Considerado o tempero da cerveja, o lúpulo é um dos ingredientes básicos e o elemento que confere identidade quanto ao amargor e aroma a cada estilo da bebida
Foto: Divulgação

Da cevada é produzido o malte com que se fabrica a cerveja
Foto: Henrique Magro

Um dos maltes mais utilizados nas cervejas especiais é proveniente da Alemanha
Foto: Rolf d’Ottenfels


A Buda Beer, assim como as cervejarias Real e Cazzera, marcaram presença na 3ª edição do Mondial de La Bière, realizada em novembro de 2015, no Píer Mauá, Rio de Janeiro, com público de 38 mil visitantes ao longo de quatro dias
Foto: Rolf d’Ottenfels






















































































































A produção atual da Cervejaria Real alcança 22 mil litros por mês e a capacidade da fábrica instalada é de 50 mil litros

Nas instalações da Real, equipamentos modernos foram acomodados no interior de uma antiga cocheira


A fábrica de Itaipava produz atualmente quatro diferentes tipos de cerveja (Pilsen, Weiss, Red e Black), que comercializa em forma de chope, mas já se prepara para a comercialização do produto em garrafas

O cuidado em preservar as características arquitetônicas originais é percebido tanto no exterior quanto no interior do prédio que abriga a cervejaria




























O maquinário nacional de alta tecnologia cervejeira, desenvolvido pela EGISA – empresa localizada em Bento Gonçalves, na Serra Gaúcha – é o orgulho da Buda Beer


A varanda do brewpub oferece visão privilegiada da fábrica; a pequena piscina confere um charme a mais ao ambiente


A varanda do brewpub oferece visão privilegiada da fábrica; a pequena piscina confere um charme a mais ao ambiente

No brewpub é possível experimentar sete diferentes tipos de cerveja: Hare Pilsen, Musa Paradisiaca Weiss, Prahna Vienna, Amon Tripel, Maya Red Ale, Hildgard I.P.A. e Mid Night Stout

Para harmonizar com a especialidade da casa, petiscos diferenciados como os festejados croquetes do bar Aconchego Carioca







A cigana Cazzera concentra sua produção na fábrica da Antuérpia, localizada em Juiz de Fora (MG)
Foto: divulgação




A adição de toques especiais às criações são características da Cazzera, que realiza estudos constantes acerca de ingredientes, processos e misturas para chegar à alquimia que considera ideal
Fotos: Shutter Stock

O primeiro rótulo foi criado a partir de uma receita milenar, em que foram adicionados sabores bem brasileiros: capim limão e cascas de laranja lima
Foto: Totem Studio

O novo lançamento da Cazzera é uma cerveja com mais corpo e lupulagem alta, mas que privilegia o equilíbrio e harmonia em sua composição
Foto: Totem Studio

Fotos: Henrique Magro


Capa

Vai uma loura especial aí?



