Criatividade para dar e vender; não bastassem as belas imagens que fabrica, Sebastião projeta e constrói, com materiais recicláveis, os cenários que disponibiliza para outros artistas em seu ateliê aberto

As estruturas montadas com lâmpadas de 2m de comprimento criam um efeito que possibilita inúmeras utilizações em fotografia

Garrafões de vinho e tubos de PVC também estão entre os reciclados que ao longo dos anos o artista vem acumulando para montar cenários no VIVAFOTOGRAFIA!

Reinventar sempre! O ateliê aberto vive agora um momento diferente e a inauguração oficial desta nova etapa está marcada para 19 de agosto, Dia Mundial da Fotografia

Na original casa do sítio localizado no Vale das Videiras, Sebastião pretende receber hóspedes para uma imersão no universo da fotografia. O estilo da construção, que se assemelha ao das palafitas, é uma homenagem do fotógrafo a sua cidade natal


O espírito construtivista aflora não apenas nas fotos, mas também na fabricação de equipamentos, como as pinholes de madeira feitas artesanalmente por Sebastião e que acabam integrando as exposições como verdadeiras obras de arte

Fotos mais recentes, excepcionalmente realizadas com câmera digital e um processo de sobreposição de imagens com filtros coloridos distintos (vermelho, azul e amarelo) no momento da captação. O resultado final, sem a utilização de programas de computação gráfica ou qualquer tecnologia disponível, é fruto exclusivo da imensa capacidade criativa de Sebastião, gerando imagens surpreendentes



Filtros coloridos, água e objetos triviais são uma constante na obra do artista; o Vale das Videiras, locação da fotos (sem título) que integram a Série Imagemágicas, iniciada nos anos 1990, é também cenário frequente para as invencionices deste “carpinteiro visual”






A apropriação de espaços públicos é também uma marca registrada do fotógrafo. Para a série intitulada Av. Rio Branco (1978) ele inseriu elementos prosaicos na movimentada avenida do Centro do Rio de Janeiro, tingindo a rua de cores vivas, despertando a curiosidade dos passantes e interferindo no cotidiano da metrópole

Também integrante da Série Av. Rio Branco, a imagem com fortes tons surrealistas destaca o contraste entre os apressados pedestres que caminham na rua e a lassidão sugerida pelos braços da modelo na janela

Outro exemplo da mesma série - impressa no livro Se­­bas­tião Barbosa, fotógrafo – Reinvenção da Fotografia / Afirmação da Fotografia – trans­forma, com a presença das crianças e seus brinquedos, a avenida tradicionalmente ocupada por trabalhadores em um espaço lúdico

Um dos trabalhos mais premiados de Sebastião, a foto feita em Teresópolis, em 1975, e que integra a Coleção Pirelli/MASP de Fotografia, é a mais pura tradução do processo criativo do artista: a roteirização de ideias surgidas em conversas despretensiosas ou da simples observação da vida cotidiana

Um dos monumentos mais conhecidos do mundo, o Cristo Redentor fica ainda mais impactante pelas lentes de Sebastião. A foto de 1975 deixa transparecer a pegada surrealista que o fotógrafo imprimiu a seu trabalho na época


O estúdio de Santa Teresa, no Rio de Janeiro, aberto por Sebastião logo que saiu da Câmara Três (primeira agência profissional de fotografia do Brasil, que fundou em parceria com o fotógrafo alemão Claus Meyer na mesma cidade) também foi palco das experimentações do artista. Embora tivesse as fotos de propaganda como objetivo principal, o estúdio também servia às produções autorais, como esta de 1980



