Formado por descendentes de escravos que vieram do Congo, da Guiné e principalmente de Angola, o Quilombo São José da Ser­ra – localizado em uma área de 476 hectares na Serra da Beleza, em Valença – é o mais antigo quilombo do Estado do Rio, constituído por volta de 1850
Foto: Wallace Feitosa


O Quilombo da Tapera ocupa 100 hectares da antiga Fazenda Santo Antônio; em 1849, o fazendeiro Agostinho Goulão deixou esta fatia de terra como um legado aos escravos alforriados


Depois das intensas chuvas de 2011, um programa da Prefeitura de Petrópolis permitiu a construção de novas casas em locais mais afastados das áreas de risco

Com as características das edificações dos antigos quilombos, estrutura de pau a pique e chão de terra batida, o espaço de convivência da Tapera foi erguido pelos atuais moradores para manter a tradição de seus antepassados


O livro A Cozinha dos Quilombos: sabores, territórios e memórias, um projeto do Instituto DAGAZ, contempla 29 comunidades quilombolas do Estado do Rio de Janeiro. A foto da capa do livro é de Wallace Feitosa


A tradicional feijoada da Tapera, que figura no livro, é organizada sempre no dia 20 de novembro para comemorar o Dia Nacional da Consciência Negra, mas pode também ser servida para grupos em outras datas por encomenda
Foto: Wallace Feitosa

Como forma de celebrar sua riqueza cultural, a associação criou o Grupo de Artes do Quilombo da Tapera, formado pelas crianças e adolescentes da comunidade
Foto: Marcelo Cruz


Em detalhe, interior da estrutura de pau a pique caprichosamente conservada pelos atuais moradores


A Roda de Jongo é uma das manifestações artísticas mais presentes nas comunidades quilombolas
Foto: Davy Alexandrisky


A estreia da trupe foi na Maratona Cultural em comemoração aos 174 anos de Petrópolis, realizada em março de 2017, com participação dos jovens no musical Quilombo nossa riqueza imperial, apresentado na Praça da Liberdade
Foto: Marcelo Cruz


Em São José da Serra, Valença (RJ), os quilombolas mantêm a tradição do Congá (ponto principal de axé do terreiro, onde as energias são renovadas), herdada dos antepassados africanos
Foto: Davy Alexandrisky


O Parque Memorial Quilombo dos Palmares, em União dos Palmares (AL), inclui entre suas construções a “Muximba dos Palmares”, espaço contemplativo mais importante dos guerreiros quilombolas
Foto: Tribuna do Sertão


As ocas indígenas também estão no memorial como um tributo a esses povos cujos valores e contribuição cultural foram fundamentais à sobrevivência dos quilombos
Foto: Divulgação


O Quilombo dos Kalunga, com 230 mil hectares de cerrado, na Chapada dos Veadeiros (GO) é o maior território remanescente de quilombolas do Brasil
Foto: Valter Campanato/Ag.Brasil


A comunidade do Quilombo do Kalunga – que no idioma banto significa lugar sagrado e de proteção – é formada, principalmente, por descendentes de escravos oriundos de Angola, Congo e Moçambique
Foto: Valter Campanato/Ag.Brasil

Assim como a maioria dos quilombolas das áreas rurais, os estabelecidos na Chapada dos Veadeiros se dedicam a atividades agrícolas
Foto: Valter Campanato/Ag.Brasil

Além dos pratos típicos, os quilombolas cultivam entre as tradições culinárias a preparação dos alimentos em fogo lento e, muitas vezes, em fogões comunitários a céu aberto
Foto: Valter Campanato/Ag.Brasil


O café passado no coador de pano é uma das muitas tradições que sobrevivem nas cozinhas quilombolas, sempre de portas abertas aos visitantes, como no território dos Kalunga
Foto: Valter Campanato/Ag.Brasil


Em São José da Serra a maioria da população é formada por crianças e jovens e todos os moradores são netos, bisnetos e tataranetos de dois casais de escravos da antiga fazenda: Tertuliano e Miquelina; Pedro e Militana
Foto: Davy Alexandrisky


No quilombo de Valença os moradores vivem do roçado e cultivam especialmente o milho, que garante a produção das tradicionais broas
Foto: Wallace Feitosa

