologia (como ecofisiologia vegetal, enologia, fitotecnia, ciências dos alimentos, genética e biologia molecular de plantas), além das pioneiras técnicas de manejo desenvolvidas aqui pela Epamig e que permitem a elevação da qualidade das matérias-primas, esta “modesta” posição no ranking pode, brevemente, ser alterada.
     Caminha pode até ter se precipitado e errado acerca dos minerais preciosos, mas quanto à capacidade de produção dessas terras foi, talvez até sem saber a real dimensão da sentença – “Não encontramos cá nem ouro, nem prata; entretanto percebemos que aqui se plantando tudo se dá!” –, extremamente preciso.


Vinícola Inconfidência:
Estrada Tiradentes, 4.000 – Sebollas – Paraíba dos Sul
(24) 9921.59483
andreluizdossantos@hotmail.com

Fontes: Epamig (www.epamig.br);
Vitácea Brasil (www.vitaceabrasil.com.br);
IBRAVIN (www.ibravin.org.br);
UVIBRA (www.uvibra.com.br)



MANEJO DA DUPLA PODA – VINHOS DE INVERNO
     A variação macroclimática mundial, juntamente com a interferência humana, é responsável pela diversidade e pela qualidade dos produtos enológicos, sendo o clima um dos fatores mais importantes para a definição da tipicidade do vinho. Dentre os diversos fatores externos que influenciam no crescimento e no desenvolvimento das plantas, as exigências climáticas da videira são definidas fundamentalmente pela temperatura, luminosidade, umidade atmosférica e disponibilidade hídrica. A vitivinicultura nacional tem evoluído para a melhoria da qualidade dos vinhos finos. Entretanto, um dos grandes entraves à evolução está na melhoria da qualidade da matéria-prima.
     As principais regiões produtoras de vinhos do país geralmente possuem apenas um ciclo de produção, em que, na maioria dos casos, o momento da maturação e colheita coincide com os meses de maior precipitação pluviométrica e altas temperaturas. Dessa forma, a elevada incidência de doenças fúngicas, aliada à baixa radiação solar, ao excesso de água no solo e a outros fatores climáticos impedem que a uva atinja a completa maturação, comprometendo a qualidade dos vinhos. Por outro lado, nas regiões tropicais (nordeste brasileiro), as temperaturas elevadas, junto com a baixa amplitude térmica, dificultam a concentração dos compostos fenólicos essenciais para dar cor, estrutura e estabilização aos vinhos.
     No sudeste brasileiro, assim como na maioria das regiões vitícolas do país, o período tradicional da colheita também ocorre nos meses de janeiro e fevereiro, momento de maior precipitação pluviométrica. Entretanto, a equipe do Centro Tecnológico Uva e Vinho da EPAMIG, localizado em Caldas-MG, desenvolveu através de vários trabalhos científicos, realizados inicialmente no Sul de Minas Gerais (cidade de Três Corações, Fazenda da Fé), um novo método de manejo das videiras chamado de sistema da dupla poda, que possibilitou a elaboração de vinhos finos de alta qualidade. Este novo manejo consiste em transferir a época de maturação das uvas do verão chuvoso e de altas temperaturas diurnas e noturnas para uma época de amplitudes térmicas (dia/noite), dias ensolarados e secos que ocorrem durante o outono/inverno do sudeste brasileiro.
     Este clima do outono-inverno é favorável ao maior acúmulo de açúcar, dispensando o processo de chaptalização (correção do teor de açúcar do mosto com sacarose) e a síntese de compostos fenólicos na película das bagas, o que favorece a qualidade dos vinhos produzidos nas questões de cor, aroma, estrutura e equilíbrio em boca. Nestas condições a matéria-prima tem um período de maturação mais longo, graças a essas condições climáticas favoráveis, o que possibilita uma maturação tecnológica (acúmulo de açúcar e degradação equilibrada dos ácidos orgânicos) e uma maturação fenólica (formação de precursores aromáticos, evolução dos taninos e síntese das antocianinas) das uvas mais completa.
     Este manejo consiste em duas podas: poda de inverno e poda de verão. A poda de inverno é realizada no mês de agosto com objetivo único de formação de ramos e gemas latentes lignificados até o mês de janeiro, ou seja, logo após a formação das primeiras bagas nos cachos (outubro) esses são retirados das plantas para que não ocorra o ciclo tradicional de maturação e colheita durante o verão. As plantas são novamente podadas em janeiro (poda de verão), quando os ramos e as gemas estão lignificados, para que se inicie o ciclo produtivo propriamente dito, com floração durante o mês de março, formação das bagas em abril, início da maturação em maio, ou seja, acompanhando o ciclo descendente de temperaturas e chuvas que ocorrem no primeiro semestre do ano. Portanto, a colheita dessas uvas coincide com o período mais seco do ano e com temperaturas em torno de 20-25o.C durante os dias ensolarados e em torno de 10-15ºC durante as noites.
     As duas variedades Vitis vinífera mais adaptadas ao manejo da dupla poda são a Syrah e a Sauvignon Blanc, seguidas pela Cabernet Franc e Viogneir. Outras variedades ainda fazem parte de experimentos científicos realizados pela equipe da EPAMIG Uva e Vinho para validação neste manejo da dupla poda. Hoje os vinhos de inverno são produzidos principalmente nos estados de Minas Gerais, São Paulo e Rio de Janeiro, mas também já existem vinhedos que adotaram o manejo da dupla poda na Chapada da Diamantina – BA e em Goiás. Hoje já são mais de 200 ha de vinhedos em produção, com um potencial de elaboração de 300 mil litros de vinhos finos por ano. Até o final de 2016 estarão no mercado sete marcas comerciais.
     A marca pioneira no mercado é a Estrada Real, este projeto iniciou-se em 2003 na Fazenda da Fé, em Três Corações (MG). Em seguida vieram as marcas Luiz Porto vinhos finos, localizada na cidade de Cordislândia (MG), e a Guaspari, na cidade de Espírito Santo do Pinhal (SP). Recentemente foi lançada a marca Casa Verroni, com vinhedo localizado em Itobi (SP). Além dessas, a Vinícola Campino possui a linha de vinhos finos Casa Geraldo, que já conta com alguns rótulos de vinhos de inverno. Ainda este ano serão lançadas duas novas marcas: Maria Maria e Vinícola Inconfidência, com vinhedos localizados respectivamente em Três Pontas (MG) e Paraíba do Sul (RJ).

Dr. Frederico Alcântara Novelli Dias (Técnico – Comercial Vitácea Brasil)

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