Sebastião Barbosa


Capa

Reinventar e afirmar



     É desta premissa que parte o trabalho do fotógrafo Sebastião Barbosa. Mas classificá-lo apenas como fotógrafo seria até uma injustiça. Ao irrequieto profissional, cabe melhor o título de carpinteiro visual, ou, em suas próprias palavras: “se tivesse que me classificar como artista, diria que sou, sobretudo, construtivista”. Ele justifica a autointitulação pela sua constante alegria em estar sempre construindo os mais variados cenários para ilustrar as imagens fotográficas que ao longo da carreira produziu e ainda produz com muito vigor.
     A afirmativa se concretiza do modo mais categórico possível com a futura inauguração, em 19 de agosto deste ano, de um novo momento do VIVAFOTOGRAFIA!, um parque temático dedicado a esta arte e projeto a que Sebastião vem se dedicando há tempos em sua propriedade, no Vale das Videiras, em Araras. Neste verdadeiro estúdio a céu aberto, com diferentes ambientações e uso de materiais reciclados para compor cenários diversos, ele vai receber outros fotógrafos, profissionais ou não, para que criem suas próprias imagens, pessoas ligadas a outras manifestações artísticas e quem mais se interessar por expressões estéticas e culturais.
     O sítio, com bosque e lago artificial, também abriga três estúdios convencionais e o parque será utilizado ainda para a realização de work­shops ministrados por Sebastião, que pretende hospedar na ampla casa os interessados em fazer uma imersão no universo da fotografia. “Foi uma forma que encontrei de estar em permanente contato com as novas gerações de profissionais; o prazer de ter criado este lugar, inclusive, é algo que me rejuvenesce”, empolga-se o artista amazonense, que completou 76 anos em janeiro deste ano.
     A despeito da idade, Sebastião continua sendo um dos mais inovadores fotógrafos que o país já produziu. “Sempre gostei de fazer tudo novo; e o novo exclui peremptoriamente o que todo mundo já viu, ou que já está aí desde sempre para ser visto. Desde meus primeiros arroubos como fotógrafo lutei contra o já existente, contra o céu azul. Os mundos e todos os elementos das minhas imagens fotográficas, as que me atrevo a assinar como minhas, são construídas unicamente por mim”, declara.
     Por mais paradoxal que possa parecer, a inovação está no retorno aos primórdios da fotografia no que diz respeito aos equipamentos e técnicas que utiliza em suas obras. Sebastião nunca (nunca mesmo, por mais que as imagens que ilustram esta matéria gritem o contrário!) lançou mão de máquinas digitais ou programas de computação gráfica para conseguir os incríveis efeitos de suas fotos. Muito pelo contrário, percorrendo o caminho inverso ao da maioria, que usa e abusa da tecnologia hoje disponível, está cada vez mais interessado em fazer experimentos com câmeras do tipo estenopeica ou pinhole.
     Agora, uma pequena digressão para compartilhar com o caro leitor conhecimentos recentemente adquiridos: uma câmara pinhole (do inglês pin-hole, “buraco de alfinete” em bom português) é uma máquina fotográfica sem lente, constituída de uma caixa qualquer em que a luz não penetre, a não ser por um minúsculo furo de cerca de meio milímetro. Como conhecimento nunca é demais: em português, o termo “estenopeica” deriva do grego stenós (estreito) e a denominação é em referência a este diminuto orifício.
     Voltando ao que nos trouxe aqui, os trabalhos mais recentes de Sebastião com as máquinas analógicas demonstram sua percepção em relação às mazelas cotidianas deste tecnologicamente apetrechado século XXI. Para Claudio Partes – fotógrafo e artista plástico que participa da produção e curadoria de alguns projetos de Sebastião – a sensibilidade no uso de objetos banais para a realização de belas imagens é justamente o ponto forte do colega e amigo.
     “Um aspecto muito forte na obra de Sebastião é todo o processo analógico, que vai desde o recolhimento do objeto à elaboração das imagens e efeitos desejados. Em alguns casos, também a construção de suportes ou recursos para colocar o objeto em movimento e a utilização de filtros - o que nos tempos atuais, tão digitais, fazem o observador pensar que muitas das imagens são frutos de recursos de programas de computação gráfica. Com isso, vejo em suas obras um olhar muito sensível, crítico e conectado com aspectos cotidianos, que vão da geração de lixo por descartes diversos ao impacto e descaso com questões ambientais”, analisa Partes.
     Foi com esta visão que Sebastião aparelhou o VIVAFOTOGRAFIA!. Os cenários que arquitetou para o projeto são, em sua grande maioria, produzidos com materiais de descarte que amealhou durante muito tempo. Lâmpadas, tubos de PVC, garrafões de vinho e outros objetos prosaicos causam um efeito surpreendente, assim como todos os acessórios, igualmente triviais, que costumeiramente utiliza para compor suas imagens.
     Sempre impregnadas de múltiplos sentidos, algumas com forte influência surrealista, as imagens fabricadas por Sebastião surgem de uma construção mental, a partir de conversas com amigos ou da simples observação do cotidiano. As que compõem as séries Av. Rio Branco (1978) e Imagemágicas (anos 1990 e 2000) são emblemáticos nesse sentido.
     A que traduz mais fielmente seu processo de criação, entretanto, é uma de suas mais premiadas obras (1975, sem título), que sugere uma mulher longilínea que se esvai do banco do motorista até o capô de um Fusca e integra a Coleção Pirelli/Masp de fotografia. A história é curiosa: logo que chegou ao Rio de Janeiro, na década de 1960, ele se surpreendeu ao ouvir falar de casais que praticavam sexo dentro de automóveis e criou uma imagem que ironizava o ato.
     “Eu roteirizo as minhas ideias, são sacadas que, se eu posso, construo”, declarou em entrevista à Ana Maria Mauad, professora de História e pesquisadora, que assina um dos textos do livro Sebastião Barbosa, fotógrafo – Reinvenção da Fotografia / Afirmação da Fotografia. A obra – desdobramento de uma exposição individual e lançada em 2012, com produção editorial da Letra e Imagem e patrocínio da Oi Futuro – apresenta uma retrospectiva da produção autoral do artista entre os anos de 1975 e 2012.
     O livro reúne ainda outras histórias saborosas do manauara que iniciou sua carreira como fotojornalista em Belém do Pará, trabalhou em grandes veículos da imprensa carioca, fundou a primeira agência de fotografia profissional do Brasil, teve um estúdio próprio especializado em fotos publicitárias, integrou o acervo do Image Bank (banco internacional de imagens) com mais de 60 mil fotos, desenvolveu uma série de projetos culturais e, sobretudo, construiu a própria imagem como um dos mais conceituados fotógrafos autorais do Brasil.
     A leitura do parágrafo anterior, pela quantidade de realizações do irrequieto construtivista e pela necessidade da escrita de não interromper o fluxo da enumeração, já é de tirar a respiração, desculpe por isso. Mas, espere só até ter uma oportunidade de folhear o livro; algo que – a esta altura, apenas por este pequeno aperitivo de imagens aqui reunidas – muitos já estão morrendo de vontade de fazer sem nem pensar em economizar o fôlego.

VIVAFOTOGRAFIA!
Ateliê Aberto Sebastião Barbosa:
Rua Linda Sampaio, s/n Vale das Videiras, Araras
(24) 2225 8675 (24) 98824-3378 (21) 96810-9577
vivafotografia@gmail.com

Nossos agradecimentos ao artista visual Cláudio Partes (claudiopartes@gmail.com) pela inestimável colaboração nesta matéria

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