     Se termos como Drinkability, Brassagem, Maltagem e Carbonatação não fazem parte de seu cotidiano, se acostumar com eles é apenas uma questão de tempo. Pode estar certo de que em algum momento vai ouvir repetidamente cada um deles (e muitos outros) de algum entusiasta das cervejas artesanais; ou especiais, como preferem os conhecedores. Se for residente ou frequentador da serra fluminense, então, nem se fala. O estado do Rio de Janeiro vem experimentando um verdadeiro boom na fabricação da bebida e o município de Petrópolis tem grande participação no fenômeno.
     Os dados impressionam: em três anos, o salto foi de 13 para 31 unidades fabris, o que significa que no período compreendido entre 2012 e 2014 o crescimento do número de pequenas e médias fábricas no estado foi de 138%, enquanto a média nacional registrada foi de 81%. Isso sem contar as cervejarias inauguradas em 2015. Se contabilizadas as empresas que não possuem fábricas próprias (conhecidas no setor como ciganas) e terceirizam sua produção, o total chega a quase o dobro deste número. De acordo com levantamentos realizados pelo Sebrae, de um total de 450 produtoras nacionais de cerveja, 391 são microcervejarias.
     Tradicional berço da cultura cervejeira no Brasil, o estado do Rio faz jus à fama. Na capital fluminense é realizado desde 2013 o mais importante salão de cervejas artesanais e premium das Américas, o Mondial de La Bière, que tem também edições anuais nas cidades de Montreal (Canadá) e Mulhouse (França). A terceira edição do evento em terras tupiniquins, em novembro de 2015, no Píer Mauá, reuniu 38 mil visitantes ao longo de quatro dias.
     Além de mais de 800 rótulos de cervejas especiais para degustação, o evento ofereceu uma programação de talk-shows para profissionais e amantes da bebida. No último dia, a revelação das três cervejas mais votadas pelo público presente. Com 1,2 mil votos computados, as grandes vencedoras foram a Petra Stark, do Grupo Petrópolis, com medalha de bronze (olha nós aí!); a Interstellar, da Hocus Pocus, que ficou com a prata; e a bicampeã Niña, da Jeffrey, grande vencedora do ouro pelo segundo ano consecutivo.
      Os organizadores do salão registraram um exponencial crescimento de público e marcas em relação aos anos anteriores, demonstrando que “o Rio de Janeiro entrou definitivamente no cenário da cerveja artesanal e tem uma demanda pulsante”. Brindemos a isso! E também aos lançamentos da primeira publicação carioca especializada no tema – a revista em formato pocket Rio de Cerveja, distribuída em primeira mão no salão internacional – e da Rota Cervejeira do Rio de Janeiro, em que se destacam os produtores de Petrópolis, iniciado no final de 2014.
     A rota – que reúne grandes e pequenos produtores de Petrópolis, Teresópolis, Nova Friburgo, Cachoeiras de Macacu, Guapimirim e Santa Maria Madalena e objetiva o fomento ao setor de cervejas especiais na região, além de proporcionar aos visitantes uma imersão na cultura da cerveja e da gastronomia, em um rico cenário de montanhas, cachoeiras, parques naturais e outros atrativos – tornou esta vocação natural ainda mais patente. Com 15 cervejarias participantes, o projeto oferece pacotes com roteiros elaborados e comercializados por agências de turismo, que incluem visitações a cervejarias e a pontos turísticos locais.
     Em Petrópolis, onde, em 1853, foi instalada a primeira fábrica de cerveja do país, a Bohemia, o circuito compreende atrações como o Hotel Quitandinha, o Palácio de Cristal, a Catedral, o Museu Imperial e a Casa de Santos Dumont. As cervejarias que atualmente integram o roteiro são Bohemia, Petrópolis (ambas com produção de linhas especiais, apesar do grande porte), Cidade Imperial, Braun & Braun, Cervejaria Real, Buda Beer e Cazzera.
     A equipe da Estações de Itaipava teve o imenso prazer de conhecer a produção das três últimas – cada qual com suas particularidades acerca de tipos, sabores, envasamento, distribuição etc. – e apresenta aqui uma amostra deste rico universo. Antes, contudo, uma breve dissertação sobre as tão acalentadas cervejas especiais, para quem ainda não domina a prática cujo lema mais propalado é: Beber menos e beber melhor.
     O preceito tem sua razão de ser. Uma das principais características das cervejas consideradas artesanais, ou especiais, não é o volume de sua produção e sim os cuidados dispensados a ela; desde a qualidade dos ingredientes, receita, tempo de fermentação e maturação até a utilização dos conservantes, que devem ser, imprescindivelmente, naturais. Cervejas artesanais são mais bem elaboradas, com produções mais restritas, embora não necessariamente pequenas, e, sobretudo, com o máximo de respeito ao tempo exigido para cada etapa da produção, resultando em produtos com resultados finais diferenciados. O melhor de tudo é que, de acordo com fabricantes e conhecedores, não provocam a incômoda ressaca no dia seguinte!
     Muitas microcervejarias, mesmo utilizando equipamentos modernos e engarrafando suas produções, ainda assim são consideradas artesanais, justamente pelo cuidado que têm com sua produção, inclusive, e fundamentalmente, a utilização de 100% de malte de cevada como fonte de açúcar fermentável. Já as cervejarias caseiras, são, literalmente, artesanais, uma vez que utilizam equipamentos pequenos e normalmente são fabricadas em cozinhas domésticas, sem a utilização de maquinários para engarrafamento, com o envasamento da produção em garrafas comuns e rolhas. De modo geral, o volume é de 20 a 40 litros por vez e qualquer um (qualquer um mesmo!) pode adquirir equipamentos e ingredientes para fabricar em casa a sua própria marca. Mas agora vamos aos profissionais!