Fotos: Henrique Magro


Capa

Quilombos:
uma luta eterna


     Com um número que se aproxima dos cinco mil, as comunidades remanescentes de quilombos estão presentes em quase todos os estados brasileiros; apenas Acre, Roraima e Distrito Federal não abrigam núcleos de indivíduos descendentes de escravos. Um levantamento realizado pela Fundação Cultural Palmares, ligado ao Ministério da Cultura, já mapeou 3.524 delas e, de acordo com a Secretaria de Políticas e Promoção da Igualdade Racial, vinculada ao Ministério dos Direitos Humanos, a população quilombola do Brasil é estimada em 502 mil pessoas, com a maior parte delas estabelecida em áreas rurais.
     Além de ocupar espaços fora dos grandes centros urbanos e procurar manter as tradições herdadas dos antepassados – seja na cultura, religião, culinária ou outros aspectos -, as atuais populações quilombolas tem outro importante ponto em comum: a luta pela obtenção dos títulos de seus territórios. Embora seja um direito previsto na Constituição de 1988, até o momento apenas 295 comunidades, entre as cerca de 1,5 mil que já recorreram ao Incra (Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária), garantiram este direito; o restante ainda tem seus requerimentos em tramitação. As áreas já tituladas, aproximadamente 7,5 mil km², formam um irrisório percentual de menos de 0,1% de todo o território nacional.
     Cercada por três pedras monumentais – Cantagalo (também conhecida como Tapera), Carneiro e Baianinha –, uma área de 100 hectares, no final de linha do condomínio Vale da Boa Esperança, em Itaipava, faz parte dessa estatística. Ali vivem 16 famílias descendentes de escravos da Fazenda Santo Antônio – atualmente, são 64 pessoas, entre elas 24 crianças – que lutam para manter a posse das terras e ter o direito a elas reconhecido oficialmente.
     Embora já ocupe o território desde o final do século XIX – quando os escravos libertos, seus antepassados, foram transferidos para o local –, somente em 2011, depois de a localidade ser fortemente atingida pela tragédia climática que afetou grande parte da região serrana do Rio de Janeiro, a comunidade foi reconhecida como quilombola.
     Orientados pelo Procurador da República Charles Stevan da Mata Pessoa, os moradores fundaram uma associação para que pudessem fazer jus a um requerimento junto à Fundação Cultural Palmares para a obtenção da certidão de autodefinição das terras como espaço remanescente do quilombo, o que acabou acontecendo poucos meses depois.
     “Foi a partir da tragédia que começou a nossa luta; não só para receber a certificação, mas também para melhorar o acesso, principalmente para que o ônibus escolar pudesse chegar até aqui, e ainda para a instalação da luz elétrica”, conta Adão Casciano, líder comunitário e atual presidente da Associação de Moradores da Tapera.
     Os deslizamentos de terra provocados pelo grande volume de chuvas e que destruíram completamente algumas das moradias, além de danificar parcialmente outras tantas, também promoveram mudanças na comunidade. A Defesa Civil determinou como áreas de risco os locais onde as casas – muitas delas de pau a pique, como nos tempos dos primeiros ocupantes – tinham sido erigidas e os moradores foram obrigados a deixar o local. Somente no final de 2013, com casas construídas (em PVC revestido de concreto) por um programa da Prefeitura em outra parte do terreno, puderam retornar.
     Mas estas foram apenas algumas das batalhas vencidas. A escritura definitiva, que garante o direito pleno às terras ainda não foi conquistada pela associação, apesar do proprietário original da Fazenda Santo Antônio, Agostinho Goulão, ter, em 1849, deixado aquela fatia de terra como um legado aos escravos alforriados e de seus descendentes morarem ali há mais de 160 anos – o que já lhes garantiria o título de propriedade por usucapião, mesmo que as famílias não descendessem de escravos – e ainda com o usufruto concedido à comunidade, em 1935, pela Cia. Industrial, Agrícola e Pecuária Itaipava, ex-proprietária de parte da fazenda.
