“Abraço” (da série “Cromados”) – Solange Mano


“Fragmentos” – Rosane Teixeira

“Torres” – Lydia Sebastiany


“Peles do Ser” – Ana Rondon

“Sopeira Fruto do Mar” – Jean Ruffier

“Equilíbrio” – Maria Luiza Lacerda

“Guardião” – Arthur Bosísio


Da esquerda para direita: “Obesidade Familiar” – Jean Ruffier; “Coral” e “Inadequação” – Maria Luiza Lacerda

“Ceramofone (de uma nota só)” – Ivo Ferreira

“Peixe” – Maria Luiza Lacerda

“Flor” – Jane Maia Weinsberg

“Cálice” – Márcia Limmanii


Fotos: Henrique Magro

Especial

Cerâmica de Petrópolis

Atuação de artistas locais revigora antiga tradição da cidade

     Celeiro de todas as manifestações artísticas, com uma grande produção em diversos ateliês espalhados por todos os Distritos, além do Centro, a cidade mantém tradição especialmente na arte que nasce do barro. Ações que visam ao fomento – como uma recente exposição coletiva realizada em Itaipava, e cujas obras ilustram esta matéria, além do aumento do número de ateliês que incluem aulas entre as atividades – tem sido cada vez mais frequentes e demonstram o crescente interesse do público pela cerâmica.
     Com características que os tornam únicos, os objetos produzidos com argila têm, ao longo de milênios, servido à humanidade nas mais diversas formas. Sua ocorrência em diferentes culturas se dá desde a mais remota antiguidade e o estudo das técnicas de fabricação constitui-se em um verdadeiro manual para arqueólogos e historiadores, fornecendo dados precisos para a reconstrução de uma série de aspectos pertinentes a praticamente todas as sociedades de que se tem notícia.
     “O barro acompanha a humanidade desde sempre e ajuda a contar a sua história, possibilitando, inclusive, a avaliação do grau de evolução das civilizações pelos artefatos confeccionados com este material. Hoje, até em espaçonaves e componentes de computadores são utilizados objetos produzidos com ele”, salienta o ceramista Ivo Ferreira, que, com o coletivo Arte cerâmica em Petrópolis, formado por mais oito pessoas (Ana Rondon, Arthur Bosisio, Jane Maia Weinberg, Jean Ruffier, Lydia Sebastiany, Márcia Limmanii, Maria Luiza Lacerda e Rosane Teixeira) é um dos responsáveis pelo novo vigor impresso à atividade na cidade.
     Para além da empregabilidade do material em inúmeras formas, entretanto, é o prazer proporcionado pelas obras que diferenciam a cerâmica das outras manifestações estéticas; tanto para quem as observa (basta dar uma olhadinha nas peças apresentadas aqui) quanto, e principalmente, para aqueles que as produzem. “Quando se está trabalhando em uma peça, há um momento inicial em que o barro está ali como algo independente de você; a partir de um certo ponto não há mais essa divisão, a peça passa a ser uma extensão sua e o que vivenciamos nesta hora é algo muito forte”, considera Jane Weinberg.
     De acordo com Maria Luiza Lacerda, a cerâmica proporciona, mais do que qualquer outra manifestação artística, a possibilidade de desenvolvimento pleno de uma visão própria do mundo. “Com simplicidade, conseguimos dar a resposta a essa observação da vida, concretizando em um objeto nosso modo próprio de sentir cores, texturas e formas sem ficarmos aprisionados nelas; muito pelo contrário, a gente se liberta e consegue dar uma resposta pessoal para o mundo”, diz.
     Em contraponto à agitação do mundo moderno, em que recebemos um volume gigantesco de informações a uma velocidade vertiginosa, a arte em cerâmica, por exigir tempo, concentração e entrega para lidar com os quatro elementos fundamentais – terra, água, fogo e ar são os seus componentes fundamentais, além das mãos que moldam as obras – a atividade pode ser considerada como uma completa terapia.
     O respeito ao tempo da matéria que esta arte exige é, também, uma forma de valorizarmos nosso próprio tempo, considera Ivo. “Porque entramos em outra vibração ao nos relacionarmos com os elementos naturais. Acredito que este é um fator que contribuiu muito para o aumento do número de pessoas que vêm buscando a cerâmica, uma prática que leva a um verdadeiro oásis no meio dessa loucura que vivemos hoje e que propicia um resgate de nós mesmos.”
     Uma das formas encontradas pelo coletivo para valorizar e divulgar a prática, assim como aumentar ainda mais o número de pessoas que buscam na cerâmica uma forma de expressão, foi o desenvolvimento do projeto “Jovem Aprendiz”, em que membros de comunidades carentes podem ter acesso às técnicas nos ateliês dos participantes do grupo. Além de favorecer a difusão da arte, o programa pretende se estabelecer como uma alternativa de inserção econômica para populações de baixo poder aquisitivo.
     O objetivo de geração de renda inclui também o estímulo à produção, dentro das comunidades, de peças que possam ser adquiridas como um suvenir de Petrópolis. A exemplo do que já acontece em outros destinos turísticos – como o Parque Nacional da Serra da Capivara, no Piauí, que transformou sua cerâmica utilitária, com pinturas que representam a arte rupestre do sítio arqueológico, em um cartão de visitas do estado e hoje exporta seus produtos para países da Europa e da América do Norte –, a ideia é usar símbolos da cidade nas peças que seriam comercializadas como lembranças daqui.
     Atualmente, o número estimado de ateliês na cidade se aproxima dos 20 e as ações que vem sendo promovidas pelo Arte Cerâmica em Petrópolis são um “trabalho de formiguinha”, que demanda bastante tempo e empenho, mas fundamentais não apenas para a ampliação da atividade como para a visibilidade deste fazer artístico de qualidade que hoje se desenvolve em Petrópolis. Com a participação de duas ceramistas do grupo, Lydia Sebastiany e Márcia Limmanii, em edições da Cluj International Ceramics Biennale – bienal realizada pelo Museu de Arte de Cluj-Napoca, na região da Pensilvânia, que reúne artistas de todo o mundo – já foi dado um primeiro passo para a projeção internacional da produção local.

Para saber mais sobre a cultura cerâmica, sua tradição na cidade, seus artistas e projetos visite o site do grupo: www.arteceramicaempetropolis.com.br.


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