Cervejaria Real | Fotos: Henrique Magro
     Em uma bela construção que servia originalmente para abrigar cavalos da raça Lusitana, o empreendedor Wagner Jorge Costa Silva e seu filho Wagner Jorge Siqueira da Silva, o mestre cervejeiro Waguinho, como é também conhecido, elaboram quatro diferentes tipos de cerveja, para comercialização em forma de chope. Com uma produção que atinge cerca de 22 mil litros por mês e capacidade da fábrica instalada para 50 mil litros, atualmente a Cervejaria Real, em Itaipava, comercializa seu produto em barris para bares, restaurantes e ainda eventos particulares, através de delivery, para Petrópolis, Rio e Três Rios.
     O Pilsen da Real é um chope elaborado com 100% de puro malte alemão, com o lúpulus de mesma procedência, e tem entre suas características a coloração amarelada em tom de ouro, suavidade e refrescância.“A Pilsen é a porta de entrada para quem deseja se iniciar nas cervejas especiais. Embora a produção artesanal imprima a ela características um pouco diferentes das que o consumidor está acostumado, é uma cerveja bem refrescante e não causa grande impacto a quem está começando a experimentar este estilo”, observa Waguinho.
     Também com ingredientes importados – “o único componente nacional que utilizamos é a água captada de mina própria”, frisa o mestre cervejeiro – são fabricados ali o Weiss, um chope cremoso, de aspecto turvo, com leveduras em suspensão; o Red, de cor avermelhada, com presença de lúpulos americanos no amargor e equilibrado com o dulçor residual de maltes tostados e caramelados; e o Black, chope escuro, com sabores de maltes tostados e cremosidade densa e consistente que persiste até o último gole.
     Os planos da cervejaria, em um prazo de seis meses a um ano, incluem o lançamento de novos estilos da bebida, a comercialização das cervejas engarrafadas (todo o maquinário e estrutura necessários já estão disponíveis na fábrica) e a montagem de distribuidoras próprias no Rio de Janeiro e em Juiz de Fora (MG). “Hoje, nosso único limitador em termos de distribuição é o cuidado que temos de ter com o transporte do chope. Ele não é pasteurizado e não tem proteção contra fatores externos; por isso, embora tenham chegado muitos pedidos, preferimos não fazer entregas em lugares que ultrapassem os 200km de distância”, explica Wagner Jorge.
     Em breve a cervejaria – montada em uma área verde de 30 mil M2, com a preservação das características originais do prédio e do local – começará a organizar eventos esporádicos para receber visitantes, que terão a oportunidade não apenas de degustar um produto de alta qualidade, mas também de conhecer as instalações cuidadosamente preparadas pelo empreendedor para sua elaboração. Um programa e tanto!

Cervejaria Real:
Estrada dos Mundeos, 136 – Itaipava
(24) 2222.4254
contato@cervejariareal.com | facebook.com/cervejariareal


BudaBeer | Fotos: Rolf d’Ottenfels
     Inaugurada em meados de 2015, a cervejaria Buda Beer é o primeiro brewpub (bar que produz a própria cerveja e a comercializa apenas localmente) de Petrópolis. Com uma capacidade de produção mensal de 7 mil litros, os sete diferentes tipos de chope – Hare Pilsen, Musa Paradisiaca Weiss, Prahna Vienna, Amon Tripel, Maya Red Ale, Hildgard I.P.A. e Mid Night Stout – são fabricados estritamente com ingredientes importados em equipamentos nacionais.
     “Por uma série de motivos, como condições climáticas, não conseguimos usar integralmente matérias primas nacionais na produção, mas a utilização da alta tecnologia cervejeira com maquinário totalmente brasileiro é motivo de orgulho para nós”, celebra Ana Claudia Pampillon, gerente do brew­puber, com larga experiência no mercado de cervejas especiais.
     Além das cervejas que integram o portfólio, a cada três meses o mestre cervejeiro Rolf d’Ottenfels, um dos proprietários da cervejaria, lança uma nova receita que figura de forma sazonal no cardápio. A nova empreitada, que começa agora a tomar forma, é a comercialização das cervejas de linha em garrafas, com distribuição estratégica na cidade, começando pelo próprio brewpub e pelas fábricas que integram a Rota Cervejeira.
     Mas essas não são as únicas atrações: pratos elaborados com a bebida (como o arroz cervejeiro, confeccionado com cerveja Vienna e maltes defumados, servido apenas nos horários de almoço, aos sábados e domingos), assim como a Régua Degustação (shots de 100ml de quatro diferentes estilos) fazem a alegria de quem frequenta a simpática casa do Valparaíso, em Petrópolis. Além da possibilidade de experimentar boa variedade da bebida, com direito à harmonização com petiscos sugerida no menu, da área externa do bar pode-se admirar a sala de fabricação.
     Mensalmente, a cervejaria realiza também cursos para a formação de cervejeiros. Em um dia inteiro de imersão, os cursos consistem de aulas teóricas e práticas, em que os alunos aprendem a fabricar em panelas, com a utilização dos processos tipicamente artesanais. Depois de respeitado o prazo para que o produto chegue ao ponto ideal (cerca de 30 dias), todos os participantes recebem a cerveja engarrafada em domicílio. Nada mal, não?