     Enquanto isso, é o sentimento de união e a valorização das tradições que mantém o fôlego dos moradores da Tapera. Assim como a grande maioria dos quilombolas estabelecidos em regiões rurais, as famílias do Quilombo da Tapera anseiam pela autossustentabilidade das terras que ocupam. Originariamente agrícola, a comunidade sempre teve grande dificuldade de tirar o sustento da produção local e a maioria de seus membros adultos hoje presta serviços, principalmente de jardinagem, às propriedades do condomínio formado em uma extensa área da antiga fazenda.
     De acordo com Adão, entretanto, a aspiração permanece. “Felizmente, essa terra é muito boa; aqui, qualquer coisa que se plantar nasce. Mas como as melhorias de acesso (fundamentais ao escoamento da produção sem o risco de perda dos produtos) demoraram muito a chegar, as pessoas foram, aos poucos, buscando alternativas de trabalho que garantissem a sobrevivência. Quando começamos a nos organizar de maneira mais forte, tivemos, pela primeira vez, a chance de conhecer projetos que podem nos ajudar a trazer a agricultura de volta e fazer com que o lugar seja autossustentável.”
     Nos planos não está apenas a atividade agrícola – com a produção de hortaliças orgânicas e cultivo de frutas para a confecção de compotas e geleias, com técnicas de agroecologia –, mas também o desenvolvimento de artesanato local e ações que promovam o turismo de baixo impacto. Para isso, contam com apoio de instituições como a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), que já delineou um projeto com base nas características e necessidades da comunidade e treina alguns de seus membros para que atuem como multiplicadores, com vistas ao engajamento de todos na futura implantação dos programas.
     Fazem parte do escopo do projeto (publicado no site da instituição): ações e iniciativas de geração de renda embasadas em estratégias de conservação, preservação e manejo da biodiversidade local, por meio de agricultura sustentável; fortalecimento da produção de artesanatos e produtos da biodiversidade local pelas mulheres da comunidade; implantação de restaurante de comida típica quilombola e qualificação da comunidade para atuação associativista com foco em empreendimento solidário e incentivo à educação formal.
     Atualmente, em escala bem reduzida, algumas dessas ações já vêm sendo realizadas. Para celebrar o Dia Nacional da Consciência Negra (comemorado a 20 de novembro e estabelecido pelo projeto de lei número 10.639 no ano de 2003), por exemplo, o Quilombo da Tapera prepara sua tradicional feijoada, que atrai muitas pessoas interessadas em conhecer esta localidade histórica de Itaipava e a especialidade culinária, que, afirmam os que já experimentaram, “é dos deuses!”. A venda de artesanato e doces típicos é realizada em outros eventos organizados ali esporadicamente, como festas juninas e outros.
     Manter viva a história de seus ancestrais, apresentando seu modo de vida e transmitindo suas tradições culturais para as novas gerações, é outro objetivo da comunidade. Em uma área com vista privilegiada para a mata e as montanhas, os moradores da Tapera construíram um espaço de convivência onde se realizam as celebrações e que guarda todas as características das edificações dos antigos quilombos. Na pequena casa de pau a pique e chão de terra batida foi instalado o fogão à lenha de onde saem as comidas típicas preparadas pelas mulheres do grupo e que figuram, inclusive, no livro A Cozinha dos Quilombos: sabores, territórios e memórias, publicado pelo Instituto DAGAZ, que contempla 29 comunidades quilombolas do Estado do Rio de Janeiro.
     Como forma de celebrar sua riqueza cultural, a comunidade também criou o Grupo de Artes do Quilombo da Tapera, que participa de diferentes manifestações artísticas e eventos das mais diversas naturezas. A estreia da trupe formada por crianças e adolescentes foi na Maratona Cultural em comemoração aos 174 anos de Petrópolis, realizada em março de 2017. Na ocasião, os jovens participaram do musical Quilombo nossa riqueza imperial, que integrou o segmento da cultura afro brasileira, indígena e popular de Petrópolis e que contou ainda com apresentação de 60 artistas locais na Roda de Jongo promovida pelo Afro Serra - grupo de resistência da cultura negra na cidade, voltado para oficinas e apresentações de Jongo, artesanato, palestras e pesquisas sobre a cultura afro brasileira.