Buda Beer:
Rua Rocha Cardoso, 166 – Valparaíso
(24) 2231.3219
www.budabeer.com.br facebook.com/CervejariaBudaBeer












Cervejaria Cazzera
     Representante das ciganas entre as nossas especiais, a Cazzera, nascida em Petrópolis a partir da associação dos cervejeiros Mario Signorini, Marcelus Fasano e Jean Pierre Rochebois, é produzida na fábrica da Antuérpia, em Juiz de Fora (MG), e entre os pontos de venda estão diversos mercados, restaurantes e delis tradicionais de Petrópolis e Rio de Janeiro.
     Embora o espaço destinado à produção e a estrutura de maquinário não sejam próprios, a Coisa linda, primogênita da Cazzera, com pouco mais de seis meses de mercado, é elaborada de forma totalmente independente, com tanques próprios (capacidade para 8 mil litros e volume mensal de 2 mil), e sob a constante supervisão dos donos da marca.
     De estilo Belgian Dark Strong Ale, criado pelos monges Trappistas, é uma cerveja cremosa, de cor escura e facilmente reconhecida pelo seu aroma expressivo e um leve toque defumado. À receita milenar foram adicionados sabores bem brasileiros: capim limão e cascas de laranja lima. É uma cerveja forte, com audaciosa quantidade de álcool (7,5%) e utilização de sete maltes importados, além de dois tipos de lúpulos.
     A Cheia de graça, lançamento recente da Cazzera, é do tipo I.P.A. inglesa (India Pale Ale), produzida com bastante lúpulo, conferindo a bebida sabor fortemente frutado e maior teor alcoólico. “Este é um estilo que vem fazendo muito sucesso no Brasil nesse momento e, embora a I.P.A. Americana seja a mais difundida, optamos pela inglesa já que atualmente o mercado está com poucas cervejas inglesas e também porque preferimos produzir o que gostamos mais e não seguir a onda”, defende Mario, acrescentando que é uma cerveja com mais corpo e lupulagem alta, porém equilibrada e harmoniosa.
     Por enquanto, são estes os dois rótulos da Caz­zera, mas a expectativa é chegar a pelo menos quatro até o Mondial deste ano, de acordo com o cervejeiro. “Além de muito apaixonante, este é um processo contínuo de experimentação; gostamos de inovar, combinando as tradições milenares da arte de fazer cerveja com uma incansável busca pelo sabor”, afirma o cervejeiro. Nós, apreciadores, erguemos nossas tulipas à iniciativa!

Cervejaria Cazzera:
(24) 2291.7632
contato@cazzera.com.br



     Para quem ainda não se habituou, Drinkability é um dos critérios de avaliação de uma bebida, que considera o quão agradável é a sensação provocada pelo produto; Brassagem é a fase de fabricação de cerveja que consiste na dissolução dos componentes açucarados do malte e dos cereais não maltados em uma solução chamada de mosto; Maltagem é o processo controlado de determinação do cereal, que inclui umedecimento, germinação e secagem, de forma a quebrar as moléculas de amido e prepará-las para serem trituradas e moídas; e Carbonatação, característica natural da cerveja que lhe confere a efervescência, provocando a sensação de textura e aparência espumante;
     Mas o melhor mesmo é aproveitar a onda e ir conhecer in loco todos esses processos, além de experimentar as cervejas de qualidade que hoje são fabricadas em Petrópolis. Como apregoam os especialistas: beba menos e beba melhor!


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