QUILOMBOS PELO BRASIL – MUITO ALÉM DE PALMARES
     Maior símbolo da resistência negra no país, Palmares, merece, claro, destaque em todos os tratados sobre o tema. Localizado na Serra da Barriga, em Alagoas, era uma espécie de confederação que abrigava diferentes quilombos da região. Sua alta capacidade de organização representava uma séria ameaça para a ordem escravocrata vigente e sucessivos governos organizaram expedições com o objetivo de destruir o povoado. Os seguidores dos líderes Ganga Zumba e, posteriormente, Zumbi (seu sobrinho), entretanto resistiram de maneira tão eficaz que, ao longo de quase um século, conseguiram derrotar aproximadamente trinta expedições militares.
     Até hoje, a Serra é considerada um solo sagrado e de resistência do povo afro-brasileiro e, em 1985, foi tombada como Patrimônio Histórico, Arqueológico, Etnográfico e Paisagístico. Em 2007, foi fundado no platô da Serra da Barriga, no município de União de Palmares, o Parque Memorial Quilombo dos Palmares, primeiro complexo arquitetônico de inspiração africana das Américas, que recria o ambiente do maior, mais duradouro e organizado quilombo de que se tem notícia.
     Ainda que nem tão conhecidos ou com história tão grandiosa, são inúmeros os agrupamentos que ao longo da história se distinguiram por características peculiares. No Estado de Goiás, por exemplo, o Quilombo dos Kalunga se estendeu por um vasto território, abrangendo três municípios: Cavalcante, Monte Alegre e Teresina de Goiás. Formado por uma aliança entre os escravos fugidos do garimpo de ouro e indígenas de diferentes nações (Acroá, Capepuxi, Xavante, Kaiapó e Karajá, entre outras) que já viviam no lugar há centenas de anos, o quilombo também abrigava brancos pobres. Hoje reconhecido como Sítio Histórico e Patrimônio Cultural Kalunga, tem 230 mil hectares de cerrado e cerca de 5 mil pessoas que moram lá ou trabalham no entorno. É o maior território remanescente de quilombolas do Brasil.
     Na Bahia, o Quilombo do Urubu tem também traços distintos dos demais. Foi originado de uma sociedade secreta denominada Og Boni, formada, entre 1807 e 1809, por diferentes grupos de africanos escravizados que lutavam contra a condição e acabaram instalando, em 1826, nas proximidades de Salvador, o quilombo que teve como líder principal uma mulher chamada Zeferina.
     Minas Gerais pode ser considerado um celeiro de quilombos; estudos estimam a existência de 160 deles no estado. No fim do século XVII, perío­do que marcou o fim do Quilombo de Palmares, foram descobertas em Minas as jazidas de ouro e diamante e a região transformou-se na base geo­gráfica e econômica do escravismo colonial bra­sileiro. Há registros bastante representativos de experiências de quilombos em Minas Gerais e o mais importante deles é o de Campo Grande, com uma população de 20 mil quilombolas e organização parecida com a de Palmares.
     Em praticamente todo o território brasileiro há registros de organizações hoje denominadas Comunidades Remanescentes de Quilombos, mas, na prática, o que essas populações representam? Originalmente, esses agrupamentos se formaram como uma das maiores expressões de luta organizada no Brasil, último país do mundo a abolir a escravidão, em resistência ao sistema colonial-escravocrata.
     Na obra O Quilombismo (Editora Vozes – 1980), Abdias do Nascimento, um dos mais importantes ativistas do país em prol dos direitos civis e humanos das populações negras, oferece a seguinte definição: “Quilombo é um movimento amplo e permanente que se caracteriza pelas seguintes dimensões: vivência de povos africanos que se recusavam à submissão, à exploração, à violência do sistema colonial e do escravismo; formas associativas que se criavam em florestas de difícil acesso, com defesa e organização socioeconômica e política próprias; sustentação da continuidade africana através de genuínos grupos de resistência política e cultural.”
     Ainda que os processos de titulação estejam avançando – dados atuais do Incra dão conta de que existem 220 títulos emitidos, regularizando 754.811,0708 hectares em benefício de 152 territórios, 294 comunidades e 15.910 famílias quilombolas –, a inserção plena dos indivíduos afro brasileiros ainda não se deu, mesmo passados quase 130 anos da abolição. Para todos, quilombolas ou não, a luta é permanente.


Fontes: Fundação Cultural Palmares:
www.palmares.gov.br
Incra: www.incra.gov.br
Rede Brasil Atual: www.redebrasilatual.com.br
Portal São Francisco:
www.portalsaofrancisco.com.br
Procuradoria Geral da República:
https://pgr.jusbrasil.com.br
Mapa de Cultura RJ: www.mapadecultura.rj.gov.br

Nossos agradecimentos aos que colaboraram com imagens para a matéria:
Monica Valverde – “Grupo Afro Serra” Petrópolis – RJ
monica.valverde@yahoo.com.br
http://afroserra.blogspot.com.br
Wallace Feitosa (fotógrafo) – Volta Redonda - RJ
(24)99924.4994
www.wallacefeitosa.zenfolio.com
wallacefeitosa@uol.com.br
Davy Alexandrisky (fotógrafo) – Niterói - RJ
(21)2721.4373 e 2721.4374
www.quilindoquilombo.com.br
davy@campusavancado.org.br


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